{"id":9537,"date":"2012-02-29T10:09:50","date_gmt":"2012-02-29T10:09:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9537"},"modified":"2012-02-29T10:09:50","modified_gmt":"2012-02-29T10:09:50","slug":"espanha-do-estado-de-bem-estar-ao-estado-de-necessidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/02\/colunistas\/espanha-do-estado-de-bem-estar-ao-estado-de-necessidade\/","title":{"rendered":"ESPANHA: Do estado de bem-estar ao estado de necessidade"},"content":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, 29\/02\/2012 &ndash; O governante Partido Popular (PP) d&aacute; constantes mostras de dominar a estrat&eacute;gia de comunica&ccedil;&atilde;o e ter a iniciativa. <!--more--> Na oposi&ccedil;&atilde;o ao governo anterior convenceu uma maioria de eleitores de que o problema era o primeiro-ministro Rodr\u00c3\u00adguez Zapatero e que, caso seu candidato, Rajoy, chegasse ao poder, come&ccedil;aria o fim da crise. Era &quot;a mudan&ccedil;a&quot;\u009d, como taumat&uacute;rgico B&aacute;lsamo de Fierabr&aacute;s. Foi uma semeadura de expectativas sem concretiza&ccedil;&atilde;o ou mesmo prometendo o que n&atilde;o se podia cumprir.<\/p>\n<p>Uma vez no governo, o PP utilizou a defasagem do d&eacute;ficit or&ccedil;ament&aacute;rio em 2011 (de 8% em lugar dos 6% previstos) &quot;\u201c de sobra percebido anteriormente como inevit&aacute;vel, e devido principalmente \u00c3\u00a0 m&aacute; gest&atilde;o das Comunidades Aut&ocirc;nomas, junto com a entrada em recess&atilde;o &quot;\u201c, para justificar &quot;a mudan&ccedil;a da mudan&ccedil;a&quot;\u009d e elevar os impostos. A partir de ent&atilde;o, o governo do PP n&atilde;o esconde a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o, pelo contr&aacute;rio. As mensagens dizem que &quot;os dados s&atilde;o de arrepiar&quot;\u009d, que os n&uacute;meros do desemprego &quot;n&atilde;o melhorar&atilde;o no curto prazo. E mais, em 2012 v&atilde;o piorar&quot;\u009d (Rajoy em 8 de fevereiro), e que a sa\u00c3\u00adda da crise ser&aacute; muito dura e levar&aacute; tempo.<\/p>\n<p>A inten&ccedil;&atilde;o do governo &eacute; clara: quanto pior for a percep&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os sobre a situa&ccedil;&atilde;o e as perspectivas, mais dispostos e resignados estar&atilde;o para assumir sem rebeldia as reformas, em primeiro lugar a &quot;dura e profunda&quot;\u009d reforma trabalhista. Se tamb&eacute;m o susto nos toma em come&ccedil;o de mandato, as culpas se voltar&atilde;o instintivamente ao governo anterior.<\/p>\n<p>At&eacute; agora, esta estrat&eacute;gia se mostra eficaz para impedir o que em outro caso poderia significar uma queda dram&aacute;tica do apoio ao governo. Assim mostram as pesquisas, inclu\u00c3\u00adda a &uacute;ltima do Centro de Pesquisas Sociol&oacute;gicas (CIS), que reflete uma ex\u00c3\u00adgua perda de apoio popular.<\/p>\n<p>O lado ruim, para todos, dessa estrat&eacute;gia pol\u00c3\u00adtica &eacute; que se volte contra as possibilidades de recupera&ccedil;&atilde;o. De fato, essa sociedade resignada, conformista e, sobretudo, amedrontada (cada vez mais se escreve sobre o medo como fator de manipula&ccedil;&atilde;o social), estar&aacute; preparada para aceitar as reformas que o governo quiser. Pode ser, inclusive, que torne invi&aacute;vel uma greve geral neste momento. Contudo, o pessimismo n&atilde;o ajuda o clima prop\u00c3\u00adcio para que os empres&aacute;rios comecem a contratar e os cidad&atilde;os se animem a gastar.<\/p>\n<p>O governo pode cair na tenta&ccedil;&atilde;o de substituir o conceito &quot;estado de bem-estar&quot;\u009d pelo de &quot;estado de necessidade&quot;\u009d. Este &uacute;ltimo seria a redu&ccedil;&atilde;o daquele \u00c3\u00a0s cr\u00c3\u00adticas possibilidades da atual situa&ccedil;&atilde;o e \u00c3\u00a0 vis&atilde;o de um Estado truculento pelo imperativo da crise. Uma necessidade que tudo explica e justifica, desde a substitui&ccedil;&atilde;o de governos legitimados eleitoralmente por equipes t&eacute;cnicas, \u00c3\u00a0 subordina&ccedil;&atilde;o do estado de bem-estar a funcionalidades pol\u00c3\u00adticas oportunistas. A crise imp&otilde;e como verdade estabelecida o estreito modelo da rentabilidade dos servi&ccedil;os e das pol\u00c3\u00adticas sociais, o que abre doutrinariamente a porta \u00c3\u00a0s redu&ccedil;&otilde;es e privatiza&ccedil;&otilde;es dos mesmos. Assim, a crise como oportunidade (de melhorar e avan&ccedil;ar todos juntos) &eacute; substitu\u00c3\u00adda pela crise como pretexto (o avan&ccedil;o de uns e a paralisa&ccedil;&atilde;o ou o retrocesso de outros em uma sociedade cada vez mais dual).<\/p>\n<p>Naturalmente, o PP sustenta, primeiro na oposi&ccedil;&atilde;o e agora no governo, sua fidelidade inquebrant&aacute;vel aos diferentes componentes reais do estado de bem-estar. Faltaria mais, tratando-se do &quot;partido dos trabalhadores&quot;\u009d (Mar\u00c3\u00ada Dolores de Cospedal, secret&aacute;ria-geral do PP). Por&eacute;m, h&aacute; sintomas de sobra de que o que come&ccedil;a como uma &quot;reestrutura&ccedil;&atilde;o do estado de bem-estar para torn&aacute;-lo vi&aacute;vel&quot;\u009d acabar&aacute; sendo, por causa de uma revis&atilde;o reducionista e tecnocr&aacute;tica da crise, um profundo redimensionamento para baixo.<\/p>\n<p>A instala&ccedil;&atilde;o da ideia de que a necessidade chegou para ficar &quot;\u201c o estado de necessidade &quot;\u201c se v&ecirc; refor&ccedil;ada, e utilizada, quando os Estados e os governos nem mesmo pretendem ocultar sua impot&ecirc;ncia diante da crise, e renunciam \u00c3\u00a0 pol\u00c3\u00adtica em benef\u00c3\u00adcio da nebulosa que chamamos mercados. Longe de se rebelarem contra a hegemonia destes, encontram em seu poderio o manto que cobre suas pr&oacute;prias culpas, erros e in&eacute;pcias. E se alguns protestam diante de tal deriva degradante da pr&oacute;pria democracia, a\u00c3\u00ad est&aacute; outra das ferramentas anest&eacute;sicas: a culpa de nossos males &eacute; nossa, por termos desejado viver acima de nossas possibilidades. Assim, gen&eacute;rica e coletivamente, participamos em responsabilidades que diluem as graves culpas das minorias verdadeiramente culp&aacute;veis.<\/p>\n<p>Quais ser&atilde;o as consequ&ecirc;ncias sociais e pol\u00c3\u00adticas de tudo isto no m&eacute;dio prazo? Esse estado de necessidade dar&aacute; lugar a um estado de resigna&ccedil;&atilde;o? Ou&ccedil;o opini&otilde;es no sentido de que o governo tem caminho livre para realizar seu projeto, inclusive a parte n&atilde;o manifestada, sem que precise temer uma rea&ccedil;&atilde;o social significativa. Pode ser que seja assim nesta etapa. Entretanto, seria ruim confundir resigna&ccedil;&atilde;o com inibi&ccedil;&atilde;o, e mais ainda com conformidade e apoio. A resigna&ccedil;&atilde;o nunca &eacute; um estado psicol&oacute;gico permanente, podendo incubar a rebeldia. Sobretudo se, confundido pelo limitado do protesto social ativo, o governo desativa, em nome de seus objetivos fiscais, os mecanismos de coes&atilde;o e solidariedade social que permitem a paz social em tempos de crise. N&atilde;o se deve esquecer que o estado de bem-estar, ainda que temperado pelas circunst&acirc;ncias adversas, n&atilde;o &eacute; apenas uma necessidade social &quot;\u201c nem mesmo um conceito &quot;de esquerda&quot;\u009d &quot;\u201c ,sendo tamb&eacute;m um elemento necess&aacute;rio para o funcionamento equilibrado do sistema e para o progresso econ&ocirc;mico das sociedades democr&aacute;ticas europeias desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Guillermo Medina &eacute; jornalista e escritor, ex-diretor do jornal YA, ex-deputado e ex-presidente da Comiss&atilde;o de Defesa do Congresso espanhol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, Espanha, 29\/02\/2012 &ndash; O governante Partido Popular (PP) d&aacute; constantes mostras de dominar a estrat&eacute;gia de comunica&ccedil;&atilde;o e ter a iniciativa. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/02\/colunistas\/espanha-do-estado-de-bem-estar-ao-estado-de-necessidade\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1368,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[18],"class_list":["post-9537","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1368"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9537"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9537\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}