{"id":9381,"date":"2012-01-18T19:05:29","date_gmt":"2012-01-18T19:05:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9381"},"modified":"2012-01-18T19:05:29","modified_gmt":"2012-01-18T19:05:29","slug":"microcredito-e-antidoto-contra-doenca-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/africa\/microcredito-e-antidoto-contra-doenca-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Microcr\u00e9dito \u00e9 ant\u00eddoto contra doen\u00e7a de janeiro"},"content":{"rendered":"<p>Bulawayo, Zimb\u00e1bue, 18\/01\/2012 &ndash; Thomas Dlakama sofre todos os anos a \u201cdoen\u00e7a de janeiro\u201d, cujos sintomas s\u00e3o a carteira vazia, press\u00e3o alta pelo sustento da fam\u00edlia e inexplic\u00e1veis desejos de que caia um presente do c\u00e9u. O fen\u00f4meno afeta milh\u00f5es de pessoas no Zimb\u00e1bue. Este mal desperta no primeiro m\u00eas do ano e, para Dlakama, se tornou um ritual desagrad\u00e1vel que, com os bolsos vazios ap\u00f3s as festas de fim de ano, o fazem pensar em como pagar a escola dos filhos com seu minguado sal\u00e1rio de funcion\u00e1rio p\u00fablico, pagar as contas e tudo o mais. <!--more--> Janeiro \u201c\u00e9 um m\u00eas terr\u00edvel e se tornou uma tradi\u00e7\u00e3o pedir dinheiro emprestado depois do Ano Novo\u201d, disse Dlakama, ao relatar seu prolongado conhecimento das microfinan\u00e7as. Dlakama \u00e9 um dos muitos funcion\u00e1rios que se dirigem \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de microcr\u00e9ditos de Bulawayo, onde outros funcion\u00e1rios do Estado como ele fazem fila para pedir um empr\u00e9stimo, apesar das den\u00fancias de que a falta de controles permitiu o surgimento de inescrupulosas entidades financeiras.<\/p>\n<p>\u201cAs institui\u00e7\u00f5es se aproveitam de nossa pobreza para impor taxas de juros rid\u00edculas\u201d, lamentou Dlakama. Aplicam entre 30% e 40% de juros, enquanto os emprestadores independentes, que n\u00e3o pedem garantia, cobram at\u00e9 50%.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es de microcr\u00e9dito ressurgiram depois que o Zimb\u00e1bue suspendeu sua moeda como divisa legal, em 2009, para evitar a hiperinfla\u00e7\u00e3o. O d\u00f3lar zimbabuense foi substitu\u00eddo por euro, d\u00f3lar americano, rand sul-africano ou pelo kwacha zambiano. Os baixos sal\u00e1rios obrigam Dlakama e outros trabalhadores a pedirem cr\u00e9ditos para minimizar as dificuldades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Numerosos governos do Norte e ag\u00eancias de desenvolvimento elogiam o papel importante do microcr\u00e9dito nos pa\u00edses em desenvolvimento, mas no Zimb\u00e1bue o setor foi criticado por endividar os mais pobres com suas altas taxas de juros. As institui\u00e7\u00f5es financeiras concedem empr\u00e9stimos em fun\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio mensal do interessado. Mas este pa\u00eds, com uma flagrante disparidade entre renda e custo da cesta b\u00e1sica, se tornou um terreno f\u00e9rtil para o florescimento de operadores fantasmas, segundo analistas locais.<\/p>\n<p>O Conselho de Consumidores do Zimb\u00e1bue informou que uma fam\u00edlia m\u00e9dia de seis integrantes precisa de mais de US$ 500 por m\u00eas para cobrir suas necessidades b\u00e1sicas, inclu\u00eddas as contas de servi\u00e7os. Mas o Congresso de Sindicatos disse que alguns de seus filiados ganham apenas US$ 100 por m\u00eas. Os professores, principais clientes procurados pelas institui\u00e7\u00f5es de microcr\u00e9dito por sua estabilidade salarial, ganham US$ 300 mensalmente.<\/p>\n<p>\u201cConhe\u00e7o bem a doen\u00e7a de janeiro\u201d, disse a professora Jennifer Darirai. \u201cTenho quatro filhos em um internato e com meu sal\u00e1rio n\u00e3o posso pagar tudo que preciso e devo recorrer a pequenos empr\u00e9stimos, embora contra minha vontade. Mas, o que posso fazer?\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as registrou 37 institui\u00e7\u00f5es no final de 2010, mas estima-se que possa haver centenas delas, pois muitas operam sem autoriza\u00e7\u00e3o. As casas de microcr\u00e9ditos est\u00e3o regidas pela lei que obriga as institui\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o banc\u00e1rias a estarem registradas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muitas organiza\u00e7\u00f5es de microcr\u00e9dito se aproveitando das pessoas pobres, precisamos de controles mais r\u00edgidos\u201d, disse Garfield Murombedzi, assessor nessa \u00e1rea de um banco local. \u201cTodos os dias v\u00eam pessoas pedir empr\u00e9stimos para pagar suas d\u00edvidas em outro lado. Naturalmente alguma coisa est\u00e1 errada\u201d, acrescentou. \u201cContudo, n\u00e3o podemos seguir a pista, pois mesmo os operadores com licen\u00e7a vencida continuam trabalhando, enquanto outros nem mesmo se preocupam em se registrar\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Desde a independ\u00eancia do Zimb\u00e1bue, em 1980, o microcr\u00e9dito \u00e9 visto como uma fonte de dinheiro f\u00e1cil e n\u00e3o conseguiu se livrar das cr\u00edticas que gera o endividamento permanente de pessoas de baixa renda. Sam Dube, dono de uma institui\u00e7\u00e3o de microcr\u00e9dito de Bulawayo, afirmou que os pedidos de controles mais r\u00edgidos s\u00e3o justificados, apesar de qualificarem as opera\u00e7\u00f5es do setor de \u201cespeculativas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCompreendemos a preocupa\u00e7\u00e3o de algumas pessoas, mas as cr\u00edticas surgem de prestamistas inescrupulosos. Alguns s\u00e3o banqueiros qualificados e conhecem muito bem as normas do setor. Entretanto, as pessoas que mancham nosso nome com taxas de juros exorbitantes, ficando com a propriedade dos outros sem justificativa, operam fora de nosso mandato. Somos um setor bem regulado, mas h\u00e1 enganadores como em qualquer outro\u201d, afirmou Dube \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o de Institui\u00e7\u00f5es de Microcr\u00e9dito do Zimb\u00e1bue disse que os membros que violam as normas perdem a licen\u00e7a. Mas Murombedzi alegou que as pessoas necessitadas n\u00e3o verificam se as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o registradas, ou se cobram taxas de juros ilegais. \u201cEsta \u00e9 a quest\u00e3o importante aqui, muitos setores reclamam autorregulamenta\u00e7\u00e3o no Zimb\u00e1bue, mas as pessoas violam suas pr\u00f3prias regras. Deve haver uma autoridade superior que as supervisione\u201d, disse Murombedzi, se referindo \u00e0 falta de controles.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as j\u00e1 alertou no passado sobre institui\u00e7\u00f5es financeiras n\u00e3o registradas, inclusive alguns bancos foram fechados no pior do caos econ\u00f4mico de 2008. No entanto, parece que haver\u00e1 institui\u00e7\u00f5es de microcr\u00e9dito inescrupulosas por muito tempo mais, devido \u00e0 conviv\u00eancia de baixa renda com falta de controles. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bulawayo, Zimb\u00e1bue, 18\/01\/2012 &ndash; Thomas Dlakama sofre todos os anos a \u201cdoen\u00e7a de janeiro\u201d, cujos sintomas s\u00e3o a carteira vazia, press\u00e3o alta pelo sustento da fam\u00edlia e inexplic\u00e1veis desejos de que caia um presente do c\u00e9u. O fen\u00f4meno afeta milh\u00f5es de pessoas no Zimb\u00e1bue. 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