{"id":9711,"date":"2012-04-03T07:53:30","date_gmt":"2012-04-03T07:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9711"},"modified":"2012-04-03T07:53:30","modified_gmt":"2012-04-03T07:53:30","slug":"os-homens-continuam-a-tomar-as-decisa%c2%b5es-sobre-os-direitos-reprodutivos-na-costa-do-marfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/04\/africa\/os-homens-continuam-a-tomar-as-decisa%c2%b5es-sobre-os-direitos-reprodutivos-na-costa-do-marfim\/","title":{"rendered":"Os homens continuam a tomar as decis\u00c3\u00b5es sobre os direitos reprodutivos na Costa do Marfim"},"content":{"rendered":"<p>ABIDJAN, 03\/04\/2012 &ndash; &quot;Gostaria de usar meios contraceptivos, mas o meu marido op&otilde;e-se,&quot;\u009d afirma Bintou Moussa*. Esta m&atilde;e de 32 anos acabou de dar \u00c3\u00a0 luz o seu sexto filho no Hospital Geral de Abobo em Abidjan, a capital comercial da Costa do Marfim. <!--more--> Desde que eclodiu a viol&ecirc;ncia depois das elei&ccedil;&otilde;es no pa\u00c3\u00ads em Novembro de 2010, quando o antigo Presidente Laurent Gbagbo se recusou a ceder o poder ao seu sucessor. Alassane Ouattara, levando \u00c3\u00a0 paraliza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e pol\u00c3\u00adtica da Costa do Marfim durante seis meses, o marido de Moussa, carpinteiro, perdeu o seu emprego e tem tido dificuldade em encontrar um novo trabalho. <\/p>\n<p>A fam\u00c3\u00adlia sobrevive com dificuldade com o dinheiro que Ibrahim ganha com biscates ocasionais. Mas, apesar da dif\u00c3\u00adcil situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica, Ibrahim recusa-se a aceitar o planeamento familiar. <\/p>\n<p>&quot;O meu marido n&atilde;o quer usar preservativos. Diz que s&atilde;o contra a natureza. E n&atilde;o me atrevo a tomar p\u00c3\u00adlulas anticoncepcionais porque tenho medo que ele venha a descobrir,&quot;\u009d explica Moussa. <\/p>\n<p>Quando lhe perguntam se sabe quais s&atilde;o os seus direitos em termos de sa&uacute;de reprodutiva e sexual, a mulher abana a cabe&ccedil;a. &quot;Como chefe da fam\u00c3\u00ad\u00c3\u00adlia &eacute; o meu marido que toma as decis&otilde;es sobre a sa&uacute;de da fam\u00c3\u00adlia,&quot;\u009d explica. Isso inclui o seu corpo, acrescenta. <\/p>\n<p>Moussa n&atilde;o conhece a op&ccedil;&atilde;o que lhe d&aacute; a possibilidade de injectar os contraceptivos uma vez por m&ecirc;s, se o desejar, e que pode faz&ecirc;-lo sem o consentimento do marido. Tamb&eacute;m n&atilde;o sabe como ter acesso a este tipo de servi&ccedil;os de sa&uacute;de porque n&atilde;o existe um servi&ccedil;o de planeamento familiar no hospital ou em qualquer cl\u00c3\u00adnica p&uacute;blica em Abobo, o maior bairro de lata de Abidjan, com uma popula&ccedil;&atilde;o estimada em um milh&atilde;o de pessoas. <\/p>\n<p>De facto, a capital comercial da Costa do Marfim, que conta com pelo menos cinco milh&otilde;es de pessoas, s&oacute; tem uma cl\u00c3\u00adnica que oferece planeamento familiar gratuito. Est&aacute; localizada nas instala&ccedil;&otilde;es do hospital p&uacute;blico em Yopougon, um dos maiores bairros de Abidjan, a 15 quil&oacute;metros de Abobo, e &eacute; dirigida pela organiza&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de n&atilde;o-governamental Associa&ccedil;&atilde;o para o Bem-Estar Familiar da Costa do Marfim (AIBEF).<\/p>\n<p>Aqui, o pessoal oferece aconselhamento a 80 pacientes por dia sobre assuntos relacionados com os direitos reprodutivos e sexuais, inclu\u00c3\u00adndo contracep&ccedil;&atilde;o, sexo seguro, VIH e outras infecc&ccedil;&otilde;es sexualmente transmiss\u00c3\u00adveis, gravidez em adolescentes, e sa&uacute;de materno-infantil. A cl\u00c3\u00adnica tamb&eacute;m dirige programas no terreno atrav&eacute;s de uma cl\u00c3\u00adnica m&oacute;vel que visa promover a sensibiliza&ccedil;&atilde;o sobre os servi&ccedil;os que presta. <\/p>\n<p>&quot;O nosso obst&aacute;culo principal &eacute; ultrapassar a percep&ccedil;&atilde;o cultural e patriarcal que dita que o homem toma todas as decis&otilde;es em casa. Mas, ao mesmo tempo, os homens dizem que &eacute; a mulher que deve ser respons&aacute;vel por tomar conta das crian&ccedil;as e da sua sa&uacute;de, incluindo a sua pr&oacute;pria gravidez, parto e cuidados p&oacute;s-natais,&quot;\u009d explica a Dr\u00c2\u00aa. Nathalie Yao-N&quot;\u2122Dry, gestora de programas na cl\u00c3\u00adnica.<\/p>\n<p>&quot;Quando efectivamente as mulheres n&atilde;o podem tomar decis&otilde;es sobre como ter acesso aos servi&ccedil;os de sa&uacute;de sem a autoriza&ccedil;&atilde;o dos maridos, isso &eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o perigosa.&quot;\u009d<\/p>\n<p>Muitas mulheres partilham a experi&ecirc;ncia de Moussa na Costa do Marfim, um pa\u00c3\u00ads da \u00c3\u0081frica Ocidental onde o planeamento familiar &eacute; geralmente encarado como uma &quot;quest&atilde;o feminina&quot;\u009d e n&atilde;o uma quest&atilde;o com a qual os maridos se devem preocupar. Em consequ&ecirc;ncia, muitos poucos homens recorrem ao pequeno n&uacute;mero de servi&ccedil;os p&uacute;blicos oferecidos, enquanto que as mulheres continuam a lutar para poderem exercer os seus direitos reprodutivos e sexuais. <\/p>\n<p>A AIBEF est&aacute; a tentar mudar esta situa&ccedil;&atilde;o lentamente. &quot;Quando o homen fica doente e procura os servi&ccedil;os de sa&uacute;de geral no hospital, tentamos tamb&eacute;m recomendar-lhes os servi&ccedil;os de planeamento familiar. Mas &eacute; muito dif\u00c3\u00adcil fazer com que os homens se interessem,&quot;\u009d afirma Yao-N&quot;\u2122Dry.<\/p>\n<p>O outro obst&aacute;culo &eacute; a disponibilidade dos servi&ccedil;os. Embora a AIBEF porfie por conseguir que os homens aceitem o conceito de planeamento familiar, a maior parte das outras instala&ccedil;&otilde;es de servi&ccedil;os de sa&uacute;de p&uacute;blica no pa\u00c3\u00ads nem sequer oferece esse servi&ccedil;o. Uma das raz&otilde;es &eacute; que o governo ainda n&atilde;o fez nenhuma dota&ccedil;&atilde;o espec\u00c3\u00adfica para o planeamento familiar no j&aacute; reduzido or&ccedil;amento nacional para a sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Apenas 4.5 por cento do or&ccedil;amento do pa\u00c3\u00ads &eacute; encaminhado para a sa&uacute;de, apesar do facto da Costa do Marfim ser um dos pa\u00c3\u00adses da Uni&atilde;o Africana que se comprometeu, atrav&eacute;s da Declara&ccedil;&atilde;o de Abuja de 2001, a gastar pelo menos 15 por cento do seu or&ccedil;amento nacional nos servi&ccedil;os de sa&uacute;de.<\/p>\n<p>&quot;As instala&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de em todo o pa\u00c3\u00ads n&atilde;o t&ecirc;m verbas, trabalhadores de sa&uacute;de qualificados e recursos,&quot;\u009d lamenta Germaine Moket, Directora dos Servi&ccedil;os M&eacute;dicos da filial local da Federa&ccedil;&atilde;o Internacional para o Planeamento Familiar, uma organiza&ccedil;&atilde;o internacional que presta assist&ecirc;ncia a n\u00c3\u00advel de servi&ccedil;os de sa&uacute;de reprodutiva e planeamento familiar em mais de 180 pa\u00c3\u00adses em todo o mundo. <\/p>\n<p>&quot;Em resultado, a maior parte dos centros de servi&ccedil;os de sa&uacute;de p&uacute;blica no pa\u00c3\u00ads n&atilde;o tem contraceptivos de reserva, pelo menos com regularidade,&quot;\u009d explica. &quot;E mesmo se os tiverem, vendem-nos a pre&ccedil;os que a maioria da popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode comprar porque esses medicamentos n&atilde;o s&atilde;o gratuitos.&quot;\u009d <\/p>\n<p>Nos 10 meses desde que a Costa do Marfim tenta recuperar da sua violenta crise p&oacute;s-eleitoral, o novo governo do pa\u00c3\u00ads implementou uma s&eacute;rie de medids para melhorar os servi&ccedil;os de sa&uacute;de no pa\u00c3\u00ads.<\/p>\n<p>Quando Ouattara subiu ao poder em Maio de 2011, autorizou o acesso gratuito aos servi&ccedil;os de sa&uacute;de em todo o pa\u00c3\u00ads para ajudar a popula&ccedil;&atilde;o a recuperar dos efeitos da viol&ecirc;ncia p&oacute;s-eleitoral. Desde 1 de Mar&ccedil;o que este esquema se tem limitado a oferecer servi&ccedil;os gratuitos para mulheres gr&aacute;vidas, crian&ccedil;as com idades inferiores a cinco anos e doentes com mal&aacute;ria. <\/p>\n<p>&quot;A sa&uacute;de materno-infantil &eacute; uma prioridade do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de que importa abordar urgentemente,&quot;\u009d afirmou o Professor Allou Assa, porta-voz ministerial para o Departamento de Sa&uacute;de. Mas os servi&ccedil;os de sa&uacute;de reprodutiva e sexual, que s&atilde;o de natureza preventiva e n&atilde;o terap&ecirc;utica, actualmente n&atilde;o fazem parte do pacote gratuito.<\/p>\n<p>Isso significa que mulheres como Bintou Moussa continuam a ter poucas op&ccedil;&otilde;es. Dentro de poucos dias, vai regressar com o seu beb&eacute; \u00c3\u00a0 sua pequena barraca, sabendo muito bem que pode ficar novamente gr&aacute;vida. &quot;Temos dificuldades para criar cinco filhos. Agora vamos ter mais uma boca para alimentar. Na verdade n&atilde;o sei como vou conseguir aguentar mais uma gravidez,&quot;\u009d afirma Moussa. <\/p>\n<p>*Nome alterado para proteger a identidade da entrevistada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ABIDJAN, 03\/04\/2012 &ndash; &quot;Gostaria de usar meios contraceptivos, mas o meu marido op&otilde;e-se,&quot;\u009d afirma Bintou Moussa*. 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