{"id":9354,"date":"2012-01-10T14:50:01","date_gmt":"2012-01-10T14:50:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9354"},"modified":"2012-01-10T14:50:01","modified_gmt":"2012-01-10T14:50:01","slug":"aids-senegal-prisioneiros-com-dupla-condenacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/africa\/aids-senegal-prisioneiros-com-dupla-condenacao\/","title":{"rendered":"AIDS-SENEGAL: Prisioneiros com dupla condena\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Dacar, Senegal, 10\/01\/2012 &ndash; Amadou* respira profundamente, limpa a garganta e se dirige \u00e0 frente do sal\u00e3o. Ent\u00e3o, se vira para observar v\u00e1rios rostos conhecidos em Camp Penal, a pris\u00e3o de seguran\u00e7a m\u00e1xima da capital senegalesa. <!--more--> Este \u00e9 o \u00faltimo de um grupo de 150 presos com os quais Amadou conversou hoje. Est\u00e1 cansado, mas continua concentrado. \u201cConhe\u00e7o suas realidades\u201d, come\u00e7a, em seu idioma nativo wolof. \u201cDormi nos mesmos colch\u00f5es que voc\u00eas, comi a mesma comida e me banhei nos mesmos banheiros. Hoje estou aqui para falar sobre a aids: o que \u00e9, como se contrai e como se prevenir\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Os prisioneiros o ouvem com aten\u00e7\u00e3o. Para a maioria deles, Amadou n\u00e3o \u00e9 um estranho. H\u00e1 menos de tr\u00eas anos esteve aqui, vivendo entre os cerca de 800 presos, cumprindo pena de dois meses. Amadou foi preso em dezembro de 2008, junto com outros oito homens, por supostamente \u201cparticipar de atos homossexuais\u201d, um crime s\u00e9rio neste pa\u00eds de maioria mu\u00e7ulmana. Foi condenado a oito anos de pris\u00e3o, mas logo o caso tomou outro rumo, quando intervieram organiza\u00e7\u00f5es internacionais de assist\u00eancia. Atualmente, Amadou continua trabalhando como ativista gay contra a aids, ajudando a promover estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o de danos em todo pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Senegal tem uma das menores preval\u00eancias do v\u00edrus HIV, causador da aids, na \u00c1frica subsaariana, inferior a 1%. Mas o grupo mais vulner\u00e1vel \u00e9 o dos homens que praticam sexo com outros homens. Deles, quase 22% s\u00e3o HIV positivo. As pris\u00f5es s\u00e3o ambientes de alto risco para a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a, devido \u00e0 preval\u00eancia de drogas pesadas, viol\u00eancia e rela\u00e7\u00f5es sexuais sem prote\u00e7\u00e3o. Ali n\u00e3o h\u00e1 exames obrigat\u00f3rios, e para os prisioneiros que, sabendo ou n\u00e3o, vivem com o HIV, as tens\u00f5es de viver na pris\u00e3o \u2013 que inclui celas lotadas, condi\u00e7\u00f5es insalubres e m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o \u2013 significam que sua sa\u00fade est\u00e1 ainda mais comprometida.<\/p>\n<p>Cyrille* \u00e9 um detento HIV positivo de Camar\u00f5es, que cumpre senten\u00e7a de dois anos em Camp Penal por roubo. Soube que contra\u00edra aids h\u00e1 seis anos, quando foi hospitalizado em raz\u00e3o de um co\u00e1gulo em uma das pernas. Todos os meses vai ao Centro de Tratamento Ambulatorial em Dacar para receber medicamento antirretroviral, que \u00e9 financiado pelo governo senegal\u00eas. Diz estar muito preocupado com sua sa\u00fade, porque sabe de tr\u00eas pacientes com aids que j\u00e1 morreram, e seu pr\u00f3prio m\u00e9dico lhe diz que precisa melhorar sua dieta.<\/p>\n<p>Segundo Alassane Balde, chefe do pessoal m\u00e9dico de Camp Penal, tudo o que os detentos recebem s\u00e3o tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia, mas muitos preferem comer alimentos levados por familiares. No entanto, os estrangeiros que est\u00e3o aqui sem suas fam\u00edlias, como Cyrille, n\u00e3o podem ter esse luxo e acabam levando uma dieta invari\u00e1vel de p\u00e3o, manteiga, arroz e pescado, com poucas frutas e verduras ou produtos l\u00e1cteos.<\/p>\n<p>Ao ser perguntado sobre a implementa\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o de danos na pris\u00e3o, ou mediante um programa de troca de seringas ou da distribui\u00e7\u00e3o de preservativos, Balde se mostrou completamente contra. Ele diz que os detentos n\u00e3o t\u00eam problemas com drogas e que um programa de entrega de preservativos simplesmente n\u00e3o seria tolerado. \u201cNossa religi\u00e3o n\u00e3o permite isso. Somos mu\u00e7ulmanos, e n\u00e3o gostamos de ver isso. N\u00e3o h\u00e1 toler\u00e2ncia para este tipo de conduta. \u00c9 um tema tabu, e nem mesmo falamos sobre ele\u201d, afirmou Balde.<\/p>\n<p>No entanto, Amadou destaca que esta \u00e9 uma presun\u00e7\u00e3o perigosa, porque o sexo entre homens \u00e9 uma realidade nas pris\u00f5es, embora se continue fazendo vista grossa. \u201cAdmitam ou n\u00e3o, todos sabem que h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es sexuais entre homens nas pris\u00f5es\u201d, advertiu Amadou depois da palestra, em sua casa em Dacar. Desde sua pris\u00e3o, que foi atentamente acompanhada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, ele e seu companheiro, Cheikh*, foram obrigados a se mudar mais de sete vezes, depois que os senhores da terra descobriram suas identidades.<\/p>\n<p>Brendan Hanlon \u00e9 o diretor-executivo da Avert, uma organiza\u00e7\u00e3o de luta contra a aids, com sede na Gr\u00e3-Bretanha. Ele afirma que h\u00e1 poucas d\u00favidas de que a preval\u00eancia do HIV seja maior entre os presos do que entre o restante da popula\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 uma car\u00eancia de programas de preven\u00e7\u00e3o do HIV, porque as autoridades temem que distribuir preservativos ou seringas incentive o uso de drogas ou a atividade sexual. Mas a verdade \u00e9 que as pessoas far\u00e3o estas coisas de qualquer maneira\u201d, alertou Hanlon.<\/p>\n<p>Um estudo feito com 500 detentos de uma pris\u00e3o da Costa do Marfim concluiu que a preval\u00eancia era de 28%, isto \u00e9, o dobro da registrada entre a popula\u00e7\u00e3o em geral, acrescentou Hanlon. Na \u00c1frica do Sul, pa\u00eds com maior quantidade de pessoas vivendo com HIV (5,6 milh\u00f5es), entre 40% e 45% dos prisioneiros s\u00e3o HIV positivos. Embora n\u00e3o haja estat\u00edsticas dispon\u00edveis para as pris\u00f5es do Senegal, Hanlon acredita que nelas a propor\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m seja maior.<\/p>\n<p>Depois que Amadou termina sua palestra na pris\u00e3o, pergunta se algu\u00e9m tem perguntas. Poucos segundos depois, v\u00e1rias m\u00e3os se levantam. Todos querem saber se podem contrair compartilhando um ch\u00e1, ou na barbearia, ou se podem transmitir o v\u00edrus ao seu filho, e at\u00e9 como saber se est\u00e3o doentes. \u201cPosso fazer eu mesmo um exame neste momento?\u201d, pergunta abertamente um dos presos mais jovens. Outros concordam.<\/p>\n<p>Amadou se mostra satisfeito. \u201cSe os homens que praticam sexo com homens promovem este tipo de atividade preventiva para a sa\u00fade de toda a comunidade, devem ser incentivados. Este trabalho n\u00e3o \u00e9 para n\u00f3s mesmos, mas para todos. Contudo, quantos se atrevem a enviar essa mensagem? Porque \u00e9 disto que realmente precisamos\u201d, afirmou. H\u00e1 previs\u00e3o de que nos pr\u00f3ximos meses comece um programa de exames volunt\u00e1rios em grande escala na pris\u00e3o. Enquanto isso, Amadou e sua organiza\u00e7\u00e3o continuar\u00e3o divulgando seus conhecimentos em outras pris\u00f5es do pa\u00eds. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Nomes fict\u00edcios.<\/p>\n<p>** Publicado sob acordo com o Street News Service.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dacar, Senegal, 10\/01\/2012 &ndash; Amadou* respira profundamente, limpa a garganta e se dirige \u00e0 frente do sal\u00e3o. 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