{"id":9459,"date":"2012-02-10T08:16:58","date_gmt":"2012-02-10T08:16:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9459"},"modified":"2012-02-10T08:16:58","modified_gmt":"2012-02-10T08:16:58","slug":"direitos-humanos-argentina-as-va%c2%adtimas-ja-nao-estao-sozinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/02\/america-latina\/direitos-humanos-argentina-as-va%c2%adtimas-ja-nao-estao-sozinhas\/","title":{"rendered":"DIREITOS HUMANOS-ARGENTINA: As v\u00c3\u00adtimas j&aacute; n&atilde;o est&atilde;o sozinhas"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 10\/02\/2012 &ndash; A experi&ecirc;ncia acumulada por profissionais da sa&uacute;de mental no acompanhamento de v\u00c3\u00adtimas do terrorismo de Estado na Argentina &eacute; de tal import&acirc;ncia que j&aacute; come&ccedil;ou a transcender as fronteiras. <!--more--> Brasil, Chile e Uruguai, que sofreram o embate das ditaduras nos anos 1970 e 1980, como a Argentina, recebem os resultados desta experi&ecirc;ncia que se manifesta em uma crescente produ&ccedil;&atilde;o de materiais para a abordagem dos sobreviventes das sangrentas repress&otilde;es e de seus familiares.<\/p>\n<p>Foi o que contou \u00c3\u00a0 IPS a psic&oacute;loga Fabiana Rousseaux, diretora do Centro de Assist&ecirc;ncia a V\u00c3\u00adtimas de Viola&ccedil;&otilde;es dos Direitos Humanos Dr. Fernando Ulloa, que funciona desde 2010 na Secretaria de Direitos Humanos do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a e Direitos Humanos argentino. &quot;No Centro se oferece assist&ecirc;ncia psicol&oacute;gica e apoio m&eacute;dico a v\u00c3\u00adtimas que sobreviveram ao terrorismo de Estado, a seus familiares e outras pessoas que sofreram o impacto da fragmenta&ccedil;&atilde;o familiar ou foram atingidas por esta hist&oacute;ria&quot;\u009d, explicou.<\/p>\n<p>Assim Rousseaux se referiu \u00c3\u00a0s dram&aacute;ticas consequ&ecirc;ncias da repress&atilde;o da ditadura de 1976 a 1983, que deixou quase 11 mil presos desaparecidos, segundo registrado at&eacute; agora por esta Secretaria, mas que estimativas de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais elevam para 30 mil. Os detidos e detidas em centros clandestinos ou campos de concentra&ccedil;&atilde;o, que foram criados naquele per\u00c3\u00adodo nas &aacute;reas mais povoadas do pa\u00c3\u00ads, sofreram variadas pr&aacute;ticas de torturas, vexames e ataques sexuais, entre outros abusos. Muitos desses presos foram executados ou lan&ccedil;ados vivos de avi&otilde;es no Rio da Prata. Tamb&eacute;m foram retiradas de suas m&atilde;es, e entregues com documento falso para ado&ccedil;&atilde;o, as crian&ccedil;as nascidas em cativeiro.<\/p>\n<p>Os sobreviventes agora s&atilde;o v\u00c3\u00adtimas e, ao mesmo tempo, testemunhas nos julgamentos contra os repressores e, &quot;mediante seu depoimento, revivem situa&ccedil;&otilde;es muito traum&aacute;ticas&quot;\u009d, explicou a especialista. &quot;&Eacute; impressionante ver a atualidade desses fatos no dia a dia das pessoas que os sofreram. E contar &eacute; voltar a viver&quot;\u009d, disse Rousseaux se referindo \u00c3\u00a0s quase 4.500 testemunhas que depuseram nos julgamentos reiniciados ap&oacute;s a anula&ccedil;&atilde;o da lei de anistia, aprovada em 2003 no in\u00c3\u00adcio do governo centro-esquerdista de N&eacute;stor Kirchner, e a senten&ccedil;a de inconstitucionalidade das mesmas, emitida pelo Supremo Tribunal de Justi&ccedil;a em 2005.<\/p>\n<p>Quanto aos familiares, destacou que &quot;um tema recorrente &eacute; a ideia de que n&atilde;o se pode fazer o funeral de uma pessoa desaparecida por n&atilde;o existirem seus restos&quot;\u009d. Contudo, entende que a experi&ecirc;ncia demonstra que &quot;nem sempre &eacute; assim. Cada um faz o que pode com o que lhe coube viver. E pode-se trabalhar para encontrar outras vias que permitam \u00c3\u00a0s pessoas trabalhar essa dor. Naturalmente, \u00c3\u00a0s vezes &eacute; poss\u00c3\u00advel, outras n&atilde;o&quot;\u009d, afirmou. Al&eacute;m da assist&ecirc;ncia no Centro, os profissionais da sa&uacute;de mental capacitam seus colegas de hospitais p&uacute;blicos das prov\u00c3\u00adncias. &quot;Temos 45 profissionais em Buenos Aires e uma rede em todo o pa\u00c3\u00ads, que permanentemente incorpora especialistas&quot;\u009d, acrescentou Rousseaux.<\/p>\n<p>Os especialistas do Centro Ulloa tamb&eacute;m formam os m&eacute;dicos das juntas que avaliam o dano causado \u00c3\u00a0s v\u00c3\u00adtimas para autorizar a repara&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, disposta pela lei para os que sofreram terrorismo de Estado. Para Rousseaux, &eacute; preciso que esses profissionais &quot;pressuponham&quot;\u009d o dano f\u00c3\u00adsico e psicol&oacute;gico decorrente de se ter ficado detido durante a ditadura, sem necessidade de submeter a pessoa a um interrogat&oacute;rio nem de pedir provas disso.<\/p>\n<p>O Centro acompanha as &quot;v\u00c3\u00adtimas-testemunhas&quot;\u009d no processo de depor e assessora operadores do Poder Judicial desde que foram reabertos os julgamentos contra os repressores, interrompidos pelas leis de anistia do final da d&eacute;cada de 1980 e pelo indulto do ent&atilde;o presidente Carlos Menem (1989-1999). Este trabalho, em conjunto com ju\u00c3\u00adzes, promotores e querelantes, deu origem a um Protocolo de Interven&ccedil;&atilde;o para o Tratamento de V\u00c3\u00adtimas-Testemunhas no Contexto de Processos Judiciais, publicado em setembro de 2011. &quot;A inten&ccedil;&atilde;o deste Protocolo &eacute; que no af&atilde; do ato de administrar justi&ccedil;a n&atilde;o ocorram novos mecanismos de revitimiza&ccedil;&atilde;o ou retraumatiza&ccedil;&atilde;o das v\u00c3\u00adtimas-testemunhas&quot;\u009d, diz o documento.<\/p>\n<p>O Protocolo, tamb&eacute;m utilizado nos pa\u00c3\u00adses vizinhos, recorda que o depoimento da v\u00c3\u00adtima deve ser parte da tarefa reparadora do Estado, e esclarece que essa pessoa &quot;n&atilde;o &eacute; um objeto de teste&quot;\u009d, como sugere o direito penal, mas &quot;um sujeito de direitos&quot;\u009d. A cartilha orienta sobre o modo menos lesivo de interven&ccedil;&atilde;o judicial sobre estas pessoas, que em muitos casos tiveram que esperar por d&eacute;cadas para que o Estado as convocasse a testemunhar sobre sua experi&ecirc;ncia limite. Por isto, os profissionais do Centro recomendam aos operadores judiciais se capacitarem em prote&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o de direitos humanos ou que pe&ccedil;am apoio de outras institui&ccedil;&otilde;es governamentais, e d&aacute; uma s&eacute;rie de conselhos pr&aacute;ticos.<\/p>\n<p>Por exemplo, fazer com que, no poss\u00c3\u00advel, a v\u00c3\u00adtima-testemunha seja citada, recebida e auxiliada a todo momento por um mesmo operador de justi&ccedil;a. Evitar a notifica&ccedil;&atilde;o por correio e preferir os contatos telef&ocirc;nicos para suas cita&ccedil;&otilde;es. Tamb&eacute;m &eacute; sugerido que se explique aos citados os motivos da convoca&ccedil;&atilde;o, sem apelar para for&ccedil;as de seguran&ccedil;a para conduzi-los. Facilitar-lhes di&aacute;rias e transporte, n&atilde;o faz&ecirc;-los esperar e muito menos deix&aacute;-los expostos ao contato com os acusados.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do Protocolo, o Centro j&aacute; produziu outras cartilhas que servem para capacita&ccedil;&atilde;o de profissionais da sa&uacute;de mental, como &quot;Consequ&ecirc;ncias Atuais do Terrorismo de Estado na Sa&uacute;de Mental&quot;\u009d. Este documento assinala que muitas v\u00c3\u00adtimas ou familiares n&atilde;o se aproximam para uma consulta sobre seu mal-estar f\u00c3\u00adsico ou ps\u00c3\u00adquico &quot;devido ao terror que produz abatimento e paralisia&quot;\u009d em muitos dos afetados, mesmo depois de anos. &quot;Acompanhamento de Testemunhas nos Julgamentos contra o Terrorismo de Estado&quot;\u009d &eacute; outro dos textos nos quais s&atilde;o relatadas algumas experi&ecirc;ncias que podem servir de base para a tarefa que se desenvolve em outros pa\u00c3\u00adses onde h&aacute; v\u00c3\u00adtimas de ditaduras.<\/p>\n<p>Rousseaux disse que nos &uacute;ltimos tempos o Centro Ulloa est&aacute; se abrindo \u00c3\u00a0 demanda de outros indiv\u00c3\u00adduos que sofrem viol&ecirc;ncia das for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, ou que s&atilde;o v\u00c3\u00adtimas do tr&aacute;fico de pessoas. S&atilde;o viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos cometidas na democracia. Por&eacute;m, seu conhecimento sobre as consequ&ecirc;ncias do terrorismo de Estado &eacute; sua maior contribui&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que tiveram que partir &quot;da criatividade, mais do que da experi&ecirc;ncia&quot;\u009d para ajudar as v\u00c3\u00adtimas de um Estado que, em lugar de proteger, infundiu o terror. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 10\/02\/2012 &ndash; A experi&ecirc;ncia acumulada por profissionais da sa&uacute;de mental no acompanhamento de v\u00c3\u00adtimas do terrorismo de Estado na Argentina &eacute; de tal import\u00c3\u00a2ncia que j&aacute; come&ccedil;ou a transcender as fronteiras. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/02\/america-latina\/direitos-humanos-argentina-as-va%c2%adtimas-ja-nao-estao-sozinhas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[],"class_list":["post-9459","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9459","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9459"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9459\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}