{"id":9400,"date":"2012-01-30T13:13:11","date_gmt":"2012-01-30T13:13:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9400"},"modified":"2013-07-01T16:46:37","modified_gmt":"2013-07-01T16:46:37","slug":"farum-social-tema%c2%81tico-por-uma-democracia-sem-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/01\/mundo\/farum-social-tema%c2%81tico-por-uma-democracia-sem-fim\/","title":{"rendered":"F\u00d3RUM SOCIAL TEM\u00c3\u0081TICO: Por uma democracia sem fim"},"content":{"rendered":"<p>Porto Alegre, 30\/01\/2012 &ndash; Por cinco s&eacute;culos a Europa procurou ensinar ao mundo sua forma de enfrentar crises e venc&ecirc;-las. Fez isso com ideias e guerras, com mission&aacute;rios e genoc\u00c3\u00addios. Contudo, esqueceu que tem apenas parte do conhecimento. Agora est&aacute; \u00c3\u00a0 beira do abismo, alertou o soci&oacute;logo portugu&ecirc;s Boaventura Sousa Santos. <!--more--> O especialista falou para cerca de 300 pessoas em palestra durante o F&oacute;rum Social Tem&aacute;tico (FST), que aconteceu na semana passada na cidade de Porto Alegre (RS) e em munic\u00c3\u00adpios de sua regi&atilde;o metropolitana. O FST &eacute; um desdobramento do F&oacute;rum Social Mundial (FSM), que nasceu na capital ga&uacute;cha em 2001.<\/p>\n<p>O FST, que este ano centrou-se no tema espec\u00c3\u00adfico &quot;Crise capitalista, justi&ccedil;a social e ambiental&quot;\u009d, reuniu cerca de dez mil pessoas. O encontro tamb&eacute;m apostava num futuro de democracia radical, rela&ccedil;&otilde;es sociais baseadas no respeito aos direitos humanos e no fim das hierarquias nacionais que dividem o planeta entre &quot;centro&quot;\u009d e &quot;periferia&quot;\u009d.<\/p>\n<p>Outra cidade brasileira, Rio de Janeiro, ser&aacute; sede em junho da Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre Desenvolvimento Sustent&aacute;vel (Rio+20). Por isso, a crise ambiental foi um dos temas principais em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Santos disse discordar da abordagem tradicionalmente dada a esse tema.<\/p>\n<p>&quot;Um primeiro problema &eacute; a disputa pela defini&ccedil;&atilde;o da natureza da crise. V&ecirc;-la como uma simples mudan&ccedil;a do clima &eacute; muito reducionista. A crise &eacute; econ&ocirc;mica, financeira, energ&eacute;tica, ambiental, de civiliza&ccedil;&atilde;o&quot;\u009d, afirmou. Assim, o soci&oacute;logo chegou ao ponto central de sua an&aacute;lise. &quot;Como disse Karl Marx, as microirracionalidades do capitalismo levam a uma macroirracionalidade da vida.&quot;\u009d<\/p>\n<p>Em sua palestra de 50 minutos, no dia 25, este professor das universidades de Coimbra (Portugal) e Madison (Estados Unidos) tentou mostrar as amea&ccedil;as nas quais se manifestam essa macroirracionalidade capitalista. Quatro delas est&atilde;o diretamente relacionadas com a crise da democracia. Estas s&atilde;o: desorganiza&ccedil;&atilde;o do Estado, substituindo os antigos servi&ccedil;os p&uacute;blicos pela oferta de cr&eacute;dito \u00c3\u00a0s massas, o que resultou na crise financeira atual; a desconstru&ccedil;&atilde;o da democracia, j&aacute; que o capitalismo n&atilde;o precisa mais dela e promove solu&ccedil;&otilde;es como as &quot;democraduras&quot;\u009d tecnocr&aacute;ticas de It&aacute;lia e Gr&eacute;cia.<\/p>\n<p>Tem tamb&eacute;m a criminaliza&ccedil;&atilde;o da dissid&ecirc;ncia presente na Am&eacute;rica do Sul em processos como despejo de popula&ccedil;&otilde;es pobres (no Brasil) ou na resist&ecirc;ncia de ind\u00c3\u00adgenas (Chile). E, por fim, os preconceitos herdados do colonialismo: &quot;ao contr&aacute;rio do que poder\u00c3\u00adamos esperar, o racismo aparece novamente e com for&ccedil;a. N&atilde;o h&aacute; sinais de que o sexismo tenha terminado, nem de que as diferen&ccedil;as sexuais sejam respeitadas. Estas manifesta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o resqu\u00c3\u00adcios da domina&ccedil;&atilde;o colonial, que agora derivou em preconceitos&quot;\u009d.<\/p>\n<p>Para Santos, a diminui&ccedil;&atilde;o do Estado e o ataque \u00c3\u00a0 democracia est&atilde;o relacionados com tr&ecirc;s movimentos do capital para apropriar-se da riqueza produzida coletivamente: a devasta&ccedil;&atilde;o acelerada da natureza, a desvaloriza&ccedil;&atilde;o do trabalho e a comercializa&ccedil;&atilde;o do conhecimento. O especialista v&ecirc; novos desafios para os movimentos que se articulam em torno do FSM nesta nova fase: democratizar, descolonizar e desmercantilizar.<\/p>\n<p>&quot;Democratizar exige radicalismo&quot;\u009d, disse Santos, e explicou: &quot;defino o socialismo como sin&ocirc;nimo de democracia sem fim, em todos os espa&ccedil;os. N&atilde;o s&oacute; nas institui&ccedil;&otilde;es, mas no trabalho, na casa, na cama. Os partidos devem entender que n&atilde;o t&ecirc;m o monop&oacute;lio da representa&ccedil;&atilde;o pol\u00c3\u00adtica. Nem os movimentos o t&ecirc;m. Avan&ccedil;amos para um tempo de presen&ccedil;as, presen&ccedil;as coletivas na rua, ocupando espa&ccedil;os que o capital reivindica, n&atilde;o ligados necessariamente a um movimento institu\u00c3\u00addo&quot;\u009d.<\/p>\n<p>Para Santos, &quot;na tarefa de desmercantilizar a vida, as cidades t&ecirc;m um papel enorme. &Eacute; necess&aacute;rio retirar da esfera do com&eacute;rcio mercantil dimens&otilde;es como cultura, mobilidade urbana, viv&ecirc;ncias, sociabilidade. Os resultados s&atilde;o imediatos&quot;\u009d. Como exemplo citou que &quot;a cultura, que est&aacute; sendo banalizada, ressurge imediatamente como espa&ccedil;o de resist&ecirc;ncia, quando &eacute; tratada como um direito e uma inspira&ccedil;&atilde;o humanos&quot;\u009d, acrescentou.<\/p>\n<p>Ao abordar o tema da descoloniza&ccedil;&atilde;o, Santos, que apoia a presidente Dilma Rousseff e o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, fez algumas cr\u00c3\u00adticas. &quot;O Brasil, que criou tantos bons paradigmas, n&atilde;o pode estar do lado do neoliberalismo nem se orgulhar do novo C&oacute;digo Florestal, ou abreviar os processos de licenciamento ambiental para acelerar algumas grandes obras&quot;\u009d, afirmou.<\/p>\n<p>Ao final, o soci&oacute;logo confessou: &quot;sou um otimista tr&aacute;gico. Creio nas mudan&ccedil;as do mundo, mas sei que custar&atilde;o um enorme esfor&ccedil;o, mobiliza&ccedil;&atilde;o e, \u00c3\u00a0s vezes, dores&quot;\u009d. Al&eacute;m disso, fez previs&otilde;es para um futuro pr&oacute;ximo. &quot;Esta d&eacute;cada exigir&aacute; l\u00c3\u00adderes mais iluminados, mais criativos, e movimentos sociais mais aguerridos. A luta contra o fascismo social se faz nas institui&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m na defesa nas ruas de uma democracia sem fim.&quot;\u009d Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Alegre, 30\/01\/2012 &ndash; Por cinco s&eacute;culos a Europa procurou ensinar ao mundo sua forma de enfrentar crises e venc&ecirc;-las. Fez isso com ideias e guerras, com mission&aacute;rios e genoc\u00c3\u00addios. Contudo, esqueceu que tem apenas parte do conhecimento. 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