{"id":9601,"date":"2012-03-12T11:28:27","date_gmt":"2012-03-12T11:28:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9601"},"modified":"2012-03-12T11:28:27","modified_gmt":"2012-03-12T11:28:27","slug":"argentina-a-hora-dos-crimes-econa%c2%b4micos-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/03\/america-latina\/argentina-a-hora-dos-crimes-econa%c2%b4micos-da-ditadura\/","title":{"rendered":"ARGENTINA: A hora dos crimes econ\u00c3\u00b4micos da ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 12\/03\/2012 &ndash; Na medida em que avan&ccedil;am os julgamentos dos repressores da ditadura argentina (1976-1983), saem \u00c3\u00a0 luz delitos econ&ocirc;micos cometidos pelo regime contra mais de 600 empres&aacute;rios que perderam seus bens. <!--more--> &quot;N&atilde;o t\u00c3\u00adnhamos milit&acirc;ncia pol\u00c3\u00adtica nem rela&ccedil;&atilde;o com o governo, mas nos roubaram tudo, as sete empresas e o avi&atilde;o da companhia. N&atilde;o nos mataram por pura casualidade&quot;\u009d, contou Alejandro Iaccarino, que era um pr&oacute;spero empres&aacute;rio leiteiro na d&eacute;cada de 1970.<\/p>\n<p>A previs&atilde;o &eacute; que seu processo por repara&ccedil;&atilde;o seja julgado neste ano, quando terminar o atual processo contra os dois oficiais de pol\u00c3\u00adcia acusados de sequestrarem ele e seus dois irm&atilde;os, &quot;com o &uacute;nico objetivo de nos tirarem tudo&quot;\u009d, assegurou Iaccarino \u00c3\u00a0 IPS. A previs\u00c3\u00advel condena&ccedil;&atilde;o dos dois r&eacute;us, j&aacute; presos, por priva&ccedil;&atilde;o ileg\u00c3\u00adtima de liberdade e outros crimes conexos, &eacute; o requisito necess&aacute;rio para que seja poss\u00c3\u00advel abrir o processo sobre a repara&ccedil;&atilde;o por danos econ&ocirc;micos e morais. O caso dos Iaccarino &eacute; um dos mais emblem&aacute;ticos delitos econ&ocirc;micos do regime e, segundo informou \u00c3\u00a0 IPS a advogada da fam\u00c3\u00adlia, Florencia Arietto, &quot;ser&aacute; a primeira vez que se pedir&aacute; ao Estado uma repara&ccedil;&atilde;o patrimonial pelo despojo de bens&quot;\u009d.<\/p>\n<p>A Secretaria de Direitos Humanos da Na&ccedil;&atilde;o est&aacute; consciente de que o de Iaccarino n&atilde;o &eacute; um caso isolado e, por isto, criou uma unidade especial de investiga&ccedil;&atilde;o sobre crimes de lesa humanidade, cometidos com motiva&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica durante a ditadura. A unidade realiza um cadastro com mais de 600 casos de empresas liquidadas, que sofreram interven&ccedil;&atilde;o ou foram apropriadas com fins de roubo, ou por n&atilde;o se ajustarem ao modelo econ&ocirc;mico da ditadura.<\/p>\n<p>Estes casos ficaram eclipsados at&eacute; agora pelos horrores da repress&atilde;o que deixou o saldo de 30 mil desaparecidos, segundo fontes n&atilde;o governamentais. Entre eles os de empresas av\u00c3\u00adcolas, t&ecirc;xteis e vin\u00c3\u00adcolas, al&eacute;m de gr&aacute;ficas, sider&uacute;rgicas, f&aacute;bricas de papel e bancos. Tamb&eacute;m houve empres&aacute;rios que colaboraram com o despojo, como c&uacute;mplices contra seus competidores ou como denunciantes de trabalhadores, sindicalistas ou advogados trabalhistas vinculados \u00c3\u00a0s suas empresas.<\/p>\n<p>Em janeiro, um promotor da prov\u00c3\u00adncia de Jujuy pediu que os tribunais citassem como imputado o empres&aacute;rio Pedro Blaquier, dono do Engenho Ledesma, situado na localidade de Libertador General San Martin. O pedido &eacute; parte de um processo no qual se investiga uma blitz feita em 1976, quando foram detidas cerca de 400 pessoas, das quais 55 continuam desaparecidas. Nessa opera&ccedil;&atilde;o foram utilizados ve\u00c3\u00adculos com o logotipo dessa empresa agroindustrial.<\/p>\n<p>Outro caso de empres&aacute;rios despojados &eacute; o da fam\u00c3\u00adlia Paskvan, com estabelecimentos av\u00c3\u00adcolas nas prov\u00c3\u00adncias de Buenos Aires e Santa F&eacute;. O caso foi aceito em 2011 pelo Tribunal Interamericano de Direitos Humanos, o inapel&aacute;vel tribunal continental com sede na Costa Rica. Tamb&eacute;m h&aacute; o processo de Federico Gutheim, e seu filho Miguel, donos da empresa t&ecirc;xtil Sadeco, que foram sequestrados pela ditadura e, sob cativeiro, obrigados a renegociar um contrato de exporta&ccedil;&otilde;es com uma empresa de Hong Kong. Tamb&eacute;m se investiga o ocorrido com a firma Papel Prensa, fornecedora de papel para jornais. Seu dono, David Graiver, morreu em um acidente a&eacute;reo em 1976. Sua fam\u00c3\u00adlia foi sequestrada e obrigada, sob tortura, a repassar a&ccedil;&otilde;es da empresa.<\/p>\n<p>Entretanto, o caso Iaccarino tem uma caracter\u00c3\u00adstica &uacute;nica, segundo a advogada, que &eacute; a quantidade de provas documentais guardadas pela fam\u00c3\u00adlia, que revelam a trama do despojo. Os dois irm&atilde;os do empres&aacute;rio e seu pai foram sequestrados em novembro de 1976 na prov\u00c3\u00adncia de Santiago del Estero, onde a fam\u00c3\u00adlia tinha 25 mil hectares de campos e cabe&ccedil;as de gado. Quase simultaneamente, Alejandro Iaccarino e sua m&atilde;e foram capturados em Buenos Aires.<\/p>\n<p>&quot;Entraram sete pessoas armadas na garagem do pr&eacute;dio onde viv\u00c3\u00adamos e nos levaram&quot;\u009d, contou o empres&aacute;rio \u00c3\u00a0 IPS. Os pais foram libertados em alguns dias, mas os tr&ecirc;s irm&atilde;os ficaram detidos 22 meses em 14 centros de deten&ccedil;&atilde;o diferentes. A princ\u00c3\u00adpio eram informados que estavam &quot;\u00c3\u00a0 disposi&ccedil;&atilde;o do PEN&quot;\u009d (Poder Executivo Nacional), uma figura que dava certa legitimidade aos prisioneiros do regime de fato. Para tirarem seus bens, os mantiveram clandestinos, explicou sua advogada.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; um caso incr\u00c3\u00advel, duplamente grave, porque a partir de janeiro de 1977, com o vil objetivo de tirar-lhes os bens, os levaram para um centro clandestino de deten&ccedil;&atilde;o, a Brigada de Lan&uacute;s, na prov\u00c3\u00adncia de Buenos Aires&quot;\u009d, acrescentou. No tr&acirc;mite interveio um juiz, sua secret&aacute;ria e uma escriv&atilde;, que foram ao centro de deten&ccedil;&atilde;o para realizar o tr&acirc;mite que permitisse ao pai ceder os bens, em troca, segundo prometeram, da liberdade de seus filhos.<\/p>\n<p>Os Iaccarino pediram \u00c3\u00a0 escriv&atilde; que anotasse o endere&ccedil;o da Brigada de Lan&uacute;s, o que foi feito. Gra&ccedil;as a isso, est&aacute; documentado que eles assinaram esse documento diante de uma escriv&atilde; sob sequestro. &quot;O dano f\u00c3\u00adsico, moral e patrimonial que nos causaram &eacute; inestim&aacute;vel&quot;\u009d, recordou Alejandro Iaccarino. &quot;T\u00c3\u00adnhamos sete empresas que funcionavam perfeitamente, os balan&ccedil;os mostram isso. Hav\u00c3\u00adamos conseguido introduzir tecnologia e fortalecer toda a ind&uacute;stria l&aacute;ctea de seis prov\u00c3\u00adncias&quot;\u009d, destacou.<\/p>\n<p>A persegui&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou sutilmente antes dos sequestros, quando notaram que o estatal Banco Prov\u00c3\u00adncia, sob interven&ccedil;&atilde;o da ditadura, come&ccedil;ava a cortar-lhes o cr&eacute;dito para for&ccedil;&aacute;-los a vender campos a pre&ccedil;o vil. &quot;O gerente do banco, que nos conhecia, nos dizia que est&aacute;vamos em uma lista negra. Depois soubemos que havia sete pessoas dentro de nossas empresas fazendo trabalho de intelig&ecirc;ncia para a ditadura&quot;\u009d, revelou Alejandro. Tamb&eacute;m descobriram que um dos que tentaram comprar deles um terreno agr\u00c3\u00adcola era sobrinho do ministro do Trabalho (1979-1981) e ministro do Interior (1982-1983) durante os governos ditatoriais.<\/p>\n<p>No entanto, o verdadeiro pesadelo come&ccedil;ou com os sequestros. &quot;Estive tr&ecirc;s vezes \u00c3\u00a0 beira da morte. Me encapuzaram e me colocaram nu em uma maca, amarraram meus pulsos e os tornozelos e me torturavam com uma agulha el&eacute;trica&quot;\u009d, contou Alejandro. Uma vez cedidos os bens, os testas de ferro tomaram empr&eacute;stimos milion&aacute;rios com bancos amigos e n&atilde;o os pagaram. As empresas quebraram, os bancos tamb&eacute;m, e o Banco Central arrematou os bens, que depois foram adquiridos por outros empres&aacute;rios de boa f&eacute;.<\/p>\n<p>Agora s&oacute; restam dois irm&atilde;os Iaccarino, Alejandro e Carlos. Os pais morreram e o irm&atilde;o mais velho, Rodolfo, faleceu em 2009, um m&ecirc;s depois de receber amea&ccedil;as de morte por parte de desconhecidos. Segundo a advogada da fam\u00c3\u00adlia, uma vez se tenha a condena&ccedil;&atilde;o de Bruno Trevis&aacute;n e Jorge Ferranti, os policiais que os sequestraram e torturaram na Brigada de Lan&uacute;s, come&ccedil;ar&aacute; a reclama&ccedil;&atilde;o pela repara&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, que ser&aacute; neste mesmo ano. &quot;Os peritos judiciais estimam que o patrim&ocirc;nio tirado dos Iaccarino equivale hoje a cerca de US$ 40 milh&otilde;es, e vamos exigi-los&quot;\u009d, enfatizou. Ela explicou que a inten&ccedil;&atilde;o de seus clientes &eacute; mostrar em ju\u00c3\u00adzo &quot;todo o circuito criado a fim de avan&ccedil;ar em uma pol\u00c3\u00adtica econ&ocirc;mica de depreda&ccedil;&atilde;o&quot;\u009d. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 12\/03\/2012 &ndash; Na medida em que avan&ccedil;am os julgamentos dos repressores da ditadura argentina (1976-1983), saem \u00c3\u00a0 luz delitos econ&ocirc;micos cometidos pelo regime contra mais de 600 empres&aacute;rios que perderam seus bens. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/03\/america-latina\/argentina-a-hora-dos-crimes-econa%c2%b4micos-da-ditadura\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,5,11],"tags":[],"class_list":["post-9601","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-economia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9601","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9601"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9601\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}