{"id":9587,"date":"2012-03-07T08:12:17","date_gmt":"2012-03-07T08:12:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9587"},"modified":"2012-03-07T08:12:17","modified_gmt":"2012-03-07T08:12:17","slug":"brasil-entre-duas-necessidades-migrata%c2%b3rias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/03\/america-latina\/brasil-entre-duas-necessidades-migrata%c2%b3rias\/","title":{"rendered":"Brasil entre duas necessidades migrat\u00c3\u00b3rias"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 07\/03\/2012 &ndash; Oscilando entre a necessidade de atrair profissionais qualificados, para enfrentar o desafio de seu crescimento econ&ocirc;mico, e sua tradi&ccedil;&atilde;o de acolher estrangeiros por raz&otilde;es humanit&aacute;rias, o Brasil tenta desenhar uma pol\u00c3\u00adtica migrat&oacute;ria que n&atilde;o v&aacute; contra seu passado e impulsione seu futuro.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_9587\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/e16-300x225.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9587\" class=\"size-medium wp-image-9587\" title=\"O Brasil reflete em sua cultura diversas correntes migrat&oacute;rias. Detalhe de grafite no muro do Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/e16-300x225.jpg\" alt=\"O Brasil reflete em sua cultura diversas correntes migrat&oacute;rias. Detalhe de grafite no muro do Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9587\" class=\"wp-caption-text\">O Brasil reflete em sua cultura diversas correntes migrat&oacute;rias. Detalhe de grafite no muro do Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Emigrar n&atilde;o foi f&aacute;cil para a portuguesa Vera Sardinha, psicopedagoga e fil&oacute;sofa especializada em mercado, desempregada em seu pa\u00c3\u00ads. &quot;Fiz perguntas, pesquisei sobre o Brasil e o Rio de Janeiro, fiz uma mala com roupas e vim em busca de emprego&quot;\u009d, contou \u00c3\u00a0 IPS esta mulher de 31 anos que escolheu este pa\u00c3\u00ads por integrar o Brics, grupo de economias emergentes que tamb&eacute;m tem R&uacute;ssia, \u00c3\u008dndia, China e \u00c3\u0081frica do Sul.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, com visto de turista n&atilde;o h&aacute; emprego, e conseguir trabalho &eacute; complicado, mesmo para algu&eacute;m origin&aacute;rio de um pa\u00c3\u00ads como Portugal, com hist&oacute;ria e cultura comuns. &quot;&Eacute; preciso demonstrar que se tem capacidade que nenhum brasileiro tem. Se no Brasil algu&eacute;m pode fazer o mesmo, n&atilde;o me concedem o visto&quot;\u009d, afirmou Vera. Ap&oacute;s muitas idas e vindas, conseguiu demonstrar sua experi&ecirc;ncia em empresas multinacionais &quot;com perspectiva global&quot;\u009d, frente a colegas brasileiros, conseguiu o visto e trabalha em uma companhia portuguesa de solu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas para televis&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;Isso de conseguir trabalho f&aacute;cil no Brasil &eacute; uma ilus&atilde;o. Tamb&eacute;m depende da forma&ccedil;&atilde;o. Um advogado n&atilde;o deve nem tentar, j&aacute; engenheiros e economistas conseguem f&aacute;cil&quot;\u009d, explicou Vera. Estes s&atilde;o profissionais para os quais o governo voltou seus olhos. A Secretaria de Assuntos Estrat&eacute;gicos elabora uma nova pol\u00c3\u00adtica de imigra&ccedil;&atilde;o, destinada a atrair jovens profissionais &quot;altamente qualificados&quot;\u009d e restringir o fluxo dos n&atilde;o formados.<\/p>\n<p>Seu coordenador, Ricardo Paes de Barros, disse ao jornal O Globo que,para esse tipo de profissional, seriam eliminados os obst&aacute;culos impostos em 1980 no vigente Estatuto do Estrangeiro, durante a ditadura militar (196401985). &quot;Como agora o Brasil &eacute; uma ilha de prosperidade no mundo, h&aacute; muitos profissionais de boa qualidade que querem vir para c&aacute;. Contudo, a fila para o visto &eacute; igual para todos. Estamos olhando clinicamente para ver quem nos trar&aacute; tecnologia&quot;\u009d, afirmou Ricardo.<\/p>\n<p>A iniciativa, n&atilde;o anunciada oficialmente, seguiria o modelo do Canad&aacute; e da Austr&aacute;lia, de amplitude para profissionais e empres&aacute;rios e restri&ccedil;&atilde;o para os demais, e est&aacute; baseada em estudos governamentais e demandas das empresas que evidenciam um d&eacute;ficit de m&atilde;o de obra qualificada na agora sexta economia do mundo. O estatuto atual tem m&uacute;ltiplas diferen&ccedil;as para as autoriza&ccedil;&otilde;es de resid&ecirc;ncia permanente e tempor&aacute;ria, e os vistos de trabalho, segundo a proced&ecirc;ncia dos estrangeiros, e outros elementos, como a disponibilidade de trabalhadores locais em cada setor. Al&eacute;m disso, estabelece visto por raz&otilde;es humanit&aacute;rias e o de refugiado.<\/p>\n<p>&quot;A principal diferen&ccedil;a entre o expatriado de hoje e o imigrante do passado &eacute; que agora, para justificar sua presen&ccedil;a no pa\u00c3\u00ads, tem que agregar valor a uma empresa&quot;\u009d, resumiu \u00c3\u00a0 IPS o italiano Gaetano Francini, vice-presidente da filial de uma multinacional de televis&atilde;o digital. Maur\u00c3\u00adcio Santoro, analista pol\u00c3\u00adtico da Funda&ccedil;&atilde;o Getulio Vargas (FGV), &eacute; neto de imigrantes italianos que eram &quot;camponeses com pouca educa&ccedil;&atilde;o&quot;\u009d, como muitos dos que vieram na primeira metade do S&eacute;culo 20. Hoje, no entanto, os imigrantes europeus costumam ter n\u00c3\u00advel universit&aacute;rio, mestrado e doutorado, sem oportunidade de emprego em seus pa\u00c3\u00adses, disse \u00c3\u00a0 IPS.<\/p>\n<p>&quot;Pensam que o Brasil &eacute; uma terra de muitas oportunidades de crescimento e desenvolvimento, e onde h&aacute; demanda de m&atilde;o de obra qualificada. Aqui h&aacute; necessidade de t&eacute;cnicos, engenheiros, cientistas, e as escolas brasileiras n&atilde;o podem formar tantos profissionais&quot;\u009d, destacou Gaetano. Estudos oficiais confirmam que h&aacute; um d&eacute;ficit de 200 mil a 400 mil profissionais qualificados, acentuado pela expans&atilde;o do Brasil em &aacute;reas como petr&oacute;leo, minera&ccedil;&atilde;o e tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Essa demanda tamb&eacute;m est&aacute; determinada pelas grandes obras comprometidas para o Mundial de 2014 e os Jogos Ol\u00c3\u00admpicos de 2016, e pela constru&ccedil;&atilde;o de grandes centrais hidrel&eacute;tricas, para atender uma expansiva demanda energ&eacute;tica. &quot;Em meu setor, o mercado hidr&aacute;ulico, o Brasil &eacute; o n&uacute;mero um do mundo&quot;\u009d, destacou \u00c3\u00a0 IPS o engenheiro hidr&aacute;ulico franc&ecirc;s Yann Chachreau, de 26 anos, que, no entanto, n&atilde;o consegue emprego. Outro estudo da FGV indica que no setor das tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o faltar&atilde;o 800 mil profissionais at&eacute; 2014.<\/p>\n<p>Em uma primeira etapa, a nova pol\u00c3\u00adtica migrat&oacute;ria brasileira buscaria captar profissionais da Europa, onde o desemprego entre os jovens atinge n\u00c3\u00adveis hist&oacute;ricos. Da Espanha, por exemplo, em 2011 chegaram 45% mais imigrantes do que em 2010. No final de 2011, o Brasil passou a contar com dois milh&otilde;es de estrangeiros em situa&ccedil;&atilde;o regular, segundo dados oficiais, o equivalente a 1% de seus mais de 198 milh&otilde;es de habitantes. Tamb&eacute;m haveria 600 mil estrangeiros sem documentos legais, conforme dados n&atilde;o oficiais. Na vizinha Argentina, os estrangeiros em condi&ccedil;&atilde;o regular representam 14% da popula&ccedil;&atilde;o total, e nos Estados Unidos chegam a 13% do total de habitantes, mais outros 3% de ilegais.<\/p>\n<p>No entanto, o que chama a aten&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; o acelerado aumento de imigrantes. O governo informou que os estrangeiros aumentaram em 50% no ano passado, e que foram expedidos 32% mais vistos de trabalho, em rela&ccedil;&atilde;o a 2010. Assim, pela primeira vez em duas d&eacute;cadas, em 2011 a balan&ccedil;a migrat&oacute;ria teve saldo positivo, e o Brasil recuperou sua tradi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de pa\u00c3\u00ads receptor, quebrada pela precariedade socioecon&ocirc;mica interna.<\/p>\n<p>A China, atualmente principal s&oacute;cio comercial e investidor estrangeiro no Brasil, foi o pa\u00c3\u00ads que mais solicitou visto de trabalho, seguido de Estados Unidos, Portugal, Fran&ccedil;a e Espanha. &quot;Com rela&ccedil;&atilde;o a cem anos atr&aacute;s, quando os imigrantes eram pobres, agora &eacute; uma expatria&ccedil;&atilde;o global ou intelectual&quot;\u009d, explicou \u00c3\u00a0 IPS o engenheiro italiano de 34 anos, Cesare Simone, que trabalha no escrit&oacute;rio brasileiro de uma firma francesa.<\/p>\n<p>Enquanto para essa imigra&ccedil;&atilde;o &quot;global ou intelectual&quot;\u009d se prepara uma entrada sem os obst&aacute;culos burocr&aacute;ticos atuais, as fronteiras come&ccedil;am a se fechar para as pessoas sem qualifica&ccedil;&atilde;o profissional, em sua maioria pobres. &quot;&Eacute; necess&aacute;rio definir at&eacute; onde ir&aacute; nossa generosidade. Como vamos contribuir para aliviar a pobreza no mundo e absorver essas pessoas. A solidariedade tem que ter um limite dentro do que o Brasil pode ajudar&quot;\u009d, explicou Ricardo no O Globo.<\/p>\n<p>&Eacute; o caso dos imigrantes haitianos, que desde 2010 chegam ao pa\u00c3\u00ads pelas fronteiras dos Estados do Acre e do Amazonas, fugindo da fome. O Brasil lidera uma miss&atilde;o de paz das Na&ccedil;&otilde;es Unidas no Haiti e &eacute; visto como um novo destino do &ecirc;xodo haitiano. O governo estabeleceu, em janeiro, que mais de quatro mil haitianos chegados nos dois &uacute;ltimos anos ser&atilde;o legalizados. Por&eacute;m, a partir de agora somente conceder&aacute; cem vistos mensais para novos imigrantes dessa proced&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, refor&ccedil;ar&aacute; as fronteiras para evitar a intermedia&ccedil;&atilde;o ilegal dos chamados &quot;coiotes&quot;\u009d.<\/p>\n<p>O Comit&ecirc; Nacional para os Refugiados considera que os haitianos n&atilde;o se enquadram nessa categoria, mas na de imigrantes. Por&eacute;m, at&eacute; agora lhes era concedida a perman&ecirc;ncia por raz&otilde;es humanit&aacute;rias. &quot;Quando vejo estes haitianos que querem entrar no Brasil me recordo da hist&oacute;ria da minha fam\u00c3\u00adlia e penso que, se a nova lei estivesse em vigor nos tempos dos meus av&oacute;s, eles n&atilde;o poderiam ter vindo para c&aacute;&quot;\u009d, ponderou Santoro.<\/p>\n<p>Por isso, para o neto daqueles imigrantes quase analfabetos e hoje um dos mais promissores cientistas pol\u00c3\u00adticos do pa\u00c3\u00ads, o Brasil tem um desafio de direitos humanos, al&eacute;m de econ&ocirc;mico e tecnol&oacute;gico. &quot;N&atilde;o podemos cometer aqui o mesmo erro que cometeram Europa e Estados Unidos, fechando as portas para as pessoas pobres que tamb&eacute;m querem vir trabalhar&quot;\u009d, resumiu. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 07\/03\/2012 &ndash; Oscilando entre a necessidade de atrair profissionais qualificados, para enfrentar o desafio de seu crescimento econ&ocirc;mico, e sua tradi&ccedil;&atilde;o de acolher estrangeiros por raz&otilde;es humanit&aacute;rias, o Brasil tenta desenhar uma pol\u00c3\u00adtica migrat&oacute;ria que n&atilde;o v&aacute; contra seu passado e impulsione seu futuro. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/03\/america-latina\/brasil-entre-duas-necessidades-migrata%c2%b3rias\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[27],"class_list":["post-9587","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9587"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9587\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}