{"id":9396,"date":"2012-01-24T19:44:25","date_gmt":"2012-01-24T19:44:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9396"},"modified":"2012-01-24T19:44:25","modified_gmt":"2012-01-24T19:44:25","slug":"argentina-famatina-onde-a-agua-vale-mais-do-que-o-ouro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/america-latina\/argentina-famatina-onde-a-agua-vale-mais-do-que-o-ouro\/","title":{"rendered":"ARGENTINA: Famatina, onde a \u00e1gua vale mais do que o ouro"},"content":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, 24\/01\/2012 &ndash; Milhares de moradores se mobilizam na prov\u00edncia argentina de La Rioja, para impedir a explora\u00e7\u00e3o de uma mina de ouro a c\u00e9u aberto no monte nevado de Famatina, exclusivo fornecedor natural de \u00e1gua pot\u00e1vel em uma regi\u00e3o semides\u00e9rtica. La Rioja \u201c\u00e9 uma prov\u00edncia seca e temos \u00e1gua pura para viver, mas n\u00e3o para compartilhar com os mineradores\u201d, explicou \u00e0 IPS H\u00e9ctor Artuso, da pequena localidade de Villa Pituil, no departamento de Famatina, que participa do protesto. <!--more--> Moradores deste departamento e do vizinho Chilecito mant\u00eam parcialmente interrompida a passagem no posto Alto Carrizal, que fica a quatro mil metros de altitude, em um caminho de cascalho que leva a este cord\u00e3o montanhoso que tem seu ponto culminante no monte General Belgrano, mais conhecido como Nevado de Famatina, de 6.250 metros de altura.<\/p>\n<p>Ali se ergue como monumento hist\u00f3rico La Mejicana, uma mina do S\u00e9culo 19 e um telef\u00e9rico de 35 quil\u00f4metros de comprimento constru\u00eddo em 1905 por uma empresa brit\u00e2nica para extrair ouro e outros metais de Famatina e export\u00e1-los. Naquele momento, a explora\u00e7\u00e3o era em galeria subterr\u00e2nea, mas hoje os projetos exigem grandes explos\u00f5es, um uso intensivo de \u00e1gua e a lavagem da rocha com cianureto para retirar o metal, por isso os moradores se op\u00f5em.<\/p>\n<p>O bloqueio, que se mant\u00e9m dia e noite no posto Alto Carrizal, \u00e9 seletivo. Podem passar moradores e turistas, mas est\u00e1 impedida a passagem de funcion\u00e1rios municipais e membros da empresa canadense autorizada pelo governo a explorar o monte. Os moradores t\u00eam apoio de organiza\u00e7\u00f5es ambientalistas como Funda\u00e7\u00e3o Ambiente e Recursos Naturais, Los Verdes e Greenpeace, que nos \u00faltimos dias alertaram para amea\u00e7as e persegui\u00e7\u00e3o dos ativistas. Tamb\u00e9m a cada dia recebem apoios de partidos pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o e destacados artistas.<\/p>\n<p>O conflito surgiu em outubro, quando os moradores souberam que a empresa provincial Energia e Minerais Sociedade do Estado (Emse), da prov\u00edncia de La Rioja, havia assinado um conv\u00eanio com a canadense Osisko Mining Corporation para explorar o Nevado Famatina. O acordo nunca foi divulgado publicamente. Tampouco foram realizados audi\u00eancias ou estudos de impacto ambiental como manda a lei geral de Meio Ambiente. Nem mesmo as autoridades de Famatina foram chamadas para participar do conv\u00eanio.<\/p>\n<p>De fato, o intendente (governo local) Ismael Bordagaray tamb\u00e9m est\u00e1 ao lado dos moradores e participa das manifesta\u00e7\u00f5es contra a mineradora. \u201cBasicamente, porque tenho de seguir a postura da maioria da minha comunidade\u201d, afirmou. Contudo, o prefeito disse que tamb\u00e9m se preocupa como cidad\u00e3o. \u201cCompartilho os temores e as preocupa\u00e7\u00f5es que surgem pelos riscos de contamina\u00e7\u00e3o, pelo uso indiscriminado de \u00e1gua e pela falta de controles nesse tipo de projeto\u201d, explicou. Bordagaray contou que tomou conhecimento do conv\u00eanio, que \u00e9 muito vago em seus termos, e n\u00e3o sabe o motivo de n\u00e3o ser divulgado. O acesso ao conv\u00eanio foi possibilitado pela empresa Osisko, n\u00e3o pelo governo provincial, que \u00e9 do mesmo partido pol\u00edtico que o seu, a Frente para a Vit\u00f3ria, majorit\u00e1rio setor de centro-esquerda do Partido Justicialista liderado pela presidente da Argentina, Cristina Fern\u00e1ndez.<\/p>\n<p>Governador provincial, Jorge Beder Herrera, tem um discurso muito inconsistente sobre a minera\u00e7\u00e3o. Durante a campanha eleitoral de 2011 esteve contra, mas depois de ganhar a elei\u00e7\u00e3o divulgou o conv\u00eanio assinado com a mineradora. Agora, e apesar da forte rejei\u00e7\u00e3o, o diretor da Emse, H\u00e9ctor Dur\u00e1n Sabas, afirmou que o projeto avan\u00e7ar\u00e1 \u201cporque \u00e9 uma decis\u00e3o do Estado, uma pol\u00edtica p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Na Argentina, os recursos naturais pertencem a cada prov\u00edncia e o Estado Nacional s\u00f3 cumpre o papel de regulador mediante leis que estabelecem os or\u00e7amentos m\u00ednimos sobre os quais se baseia a legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica disposta para cada distrito. H\u00e9ctor Artuso, de Villa Pituil, explicou o motivo da rejei\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o somos ambientalistas nem antiminera\u00e7\u00e3o, somos moradores que rejeitam o modelo explora\u00e7\u00e3o estrangeira dos recursos naturais utilizando cianureto e grande quantidade de \u00e1gua\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u201cA popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito consciente porque j\u00e1 temos experi\u00eancia nisto\u201d, acrescentou, lembrando que em 2006 a resist\u00eancia dos moradores dessa regi\u00e3o deteve um projeto semelhante da mineradora canadense Barrick Gold Corporation e mais adiante outro de uma mineradora chinesa. Muitos dos que hoje participam destas mobiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o os mesmos que protagonizaram os atos, marchas e bloqueios de estrada desde aquele ano, e as raz\u00f5es s\u00e3o sempre as mesmas: o medo da contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 grupos cooptados pelas empresas que dizem defender o projeto. \u201cO pior disto \u00e9 a contamina\u00e7\u00e3o social, porque provocam uma divis\u00e3o atroz nestas comunidades pequenas\u201d, alertou Artuso, acrescentando que, apesar de esta \u00e1rea de La Rioja ter muito a ser melhorado em n\u00edvel produtivo, \u00e9 importante destacar que ali s\u00e3o produzidos uvas e vinhos de qualidade destinados \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, \u201cas melhores nozes do pa\u00eds\u201d, al\u00e9m de azeitonas, p\u00eassego, damasco, figo, ameixa e marmelo. \u201cTemos tamb\u00e9m um potencial enorme para explorar o turismo nos montes, e esta seria uma atividade sustent\u00e1vel que pode prolongar-se no tempo, diferente da minera\u00e7\u00e3o que vem por dez ou 20 anos, contamina e se vai\u201d, alertou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da interrup\u00e7\u00e3o da passagem para o monte, que j\u00e1 conseguiu marchas e atos de apoio em oito prov\u00edncias do pa\u00eds e em Buenos Aires, os moradores fizeram, no dia 16, uma grande caravana, da cidade de Famatina at\u00e9 o posto bloqueado. Em Famatina vivem cerca de 6.400 pessoas, e desta mobiliza\u00e7\u00e3o participaram mais de quatro mil procedentes desse departamento e de Chilecito, que tamb\u00e9m recebe \u00e1gua das geleiras e neves eternas do monte.<\/p>\n<p>A IPS conversou por telefone com Carina D\u00edaz Moreno, professora em Famatina que j\u00e1 tem dois processos por se colocar contra os grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o em sua prov\u00edncia. Ela passaria a noite em Alto Carrizal. \u201cVamos revezando e continuaremos ali at\u00e9 que o governo e a empresa desistam deste conv\u00eanio\u201d, afirmou a professora, que \u00e9 uma das pessoas identificadas pela companhia como principais ativistas, segundo uma lista encontrada por acaso, em uma pasta esquecida em um pr\u00e9dio p\u00fablico onde empres\u00e1rios e funcion\u00e1rios haviam se reunido no final do ano para falar do projeto.<\/p>\n<p>Quando um morador deu o alerta sobre esse encontro, o padre Omar Quintero, que apoia a reclama\u00e7\u00e3o, fez soar os sinos de sua par\u00f3quia em Famatina e cerca de 200 pessoas se reuniram para protestar. \u201cCome\u00e7amos a gritar que no Famatina n\u00e3o se toca e outras palavras de ordem e eles foram embora apressados. Por isso, se esqueceram da pasta\u201d, contou Carina. Da lista constam ativistas com seus dados pessoais e ao lado de cada um aparece o que, segundo a companhia, seria o que buscam: \u201cressarcimento econ\u00f4mico\u201d, \u201cpopularidade\u201d, \u201ccargos p\u00fablicos\u201d, segundo o caso.<\/p>\n<p>Outra ativista, Jenny Luj\u00e1n, disse \u00e0 IPS que \u201cdialogar com eles significa negociar se haver\u00e1 mais ou menos contamina\u00e7\u00e3o, mais ou menos benef\u00edcios para a comunidade, e isso n\u00e3o nos interessa. Sabemos que em Famatina h\u00e1 ouro, terras raras e outros minerais, mas a decis\u00e3o est\u00e1 tomada. N\u00e3o nos moveremos de Alto Carrizal, ter\u00e3o que nos tirar pela for\u00e7a\u201d, disse Jenny. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, 24\/01\/2012 &ndash; Milhares de moradores se mobilizam na prov\u00edncia argentina de La Rioja, para impedir a explora\u00e7\u00e3o de uma mina de ouro a c\u00e9u aberto no monte nevado de Famatina, exclusivo fornecedor natural de \u00e1gua pot\u00e1vel em uma regi\u00e3o semides\u00e9rtica. 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