{"id":9666,"date":"2012-03-22T11:38:45","date_gmt":"2012-03-22T11:38:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9666"},"modified":"2012-03-22T11:38:45","modified_gmt":"2012-03-22T11:38:45","slug":"haiti-abrigos-nao-atraem-os-desabrigados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/03\/economia\/haiti-abrigos-nao-atraem-os-desabrigados\/","title":{"rendered":"HAITI: Abrigos n&atilde;o atraem os desabrigados"},"content":{"rendered":"<p>Colinas de L\u00c3\u00a9og\u00c3\u00a2ne, Haiti, 22\/03\/2012 &ndash; Quase a metade dos abrigos de emerg&ecirc;ncia distribu\u00c3\u00addos pela organiza&ccedil;&atilde;o brit&acirc;nica Tearfund nos morros da localidade haitiana de L&eacute;og&acirc;ne est&atilde;o vazios, seis meses ap&oacute;s serem constru\u00c3\u00addos. <!--more--> A associa&ccedil;&atilde;o jornal\u00c3\u00adstica Haiti Grassroots Watch (HGW) realizou uma investiga&ccedil;&atilde;o de dois meses nas aldeias de Fonds d&quot;\u2122Oies e Cormiers, nessa localidade.<\/p>\n<p>A conclus&atilde;o &eacute; que 34 das 84 fam\u00c3\u00adlias que receberam moradias tempor&aacute;rias n&atilde;o moravam nelas, e que 11 fam\u00c3\u00adlias conseguiram duas casas de organiza&ccedil;&otilde;es humanit&aacute;rias diferentes. Se estas 34 casas (constru\u00c3\u00addas por US$ 3 mil cada uma, segundo a Tearfund) est&atilde;o vazias, ou, pior, alugadas, isto significa que foram desperdi&ccedil;ados pelo menos US$ 102 mil, enquanto dezenas de fam\u00c3\u00adlias vizinhas ainda moram em barracas ou cho&ccedil;as improvisadas.<\/p>\n<p>&quot;Os abrigos de emerg&ecirc;ncia entregues por aqui n&atilde;o foram distribu\u00c3\u00addos de maneira justa&quot;\u009d, afirmou Rosemie Durandisse. Esta agricultora de 50 anos, seu marido e os seis filhos ocupavam uma casa s&oacute;lida com quatro c&ocirc;modos, que ficou destru\u00c3\u00adda pelo terremoto de 12 de janeiro de 2010, cujo epicentro foi a cerca de 25 quil&ocirc;metros dali. Agora, a fam\u00c3\u00adlia vive amontoada em um casebre de madeira, tela e pl&aacute;stico. &quot;A vida n&atilde;o &eacute; nada cor de rosa para mim. Preciso encontrar uma casa porque quando chove a enxurrada torna nossas vidas miser&aacute;veis&quot;\u009d, acrescentou.<\/p>\n<p>A organiza&ccedil;&atilde;o crist&atilde; Tearfund (Fundo de Al\u00c3\u00advio da Alian&ccedil;a Evang&eacute;lica), que trabalha em cerca de 50 pa\u00c3\u00adses, chegou a estas localidades da montanha entre L&eacute;og&acirc;ne e Jacmel depois do terremoto. Al&eacute;m de outras obras, construiu 249 &quot;abrigos de transi&ccedil;&atilde;o&quot;\u009d. As &quot;casas respeitam as normas&quot;\u009d estabelecidas para moradias posteriores ao desastre, informou \u00c3\u00a0 HGW a diretora do programa da Tearfund no local, Kristie van de Wetering. &quot;E uma das coisas que fizemos foi buscar dinheiro extra para poder implicar os benefici&aacute;rios e a comunidade no projeto&quot;\u009d, explicou.<\/p>\n<p>As casas de dois ambientes e 18 metros quadrados foram constru\u00c3\u00addas de madeira aglomerada sobre uma base de cimento e com teto de zinco. Cada uma custou US$ 3 mil, segundo a organiza&ccedil;&atilde;o. No total, nos &uacute;ltimos dois anos, as organiza&ccedil;&otilde;es humanit&aacute;rias constru\u00c3\u00adram cerca de 110 mil abrigos de transi&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas devastadas pelo terremoto, ao custo total de US$ 500 milh&otilde;es. A quantidade de fam\u00c3\u00adlias sem moradia ap&oacute;s o desastre chegou a 300 mil. Para conseguir um abrigo de transi&ccedil;&atilde;o, uma fam\u00c3\u00adlia tinha que provar que possu\u00c3\u00ada terras ou um aluguel de longo prazo. Cerca de dois ter&ccedil;os das 200 mil fam\u00c3\u00adlias abrigadas depois do terremoto eram inquilinos, o que significa que n&atilde;o estavam aptas para receber essas casas.<\/p>\n<p>No mercado de Tombe G&acirc;teau, ao longo da estrada de Jacmel, duas casas ficam no mesmo terreno. Uma da organiza&ccedil;&atilde;o Brac, de Bangladesh, que a construiu de concreto, a alguns passos de uma de madeira, feita pela Tearfund. Todos no bairro dizem que ambas pertencem \u00c3\u00a0 mesma pessoa: Cevemoir Charles. No muro da casa da Brac h&aacute; um cartaz onde se l&ecirc; &quot;Aluga-se&quot;\u009d. Consultado a respeito, Charles explodiu em raiva e partiu rapidamente, resmungado que &quot;estas casas n&atilde;o pertencem a mim, s&atilde;o da minha mulher&quot;\u009d.<\/p>\n<p>O caso de Charles n&atilde;o &eacute; &uacute;nico. R&eacute;silia Pierre, m&atilde;e de tr&ecirc;s filhos, vive com o marido e mais duas pessoas em uma das duas casas que recebeu da Brac. E tamb&eacute;m busca por um inquilino. &quot;Vivo neste abrigo e o outro est&aacute; vazio&quot;\u009d, admitiu, com se fosse perfeitamente normal. &quot;De vez em quando vou l&aacute; limpar&quot;\u009d, acrescentou.<\/p>\n<p>O funcion&aacute;rio de liga&ccedil;&atilde;o local da Tearfund jurou que n&atilde;o h&aacute; duplica&ccedil;&otilde;es. &quot;Levamos em conta se algu&eacute;m j&aacute; recebeu um abrigo de outra organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o governamental&quot;\u009d, disse Booz Serhum. Mas, nas duas se&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias investigadas, a coordena&ccedil;&atilde;o foi, no m\u00c3\u00adnimo, ineficiente. N&atilde;o impediu que ocorressem cerca de dez duplica&ccedil;&otilde;es na mesma regi&atilde;o, ou que muitos outros recebessem abrigos sem necessit&aacute;-los, j&aacute; que vivem em outra parte ou os alugam.<\/p>\n<p>Como se explica haver abrigos vazios enquanto fam\u00c3\u00adlias inteiras ainda vivem em tendas ou casas danificadas? Os jornalistas conclu\u00c3\u00adram que faltou coordena&ccedil;&atilde;o, houve falhas no m&eacute;todo usado para selecionar os benefici&aacute;rios e tamb&eacute;m mentiras e erros. Os funcion&aacute;rios locais foram os primeiros a reconhecer a desastrosa situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;As v\u00c3\u00adtimas se queixam de que h&aacute; pessoas que receberam abrigos sem terem necessidade, enquanto outras necessitadas n&atilde;o receberam&quot;\u009d, disse Laurore Joseph Jor&eacute;s, integrante do Conselho Administrativo da Se&ccedil;&atilde;o Comunit&aacute;ria de Cormiers (Casec). Innocent Adam, coordenador desse &oacute;rg&atilde;o em Fond d&quot;\u2122Oies, concordou com seu colega, mas enfatizou que as autoridades locais n&atilde;o podem fazer nada. Contudo, se os funcion&aacute;rios locais n&atilde;o escolheram os benefici&aacute;rios, quem o fez?<\/p>\n<p>Segundo a Tearfund, os comit&ecirc;s comunit&aacute;rios instalados com a ajuda da entidade ap&oacute;s o terremoto tiveram a &uacute;ltima palavra, mas os comit&ecirc;s afirmam que foi a organiza&ccedil;&atilde;o que decidiu tudo. Segundo Sanon Dumas, integrante do comit&ecirc; de Fond d&quot;\u2122Oies, a organiza&ccedil;&atilde;o s&oacute; foi respons&aacute;vel por garantir que a constru&ccedil;&atilde;o acontecesse corretamente, e depois informar a Tearfund. Por&eacute;m, admitiu: &quot;se fizemos alguma escolha, foi para ajudar a Tearfund a selecionar da lista os que j&aacute; haviam se registrado e estavam na base de dados do computador&quot;\u009d. A m&atilde;e de Dumas recebeu um abrigo de transi&ccedil;&atilde;o, que no come&ccedil;o deste m&ecirc;s ainda estava vazio.<\/p>\n<p>Alguns acreditam que a Tearfund foi fraudada muitas vezes. &quot;O estudo de campo inicial foi feito por gente que em nada conhecia o contexto local&quot;\u009d, disse F&eacute;vry G&eacute;r&eacute;sol, integrante do comit&ecirc; de Cormiers. &quot;Pessoas receberam um abrigo por m&eacute;todos nebulosos ou mediante mentiras&quot;\u009d, denunciou. Ele pr&oacute;prio tem dois abrigos de transi&ccedil;&atilde;o que recebeu de duas organiza&ccedil;&otilde;es, Tearfund e Cruz Vermelha Su\u00c3\u00ad&ccedil;a.<\/p>\n<p>Por desconhecerem a regi&atilde;o, os pesquisadores foram enganados por pessoas que simularam ser donas de casas abandonadas e destru\u00c3\u00addas. A Tearfund, que tamb&eacute;m construiu 27 escolas tempor&aacute;rias e uma dezena de po&ccedil;os, e realizou outros programas na regi&atilde;o, n&atilde;o nega a possibilidade. E parece que o nepotismo e o favoritismo tamb&eacute;m tiveram um papel na distribui&ccedil;&atilde;o de pelo menos alguns dos abrigos.<\/p>\n<p>Jornalistas da HGW observaram que nas se&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias que integraram a mostra, a maioria das fam\u00c3\u00adlias que conseguiram abrigos tinha algum tipo de v\u00c3\u00adnculo com membros do comit&ecirc;. Por exemplo, cerca de dez fam\u00c3\u00adlias que vivem perto de Sanon Dumas t&ecirc;m abrigos, enquanto potenciais benefici&aacute;rios a poucos quil&ocirc;metros dali ainda vivem em casas danificadas.<\/p>\n<p>Berline C&eacute;rival, de Grand Bois, conhece muito bem as vantagens de uma amizade. &quot;Os pesquisadores n&atilde;o me contataram, por isso fui ver&quot;\u009d um membro de um comit&ecirc;. &quot;Ele entrou em contato com um engenheiro da Tearfund para que constru\u00c3\u00adsse um abrigo para mim. E aqui estou hoje&quot;\u009d, contou a mulher. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>Nota<\/p>\n<p>A entrevista com a Tearfund aconteceu antes do trabalho de campo para este artigo. A equipe da HGW tentou muitas vezes fazer uma entrevista posterior, sem sucesso.<\/p>\n<p>* A Haiti Grassroots Watch &eacute; uma associa&ccedil;&atilde;o entre a AlterPresse, a Sociedade de Anima&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o Social (Saks), a Rede de Mulheres de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (Refraka), r&aacute;dios comunit&aacute;rias e estudantes da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade do Estado. Este informe foi poss\u00c3\u00advel gra&ccedil;as ao apoio do Fundo para o Jornalismo de Investiga&ccedil;&atilde;o no Haiti.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colinas de L\u00c3\u00a9og\u00c3\u00a2ne, Haiti, 22\/03\/2012 &ndash; Quase a metade dos abrigos de emerg&ecirc;ncia distribu\u00c3\u00addos pela organiza&ccedil;&atilde;o brit\u00c3\u00a2nica Tearfund nos morros da localidade haitiana de L&eacute;og\u00c3\u00a2ne est&atilde;o vazios, seis meses ap&oacute;s serem constru\u00c3\u00addos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/03\/economia\/haiti-abrigos-nao-atraem-os-desabrigados\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1109,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,5],"tags":[15,21],"class_list":["post-9666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-economia","tag-caribe","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1109"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9666\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}