{"id":9525,"date":"2012-02-27T07:47:08","date_gmt":"2012-02-27T07:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9525"},"modified":"2012-02-27T07:47:08","modified_gmt":"2012-02-27T07:47:08","slug":"brasil-uma-maldia%c2%a7ao-afeta-hidrelatricas-amaza%c2%b4nicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/02\/america-latina\/brasil-uma-maldia%c2%a7ao-afeta-hidrelatricas-amaza%c2%b4nicas\/","title":{"rendered":"BRASIL: Uma maldi&ccedil;&atilde;o afeta hidrel\u00c3\u00a9tricas amaz\u00c3\u00b4nicas"},"content":{"rendered":"<p>Porto Velho, Brasil, 27\/02\/2012 &ndash; &quot;Talvez seja a maldi&ccedil;&atilde;o de Rond&ocirc;nia&quot;\u009d, ironizou Ari Ott, ao se referir aos problemas com o in\u00c3\u00adcio da opera&ccedil;&atilde;o da primeira turbina da Central Hidrel&eacute;trica de Santo Ant&ocirc;nio, com a qual se desejava implantar no Brasil o novo ciclo de grandes projetos energ&eacute;ticos amaz&ocirc;nicos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_9525\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/0112-300x225.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9525\" class=\"size-medium wp-image-9525\" title=\"A hidrel&eacute;trica de Santo Antonio, tal como era vista na fase de constru&ccedil;&atilde;o, em outubro de 2010. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/0112-300x225.jpg\" alt=\"A hidrel&eacute;trica de Santo Antonio, tal como era vista na fase de constru&ccedil;&atilde;o, em outubro de 2010. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9525\" class=\"wp-caption-text\">A hidrel&eacute;trica de Santo Antonio, tal como era vista na fase de constru&ccedil;&atilde;o, em outubro de 2010. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  O gigantesco aparato, feito para gerar 71,6 megawatts, esquentou demais nos testes iniciais em dezembro e exigiu reparos que atrasaram em pelo menos tr&ecirc;s meses o in\u00c3\u00adcio de suas opera&ccedil;&otilde;es, agora anunciado para o final de mar&ccedil;o.<\/p>\n<p>O professor Ott, da Universidade Federal de Rond&ocirc;nia, disse que esses problemas s&atilde;o um &quot;mau agouro&quot;\u009d para as 44 turbinas a serem instaladas ao longo de quatro anos no complexo do Rio Madeira, a cargo do cons&oacute;rcio Santo Ant&ocirc;nio Energia, formado pelas firmas Odebrecht, Andrade Guti&eacute;rrez e outros investidores. Precisamente, o uso de turbina do tipo bulbo e de alta pot&ecirc;ncia &eacute; uma inova&ccedil;&atilde;o em rios da Amaz&ocirc;nia, adequada ao baixo declive e fluxo intenso do Madeira. Em Santo Ant&ocirc;nio, as &aacute;guas cair&atilde;o de uma altura de apenas 13,9 metros.<\/p>\n<p>A d&uacute;vida de Ott &eacute; se essas m&aacute;quinas suportar&atilde;o os abundantes sedimentos deste rio, que &eacute; &quot;jovem, de leito ainda indefinido&quot;\u009d, e que arrasta grande quantidade de &aacute;rvores em suas &aacute;guas. &quot;Quando me banhava perto da cascata Santo Ant&ocirc;nio, demorava dias para me livrar do p&oacute; fino que penetra nos poros&quot;\u009d, recordou Ott, m&eacute;dico e antrop&oacute;logo de evidente ascend&ecirc;ncia alem&atilde;, e testemunha das transforma&ccedil;&otilde;es que Rond&ocirc;nia viveu nas tr&ecirc;s &uacute;ltimas d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>&Eacute; praticamente imposs\u00c3\u00advel que os respons&aacute;veis por uma obra que requer quase US$ 9 bilh&otilde;es em investimento cometam tal falha t&eacute;cnica e a repitam em outro projeto semelhante com &eacute; a hidrel&eacute;trica de Jirau, em constru&ccedil;&atilde;o 110 quil&ocirc;metros para sudoeste no mesmo Rio Madeira. Ambas foram baseadas em estudos sedimentares questionados por ambientalistas. Contudo, a &quot;maldi&ccedil;&atilde;o de Rond&ocirc;nia&quot;\u009d, que condenaria ao fracasso os grandes projetos locais, prov&eacute;m das origens deste Estado da Amaz&ocirc;nia, no noroeste do Brasil, explicou Ott.<\/p>\n<p>Porto Velho, capital do Estado, nasceu de um acampamento de trabalhadores que constru\u00c3\u00adram, entre 1907 e 1912, a Ferrovia Madeira-Mamor&eacute;, para transportar o l&aacute;tex, mat&eacute;ria-prima da borracha natural extra\u00c3\u00adda das seringueiras (Hevea brasiliensis), &aacute;rvores nativas e dispersas, cuja exporta&ccedil;&atilde;o fazia prosperar a Amaz&ocirc;nia do Brasil e da Bol\u00c3\u00advia. A via natural de sa\u00c3\u00adda destas atividades era o extenso Rio Madeira, que desemboca no Amazonas e depois chega ao Oceano Atl&acirc;ntico.<\/p>\n<p>A bacia superior do Madeira abarca o centro e o norte da Bol\u00c3\u00advia, o sudeste do Peru e o oeste do Brasil. Mas tem um trecho n&atilde;o naveg&aacute;vel, acima de Porto Velho at&eacute; Guajar&aacute;-Mirim, motivo da instala&ccedil;&atilde;o dessa linha f&eacute;rrea de 366 quil&ocirc;metros de comprimento, entre florestas e p&acirc;ntanos. Com sua constru&ccedil;&atilde;o foi cumprido um tratado assinado com a Bol\u00c3\u00advia em 1903, compensando esse pa\u00c3\u00ads pelo territ&oacute;rio conquistado por brasileiros no passado e que deu origem ao Estado do Acre.<\/p>\n<p>No entanto, essa gigantesca obra, o m&aacute;ximo para a &eacute;poca, custou milhares de vidas de trabalhadores vindos de todos os continentes e principalmente das Antilhas colonizadas pelos brit&acirc;nicos. As doen&ccedil;as tropicais, como mal&aacute;ria e berib&eacute;ri, dizimaram essa m&atilde;o de obra, matando ou incapacitando temporariamente a maioria poucos meses ap&oacute;s chegarem, for&ccedil;ando uma substitui&ccedil;&atilde;o constante.<\/p>\n<p>A trag&eacute;dia incluiu uma crueldade hist&oacute;rica. A ferrovia foi inaugurada quando come&ccedil;ava a decad&ecirc;ncia da borracha amaz&ocirc;nica diante dos baixos pre&ccedil;os da produ&ccedil;&atilde;o asi&aacute;tica, mais competitiva e em r&aacute;pida expans&atilde;o, gra&ccedil;as \u00c3\u00a0s monoculturas da seringueira a partir de mudas levadas pelos brit&acirc;nicos do Brasil para a Mal&aacute;sia. Sem viabilidade econ&ocirc;mica, a ferrovia sofreu interrup&ccedil;&otilde;es em suas opera&ccedil;&otilde;es, conflitos com os exportadores e o abandono, em 1931, por parte da concession&aacute;ria Madeira-Mamor&eacute; Railway, de capitais norte-americanos e europeus. Continuou, de modo intermitente, at&eacute; 1972 gra&ccedil;as aos esfor&ccedil;os do governo brasileiro.<\/p>\n<p>Algo semelhante ocorreu com a implanta&ccedil;&atilde;o de 1.786 quil&ocirc;metros de linha telegr&aacute;fica at&eacute; Porto Velho, outra epopeia liderada pelo comandante C&acirc;ndido Rondon, her&oacute;i nacional posteriormente elevado \u00c3\u00a0 patente de marechal do Ex&eacute;rcito e homenageado com o nome do Estado de Rond&ocirc;nia. Suas expedi&ccedil;&otilde;es sofreram, al&eacute;m de mal&aacute;ria e outras doen&ccedil;as, in&uacute;meros ataques de ind\u00c3\u00adgenas. Sua atitude de nunca contra-atacar, mas de buscar o contato pac\u00c3\u00adfico, inspirou a pol\u00c3\u00adtica de prote&ccedil;&atilde;o aos povos abor\u00c3\u00adgines no Brasil.<\/p>\n<p>Quando Rondon chegou com seus cabos a Porto Velho, em 1914, j&aacute; se havia inventado o tel&eacute;grafo sem fio, recordou Ott. Assim, os trabalhadores que estenderam a linha e operavam os postos telegr&aacute;ficos &quot;ficaram abandonados \u00c3\u00a0 sua sorte por d&eacute;cadas&quot;\u009d, sobrevivendo &quot;\u00c3\u00a0 maneira ind\u00c3\u00adgena&quot;\u009d, da ca&ccedil;a e da pesca, acrescentou. No entanto, a linha n&atilde;o foi uma obra in&uacute;til, porque o sistema sem fio n&atilde;o se mostrou eficaz no clima amaz&ocirc;nico, segundo Carlos Muller, jornalista que pesquisou a hist&oacute;ria das telecomunica&ccedil;&otilde;es brasileiras para seu doutorado. Muller explicou que o tel&eacute;grafo preparou a rota por onde, cinco d&eacute;cadas mais tarde, avan&ccedil;aria a estrada que fez a liga&ccedil;&atilde;o entre Rond&ocirc;nia e o restante do Brasil, a BR-364.<\/p>\n<p>Essa estrada se converteu em eixo da expans&atilde;o agr\u00c3\u00adcola a partir dos anos 1970, com o consequente crescimento do desmatamento, dos conflitos pelas terras de fazendas, da emigra&ccedil;&atilde;o desordenada, da matan&ccedil;a de \u00c3\u00adndios e da invas&atilde;o de suas terras ancestrais, especialmente em Rond&ocirc;nia. Este processo se agravou na d&eacute;cada de 1980 com a pavimenta&ccedil;&atilde;o da estrada, um exemplo destacado dos projetos desastrosos financiados pelo Banco Mundial, que se tentou corrigir nas d&eacute;cadas seguintes com o Plano Agropecu&aacute;rio e Florestal de Rond&ocirc;nia, com objetivos ambientais.<\/p>\n<p>A hidrel&eacute;trica de Samuel, constru\u00c3\u00adda entre 1982 e 1989 no Rio Jamari, afluente do Madeira, &eacute; outra obra amaldi&ccedil;oada como um desastre ecol&oacute;gico. Inundou 540 quil&ocirc;metros quadrados para gerar 216 megawatts. A t\u00c3\u00adtulo de compara&ccedil;&atilde;o: Santo Ant&ocirc;nio inundar&aacute; 35% menos &aacute;rea e ter&aacute; capacidade de gera&ccedil;&atilde;o 14,5 vezes maior. Os garimpos de ouro e cassiterita tamb&eacute;m tiveram intensa atividade, que deixaram mais chagas sociais e ambientais do que benef\u00c3\u00adcios em muitos lugares do Estado.<\/p>\n<p>Como professor, Ott estuda e orienta pesquisas universit&aacute;rias sobre os impactos da invas&atilde;o de Rond&ocirc;nia na sa&uacute;de dos ind\u00c3\u00adgenas, j&aacute; no terceiro ciclo. Depois de doen&ccedil;as contagiosas, como sarampo e varicela, vieram as &quot;modernas&quot;\u009d, como c&acirc;ncer, diabete, cardiopatias e aids, e, agora, as &quot;patologias sociais&quot;\u009d, como homic\u00c3\u00addios frequentes, alcoolismo e viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, &quot;antes impens&aacute;veis nas aldeias ind\u00c3\u00adgenas&quot;\u009d, afirmou Ott. O estupro, agora comum, n&atilde;o existia em uma cultura em que o homem &quot;era um cavalheiro&quot;\u009d nos ritos sexuais, deixando \u00c3\u00a0 mulher a iniciativa de decidir o momento da penetra&ccedil;&atilde;o, destacou o m&eacute;dico antrop&oacute;logo.<\/p>\n<p>Ott se vinga da atual invas&atilde;o das centrais hidrel&eacute;tricas enfatizando os retrocessos que devem ser feitos pela empresa nas negocia&ccedil;&otilde;es com os ind\u00c3\u00adgenas afetados indiretamente. O grupo karitiana, que &quot;vive bem&quot;\u009d em sua reserva a 90 quil&ocirc;metros de Porto Velho, se deu conta de que a Santo Ant&ocirc;nio Energia, o cons&oacute;rcio que constr&oacute;i a central, oferecia compensa&ccedil;&otilde;es a cada aldeia. Diante disso, triplicaram suas aldeias e conseguiram mais caminhonetes do que as previstas inicialmente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porto Velho, Brasil, 27\/02\/2012 &ndash; &quot;Talvez seja a maldi&ccedil;&atilde;o de Rond&ocirc;nia&quot;\u009d, ironizou Ari Ott, ao se referir aos problemas com o in\u00c3\u00adcio da opera&ccedil;&atilde;o da primeira turbina da Central Hidrel&eacute;trica de Santo Ant&ocirc;nio, com a qual se desejava implantar no Brasil o novo ciclo de grandes projetos energ&eacute;ticos amaz&ocirc;nicos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/02\/america-latina\/brasil-uma-maldia%c2%a7ao-afeta-hidrelatricas-amaza%c2%b4nicas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,10],"tags":[27,25,21],"class_list":["post-9525","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-energia","tag-brasil","tag-ibsa","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9525"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9525\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}