{"id":942,"date":"2005-08-26T00:00:00","date_gmt":"2005-08-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=942"},"modified":"2005-08-26T00:00:00","modified_gmt":"2005-08-26T00:00:00","slug":"afeganisto-grandes-obstculos-no-processo-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/america-latina\/afeganisto-grandes-obstculos-no-processo-eleitoral\/","title":{"rendered":"Afeganist&atilde;o: Grandes obst&aacute;culos no processo eleitoral"},"content":{"rendered":"<p>Cabul, 26\/08\/2005 &ndash; Depois de 25 anos de guerra e regimes autorit&aacute;rios, o Afeganist&atilde;o se prepara para eleger o parlamento e os conselhos provinciais em todo o pa&iacute;s, no pr&oacute;ximo dia 18 de setembro. O JEMB, &oacute;rg&atilde;o misto afeg&atilde;o-ONU que organiza as elei&ccedil;&otilde;es divulgou recentemente alguns dados impressionantes sobre suas caracter&iacute;sticas: 5.800 candidatos, 26 mil se&ccedil;&otilde;es, 150 mil cabines, 40 milh&otilde;es de c&eacute;dulas (muito mais do que as necess&aacute;rias porque os cidad&atilde;os poder&atilde;o votar em qualquer ponto de sua pr&oacute;pria prov&iacute;ncia), 135 mil urnas, 140 mil garrafas de tinta indel&eacute;vel.<br \/> <!--more--> <br \/> O transporte interno ficar&aacute; por conta de 17 avi&otilde;es cargueiros, nove helic&oacute;pteros, centenas de caminh&otilde;es e duas mil mulas. Foram recrutados 160 mil escrutinadores, seis mil coordenadores, 60 mil agentes de seguran&ccedil;a e sete mil observadores locais. As tropas da For&ccedil;a Internacional para a Seguran&ccedil;a (Usaf) j&aacute; passam de 10 mil unidades e as da coaliz&atilde;o lideradas pelos Estados Unidos j&aacute; somam 28 mil. A isto se acrescenta o problema dos n&ocirc;mades em cont&iacute;nuo deslocamento &#8211; 130 mil j&aacute; se registraram &#8211; e o dos centros de vota&ccedil;&atilde;o para os refugiados que regressam do Paquist&atilde;o e do Ir&atilde;. Pode-se dizer que se trata da m&aacute;quina eleitoral mais complexa jamais organizada, com uma combina&ccedil;&atilde;o de instrumentos que v&atilde;o desde a idade da pedra at&eacute; as tecnologias mais modernas.<\/p>\n<p> Como acontece de maneira cada vez mais freq&uuml;ente nessa parte do mundo, a situa&ccedil;&atilde;o das mulheres &eacute; reveladora de uma realidade em movimento. Dos 12 milh&otilde;es de habitantes que se registraram para votar 44% s&atilde;o mulheres, o que implica um aumento de 35% em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de outubro passado. Entre os 5.800 candidatos h&aacute; 600 mulheres. Em Cabul entrevistei muitas candidatas, entre elas minha amiga Sima Simar, presidente da Comiss&atilde;o Independente para os Direitos Humanos que em 1998 teve que se cobrir com a burka para poder participar de um congresso internacional em Bruxelas. Tamb&eacute;m encontrei a ministra para os Assuntos Femininos, Masooda Jalal, que quando lhe dizem que lugar de mulher &eacute; em casa responde: &quot;Tem raz&atilde;o, nosso lugar est&aacute; na Casa da Na&ccedil;&atilde;o, que &eacute; o Parlamento&quot;.<\/p>\n<p> Entretanto, a campanha eleitoral &eacute; muito dif&iacute;cil para as mulheres por causa da secular discrimina&ccedil;&atilde;o. Muitos afirmam que a participa&ccedil;&atilde;o feminina na vida p&uacute;blica contraria o islamismo, e em muitas &aacute;reas rurais elas n&atilde;o podem sair de casa se n&atilde;o estiverem acompanhadas de um homem. S&atilde;o obrigadas a enfrentar intimida&ccedil;&otilde;es, amea&ccedil;as e at&eacute; destrui&ccedil;&atilde;o de seus cartazes &#8211; porque n&atilde;o devem mostrar seus rostos &#8211; ou os obst&aacute;culos para ter acesso a lugares proibidos para mulheres. Basta pensar na contradi&ccedil;&atilde;o das candidatas que discursam em p&uacute;blico para convenc&ecirc;-lo de suas inten&ccedil;&otilde;es, mas que n&atilde;o podem mostrar seus rostos, escondidos sob uma burka.<\/p>\n<p> Quando entrevistei Azizurrahman Rafiee, diretora do F&oacute;rum para a Sociedade Civil, ela me diz: &quot;Voc&ecirc; n&atilde;o me reconhece porque quando fui presa pelos talib&atilde;s, em 1997, eu usava uma barba at&eacute; a cintura&quot;. Rafiee trabalhava para uma ONG e fez de tudo para me livrar da ordem de pris&atilde;o decretada pelo regime Talib&atilde; a fim de impedir-me de fazer campanha em favor das reprimidas mulheres afeg&atilde;s.<\/p>\n<p> Um candidato a deputado, o professor de f&iacute;sica e matem&aacute;tica Ustad Muqim Khan avalia favoravelmente os avan&ccedil;os para uma democracia e o estado de direito, e afirma que em seu pa&iacute;s &eacute; necess&aacute;rio implantar um sistema multipartid&aacute;rio. No entanto, se mostra pessimista porque teme que as distor&ccedil;&otilde;es de hoje se perpetuem nas institui&ccedil;&otilde;es de amanh&atilde;. Em sua regi&atilde;o, Badakhshan, a situa&ccedil;&atilde;o log&iacute;stica &eacute; dific&iacute;lima. &Agrave;s graves car&ecirc;ncias de infra-estrutura, em particular de estradas utiliz&aacute;veis, se somou h&aacute; mais de um m&ecirc;s uma inunda&ccedil;&atilde;o que destruiu 75% das pontes. Se n&atilde;o forem reparadas antes das elei&ccedil;&otilde;es, calcula-se que 30% do eleitorado n&atilde;o poder&atilde;o votar.<\/p>\n<p> Todo processo eleitoral est&aacute; caracterizado pela fragilidade. Embora entre os fatores positivos do ponto de vista da legitimidade tenha sido valorizado pelo alto n&uacute;mero de eleitores que se registraram, especialmente entre as mulheres, me preocupam os riscos de fraudes em v&aacute;rios n&iacute;veis e das mais diversas formas de intimida&ccedil;&atilde;o, com alguns casos muito graves, como o assassinato de tr&ecirc;s candidatos.<\/p>\n<p> Do ponto de vista da seguran&ccedil;a, o que mais me alarma n&atilde;o &eacute; o aspecto estritamente militar, o da luta contra o terrorismo e o debate sobre se o Talib&atilde; pode ganhar ou perder a guerra, mas o risco de atentados de alta e baixa intensidade dirigidos a prejudicar o processo ao estabelecer com objetivo privilegiado o aparato eleitoral. &Eacute; preocupante comprovar a quantidade de esconderijos repletos de explosivos que foram descobertos e, se tamb&eacute;m considerarmos a porosidade da fronteira com o Paquist&atilde;o, onde circula de tudo, n&atilde;o se pode excluir a possibilidade de atentados em grande escala.<\/p>\n<p> Apesar de tudo, &eacute; fascinante contemplar como este processo est&aacute; se desenvolvendo em meio a tantos quest&otilde;es pol&iacute;ticas, culturais e de organiza&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m dos resultados, se tratar&aacute; de um &ecirc;xito somente se os afeg&atilde;os adquirirem a consci&ecirc;ncia de seu valor e de sua necessidade fundamental para o futuro do pa&iacute;s, e se reconhecerem que o processo em seu conjunto &eacute; um fator positivo com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; in&eacute;rcia pol&iacute;tica, ao estado de guerra permanente e ao sentido de frustra&ccedil;&atilde;o pelo presente e de pessimismo para o futuro.(IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Emma Bonino &eacute; parlamentar europ&eacute;ia e chefe da miss&atilde;o de observadores da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia para as elei&ccedil;&otilde;es no Afeganist&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabul, 26\/08\/2005 &ndash; Depois de 25 anos de guerra e regimes autorit&aacute;rios, o Afeganist&atilde;o se prepara para eleger o parlamento e os conselhos provinciais em todo o pa&iacute;s, no pr&oacute;ximo dia 18 de setembro. O JEMB, &oacute;rg&atilde;o misto afeg&atilde;o-ONU que organiza as elei&ccedil;&otilde;es divulgou recentemente alguns dados impressionantes sobre suas caracter&iacute;sticas: 5.800 candidatos, 26 mil se&ccedil;&otilde;es, 150 mil cabines, 40 milh&otilde;es de c&eacute;dulas (muito mais do que as necess&aacute;rias porque os cidad&atilde;os poder&atilde;o votar em qualquer ponto de sua pr&oacute;pria prov&iacute;ncia), 135 mil urnas, 140 mil garrafas de tinta indel&eacute;vel.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/08\/america-latina\/afeganisto-grandes-obstculos-no-processo-eleitoral\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":242,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-942","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/242"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=942"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/942\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}