{"id":966,"date":"2005-09-05T00:00:00","date_gmt":"2005-09-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=966"},"modified":"2005-09-05T00:00:00","modified_gmt":"2005-09-05T00:00:00","slug":"iraque-a-civilizao-da-selva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/09\/america-latina\/iraque-a-civilizao-da-selva\/","title":{"rendered":"Iraque: A civiliza&ccedil;&atilde;o da selva"},"content":{"rendered":"<p>NOVA D&Eacute;LHI, 05\/09\/2005 &ndash; Sim, &eacute; poss&iacute;vel assegurar que os tigres, as tribos, as &aacute;rvores e todas as demais formas de vida sejam protegidas e possam continuar sua viagem evolutiva em paz e harmonia, escreve neste artigo, exclusivo para o Terram&eacute;rica, a ativista indiana Vandana Shiva.<br \/> <!--more--> At&eacute; h&aacute; pouco tempo, os indianos se identificavam como Aranya Sanskriti, ou seja, a Civiliza&ccedil;&atilde;o da Selva. Segundo o poeta Rabindranath Tagore, a peculiaridade da cultura indiana consiste em sua defini&ccedil;&atilde;o da vida na selva como a mais alta forma de evolu&ccedil;&atilde;o cultural. Em &quot;Tapovan&quot;, Tagore escreveu que &quot;a civiliza&ccedil;&atilde;o indiana se caracteriza por situar suas fontes de regenera&ccedil;&atilde;o &#8211; material e intelectual &#8211; nas selvas e florestas, n&atilde;o na cidade. A cultura que surgiu da selva sofreu influ&ecirc;ncia de diversos processos de renova&ccedil;&atilde;o e reafirma&ccedil;&atilde;o da vida, que est&atilde;o sempre atuando no ambiente selvagem e que variam de uma esp&eacute;cie para outra, de uma esta&ccedil;&atilde;o para outra e em sua apar&ecirc;ncia, seu som e seu cheiro&quot;.<\/p>\n<p> Atualmente temos problemas para proteger nossos sistemas essenciais de apoio &aacute; vida e ao cora&ccedil;&atilde;o de nossa identidade como civiliza&ccedil;&atilde;o, porque sacrificamos &quot;o princ&iacute;pio unificador da vida em diversidade, do pluralismo democr&aacute;tico, que havia se convertido no princ&iacute;pio da civiliza&ccedil;&atilde;o indiana&quot;. O fizemos em nome das categorias reducionistas do pensamento ocidental, que desprezam a coexist&ecirc;ncia. O tigre se op&otilde;e &agrave; tribo, a tribo se op&otilde;e &agrave;s &aacute;rvores. A depend&ecirc;ncia m&uacute;tua e a afinidade est&atilde;o sendo substitu&iacute;das pelo antagonismo, pela polariza&ccedil;&atilde;o e pela exclus&atilde;o que amea&ccedil;am a todos: as tribos, os tigres e a biodiversidade das selvas e florestas.<\/p>\n<p> Esta polariza&ccedil;&atilde;o entre a prote&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies humanas e n&atilde;o humanas em nossas selvas fica vidente em dois intensos debates que atrairam a aten&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o h&aacute; poucos meses: um sobre o crescente desaparecimento na &Iacute;ndia dos tigres, cujo n&uacute;mero caiu de 40 mil h&aacute; um s&eacute;culo para menos de tr&ecirc;s mil atualmente, e outro sobre as tribos registradas (&agrave;s quais a Constitui&ccedil;&atilde;o indiana reconhece direitos espec&iacute;ficos) e a lei de Reconhecimento dos Direitos da Selva. As tribos, que compreendem pouco mais que 8% da popula&ccedil;&atilde;o indiana, foram deslocadas de suas terras nas selvas para dar lugar a represas, projetos de minera&ccedil;&atilde;o e rodovias. As leis para a conserva&ccedil;&atilde;o da selva da &eacute;poca colonial da &Iacute;ndia se baseavam nos preconceitos ocidentais de que as esp&eacute;cies humanas e as n&atilde;o humanas n&atilde;o podem coexistir, de que os parques devem estar sem gente e que os assentamentos humanos n&atilde;o devem ter biodiversidade.<\/p>\n<p> Esta &eacute; a premissa da teoria da Terra Nullius, que norteou a coloniza&ccedil;&atilde;o. De acordo com esse paradigma da &quot;propriedade&quot;, se a terra e as selvas s&atilde;o conservadas em seu estado original, ou seja, que n&atilde;o tenham sido &quot;desenvolvidas&quot;, n&atilde;o pertencem aos seus habitantes originais. Quando colonizou a Austr&aacute;lia, o governo brit&acirc;nico fez uso dessa teoria para justificar o confisco de terras dos ind&iacute;genas que ali viviam h&aacute; pelo menos 60 mil anos. Os colonizadores brit&acirc;nicos n&atilde;o reconheciam que a terra estava sendo usada porque os ind&iacute;genas a utilizavam de uma maneira diversa. Assim, foram ignorados seus direitos. Entretanto, como determinou em 1992 a Alta Corte no famoso Caso Mabo, o n&atilde;o-reconhecimento n&atilde;o extingue os direitos. A Lei sobre o Direito dos Nativos redigida pela Austr&aacute;lia em 1993, assim como a proposta Lei Tribal da &Iacute;ndia, agora reconhece a continuidade dos direitos dos abor&iacute;gines.<\/p>\n<p> As tradi&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas da &Iacute;ndia se baseiam na diversidade, no pluralismo, na multifuncionalidade e na n&atilde;o-exclusividade. A lei de reconhecimento dos direitos tribais fortalecer&aacute; a prote&ccedil;&atilde;o das selvas ao proporcionar seguran&ccedil;a legal aos verdadeiros guardi&otilde;es de nossa natureza. O sustento econ&ocirc;mico baseado na conserva&ccedil;&atilde;o do meio mant&eacute;m tanto as tribos quanto as selvas. E se hoje se empobreceram, n&atilde;o &eacute; porque a biodiversidade e o sustento baseado no uso tribal tradicional do meio selvagem n&atilde;o requer riqueza, mas porque for&ccedil;as comerciais externas se apropriaram dessa riqueza.<\/p>\n<p> Em &quot;The Agricultural Testament&quot; (O Testamento Agr&iacute;cola), Sir Albert Howard escreveu: &quot;Na agricultura da &Aacute;sia nos encontramos diante de um (antigo) sistema campon&ecirc;s de cultivo da terra que, no essencial, se estabilizou muito cedo no continente. O que hoje est&aacute; ocorrendo nos pequenos campos agr&iacute;colas da &Iacute;ndia e da China, j&aacute; ocorreu h&aacute; muitos s&eacute;culos. As pr&aacute;ticas agr&iacute;colas no Oriente superam a prova suprema e j&aacute; s&atilde;o t&atilde;o permanentes quanto as da selva primitiva, das pradarias e dos oceanos&quot;.<\/p>\n<p> Estes princ&iacute;pios de produ&ccedil;&atilde;o tradicional podem ser integrados com um manejo diversificado e multifuncional das florestas, que conserve as diversas esp&eacute;cies e proteja tanto a selva quanto o sustento de sua gente. Podemos, se nos preocupamos com isso, garantir que os tigres, as tribos, as &aacute;rvores e todas as outras formas de vida sejam protegidas e possam continuar sua viagem evolutiva em paz e harmonia. Se fracassarmos, porque nosso olhar estreito nos cega e n&atilde;o nos permite ver quais s&atilde;o nossos mais amplos deveres, acabaremos por destruir os fundamentos de nossos sistemas de vida.<\/p>\n<p> * A autora &eacute; escritora e defensora dos direitos da mulher e do meio ambiente.<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram&eacute;rica, projeto de comunica&ccedil;&atilde;o dos Programas das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu&iacute;do pela Ag&ecirc;ncia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NOVA D&Eacute;LHI, 05\/09\/2005 &ndash; Sim, &eacute; poss&iacute;vel assegurar que os tigres, as tribos, as &aacute;rvores e todas as demais formas de vida sejam protegidas e possam continuar sua viagem evolutiva em paz e harmonia, escreve neste artigo, exclusivo para o Terram&eacute;rica, a ativista indiana Vandana Shiva.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/09\/america-latina\/iraque-a-civilizao-da-selva\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":379,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-966","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/966","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/379"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=966"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/966\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=966"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=966"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=966"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}