{"id":9370,"date":"2012-01-13T15:51:34","date_gmt":"2012-01-13T15:51:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9370"},"modified":"2012-01-13T15:51:34","modified_gmt":"2012-01-13T15:51:34","slug":"diaspora-haitiana-testa-coerencia-migratoria-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/america-latina\/diaspora-haitiana-testa-coerencia-migratoria-do-brasil\/","title":{"rendered":"Di\u00e1spora haitiana testa coer\u00eancia migrat\u00f3ria do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 13\/01\/2012 &ndash; O Brasil, por d\u00e9cadas emissor de migrantes para os Estados Unidos e a Europa, agora enfrenta seu pr\u00f3prio desafio humanit\u00e1rio: aplicar, aos haitianos que chegam em massa em busca de sobreviv\u00eancia, a solidariedade internacional que apregoa como pol\u00edtica. <!--more--> O alerta veio \u00e0 tona com uma s\u00e9rie de reportagens publicadas na primeira semana do ano, denunciando a atividade de intermedi\u00e1rios ilegais, os \u201ccoiotes\u201d, para introduzir haitianos no Brasil, atrav\u00e9s da fronteira amaz\u00f4nica com Bol\u00edvia e Peru. Cada haitiano pagaria entre US$ 2.500 e US$ 5 mil para custear um percurso que incluiria passagem de avi\u00e3o para Equador, Col\u00f4mbia ou Peru, e um posterior e \u00e1rduo caminho por terra at\u00e9 o Brasil, segundo os testemunhos.<\/p>\n<p>A secular di\u00e1spora haitiana aumentou ap\u00f3s o terremoto que em 12 de janeiro de 2010 assolou um dos pa\u00edses mais pobres do mundo. Atra\u00eddos pelo auge que o Brasil apresenta, como a nova sexta economia mundial, e pelas grandes obras de infraestrutura com vistas \u00e0 Copa do Mundo de 2014 e \u00e0s Olimp\u00edadas de 2016, cerca de cinco mil haitianos escolheram este pa\u00eds como destino desde ent\u00e3o, segundo o Instituto de Migra\u00e7\u00f5es e Direitos Humanos.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil entrou no mapa da di\u00e1spora haitiana\u201d, resumiu para a IPS o soci\u00f3logo Rubem C\u00e9sar Fernandes, diretor da organiza\u00e7\u00e3o Viva Rio, que desenvolve projetos sociais, econ\u00f4micos e culturais no Haiti. Existe uma diversifica\u00e7\u00e3o dos destinos hist\u00f3ricos dos emigrantes haitianos: Canad\u00e1, Estados Unidos, Fran\u00e7a, Antilhas Francesas e Rep\u00fablica Dominicana. Mas a atra\u00e7\u00e3o pelo Brasil acrescenta motivos pr\u00f3prios, afirmou Fernandes.<\/p>\n<p>Desde 2004, o pa\u00eds encabe\u00e7a a Miss\u00e3o de Estabiliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no Haiti e est\u00e1 cada vez mais presente no territ\u00f3rio caribenho. \u201cO Brasil j\u00e1 \u00e9 parte da consci\u00eancia coletiva do Haiti\u201d, analisou Fernandes ao se referir a v\u00ednculos afetivos e simb\u00f3licos, como a origem africana, a m\u00fasica e o futebol. Al\u00e9m disso, os primeiros sinais do Brasil ao receber imigrantes haitianos foram \u201csimp\u00e1ticos e acolhedores, n\u00e3o repressivos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cCheguei em 1992, quando no Haiti n\u00e3o sent\u00edamos a presen\u00e7a do Brasil\u201d, disse \u00e0 IPS o haitiano Andr\u00e9 Yves Cribb, engenheiro agr\u00f4nomo que trabalha na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa), em projetos de coopera\u00e7\u00e3o e desenvolvimento para seu pa\u00eds. \u201cO Brasil come\u00e7ou a estar mais ativo no cen\u00e1rio internacional e em sua diplomacia. Al\u00e9m disso, seu crescimento chama a aten\u00e7\u00e3o de quem busca como sobreviver\u201d, disse Cribb, antes de acrescentar fatores mais subjetivos, como a identifica\u00e7\u00e3o haitiana com o povo brasileiro.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria cat\u00f3lica C\u00e1ritas destaca que a maioria dos imigrantes se concentra nas cidades fronteiri\u00e7as de Tabatinga e Brasil\u00e9ia, onde esperam a regulariza\u00e7\u00e3o de sua situa\u00e7\u00e3o, com a concess\u00e3o de visto humanit\u00e1rio para poderem trabalhar, j\u00e1 que no Brasil n\u00e3o s\u00e3o considerados refugiados. \u201cO Brasil entende a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 maus-tratos e est\u00e1 concedendo vistos humanit\u00e1rios e de trabalho\u201d, disse Cribb.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que durante a espera, que pode durar at\u00e9 seis meses, esses pequenos munic\u00edpios n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es nem infraestrutura para receber tantos imigrantes. Por exemplo, a Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou que em Brasil\u00e9ia, no Estado do Acre, h\u00e1 1.250 haitianos, equivalentes a 10% de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 23 de dezembro, 4.015 haitianos haviam solicitado abrigo. Os pedidos de 3.396 est\u00e3o em an\u00e1lise no Comit\u00ea Nacional para os Refugiados e o restante j\u00e1 est\u00e1 em processo. Os imigrantes \u201cdormem nas pra\u00e7as ou amontoados at\u00e9 dez pessoas em um quarto medindo tr\u00eas metros por quatro\u201d, contou um padre da localidade.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um processo de explora\u00e7\u00e3o pelos \u2018coiotes\u2019 nas rotas migrat\u00f3rias que \u00e9 evidente\u201d, explicou \u00e0 IPS Jos\u00e9 Magalh\u00e3es, assessor nacional para gest\u00e3o de riscos e emerg\u00eancias da C\u00e1ritas, que colabora na inser\u00e7\u00e3o dos que chegam. Os governos dos Estados amaz\u00f4nicos afetados n\u00e3o d\u00e3o conta em mat\u00e9ria de moradia, alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, acrescentou. E muitas das haitianas que entraram no pa\u00eds est\u00e3o gr\u00e1vidas, acrescentou. A lei brasileira facilita a perman\u00eancia e a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos filhos de estrangeiros nascidos em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Ao come\u00e7ar 2012 a situa\u00e7\u00e3o se agravou com a entrada ilegal de meio milhar de haitianos. Esta onda levou o governo a definir sua posi\u00e7\u00e3o e adotar medidas, clareando sua aparente divis\u00e3o entre conceder vistos humanit\u00e1rios e temer que ao faz\u00ea-lo esteja incentivando um \u201cefeito chamada\u201d de maci\u00e7as chegadas no futuro.<\/p>\n<p>A presidente Dilma Rousseff autorizou, no dia 10, a regulariza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o dos haitianos que j\u00e1 est\u00e3o no Brasil. Ao mesmo tempo, determinou medidas restritivas para deter a entrada ilegal de imigrantes. A partir de agora somente ser\u00e3o concedidos vistos na embaixada brasileira no Haiti com a cota de cem por m\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cO governo brasileiro n\u00e3o ficar\u00e1 indiferente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade econ\u00f4mica dos haitianos. Mas, quem n\u00e3o tem visto n\u00e3o pode entrar no pa\u00eds\u201d, assegurou o ministro da Justi\u00e7a, Eduardo Cardozo. Al\u00e9m disso, o governo refor\u00e7ar\u00e1 suas fronteiras com Bol\u00edvia e Peru e negociar\u00e1 medidas especiais com esses pa\u00edses e mais o Equador. \u201cTemos de atacar essa rota ilegal de imigra\u00e7\u00e3o e de a\u00e7\u00e3o dos coiotes\u201d, justificou o ministro sobre as medidas que localmente s\u00e3o interpretadas por muitos como uma barreira de fato aos imigrantes haitianos.<\/p>\n<p>O haitiano Joseph Handerson, aluno do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, questionou essas medidas. \u201cOs que est\u00e3o chegando est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o dos que j\u00e1 chegaram e foram legalizados. Por que essa diferen\u00e7a?\u201d, perguntou, antes de dizer que o Brasil \u201cdeveria repensar suas posturas e pol\u00edticas humanit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma se pronunciou Magalh\u00e3es, ao recordar que o Brasil construiu sua hist\u00f3ria com imigrantes da Am\u00e9rica Latina, Europa e \u00c1frica. \u201cNa C\u00e1ritas vemos que, evidentemente, trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria e de solidariedade internacional de primeira ordem\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es entende que se trata de \u201cprocessos que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis\u201d, mas a t\u00edtulo pessoal destacou que o Brasil \u201ctem de ter uma coer\u00eancia pol\u00edtica\u201d e entender que entrou na rota da di\u00e1spora haitiana por sua nova condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia financeira e pela oferta de trabalho com vistas a eventos esportivos. \u201cDeveria n\u00e3o se fechar, mas facilitar a perman\u00eancia desses imigrantes\u201d, disse, ao recordar a tradi\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria do Brasil, que abriga 4.359 refugiados, dos quais 2.813 s\u00e3o africanos.<\/p>\n<p>Cribb v\u00ea um duplo benef\u00edcio na chegada de imigrantes haitianos, muitos j\u00e1 contratados em obras de represas. Entende que, diante \u201cdo auge econ\u00f4mico como pa\u00eds emergente que o Brasil vive\u201d, os novos imigrantes \u2013 muitos deles com forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou universit\u00e1ria em \u00e1reas como engenharia \u2013 contribuiriam para essa pujan\u00e7a e se beneficiariam, ao mesmo tempo, de sua inser\u00e7\u00e3o em uma economia din\u00e2mica.<\/p>\n<p>Handerson explicou \u00e0 IPS que 80% dos haitianos que chegaram passaram a viver na cidade de Manaus, capital do Amazonas, 10% foram para a Guiana Francesa e o restante para outros Estados brasileiros, como S\u00e3o Paulo, Roraima e Minas Gerais.<\/p>\n<p>Do ponto de vista socioecon\u00f4mico, 80% dos que vivem em Manaus t\u00eam emprego e trabalham como pedreiro, pintor, carpinteiro, metal\u00fargico ou gar\u00e7om. As mulheres trabalham principalmente como dom\u00e9sticas, cozinheiras ou manicures. No caso de Tabatinga, tamb\u00e9m no Amazonas, com 1.300 haitianos, as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes porque a oferta de trabalho \u00e9 menor e os alojamentos s\u00e3o insuficientes.<\/p>\n<p>Segundo o estudo, a grande maioria tem estudo secund\u00e1rio incompleto, mas tamb\u00e9m h\u00e1 os que terminaram o curso superior. Quase todos os que vivem em Manaus falam franc\u00eas, creole e espanhol, e recebem sal\u00e1rio em torno dos US$ 400. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 13\/01\/2012 &ndash; O Brasil, por d\u00e9cadas emissor de migrantes para os Estados Unidos e a Europa, agora enfrenta seu pr\u00f3prio desafio humanit\u00e1rio: aplicar, aos haitianos que chegam em massa em busca de sobreviv\u00eancia, a solidariedade internacional que apregoa como pol\u00edtica. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/america-latina\/diaspora-haitiana-testa-coerencia-migratoria-do-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[27,15],"class_list":["post-9370","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica","tag-brasil","tag-caribe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9370"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9370\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}