{"id":9712,"date":"2012-04-03T07:56:04","date_gmt":"2012-04-03T07:56:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9712"},"modified":"2012-04-03T07:56:04","modified_gmt":"2012-04-03T07:56:04","slug":"o-oeirento-rio-limpopo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/04\/africa\/o-oeirento-rio-limpopo\/","title":{"rendered":"O oeirento Rio Limpopo"},"content":{"rendered":"<p>Beitbridge, Zimbabu\u00c3\u00a9, 03\/04\/2012 &ndash; Chapita Ramovha lembra-se do tempo em que o Rio Limpopo chegava ao p&eacute; da sua aldeia no sul do Zimbabu&eacute;. <!--more--> Diz que nessa altura os residentes da aldeia de Makakavhule tinham de construir muros altos para proteger as casas das cheias. &quot;Era maravilhoso observar o rio Limpopo, era uma beleza natural, uma fonte de alimento e de rendimento para n&oacute;s que viv\u00c3\u00adamos nas suas margens,&quot;\u009d explicou este agricultor de subsist&ecirc;ncia.       <\/p>\n<p>Mas agora, quando olha para a paisagem, v&ecirc; apenas um planato vasto e arenoso desprovido de vida natural. &quot;Poeira,&quot;\u009d lamenta Ramovha, que vive nesta &aacute;rea desde 1942. &quot;N&atilde;o &eacute; nada mais do que um rio de poeira.&quot;\u009d <\/p>\n<p>Anteriormente, a agricultura e o turismo prosperavam nesta regi&atilde;o ao longo the Rio Limpopo. A zona era bem conhecida pelos seus belos lagos e vastos campos, que produziam produtos agr\u00c3\u00adcolas locais. &quot;Mas esse meio de vida est&aacute; agora a ser amea&ccedil;ado por uma grave escassez de &aacute;gua que ilustra de forma dram&aacute;tica uma crise regional generalizada,&quot;\u009d afirma Ramovha. <\/p>\n<p>A Bacia do Rio Limpopo &eacute; uma das &aacute;reas onde existe mais press&atilde;o sobre a &aacute;gua e, de acordo com a Organiza&ccedil;&atilde;o da Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Agricultura e Alimenta&ccedil;&atilde;o, ocorrem sempre na bacia secas extremas cada 10 ou 20 anos. <\/p>\n<p>A bacia tem uma zona de capta&ccedil;&atilde;o de cerca de 413.000 km\u00c2\u00b2 que cobre quatro pa\u00c3\u00adses &quot;\u201c Botsuana, Mo&ccedil;ambique, \u00c3\u0081frica do Sul e Zimbabu&eacute; &quot;\u201c afectando uma popula&ccedil;&atilde;o total de 14 milh&otilde;es de pessoas, a maior parte das quais s&atilde;o agricultores de subsist&ecirc;ncia. Cerca de 244.000 hectares est&atilde;o sob irriga&ccedil;&atilde;o e perto de 234.000 hectares s&atilde;o usados para a produ&ccedil;&atilde;o de colheitas, enquanto que outros 1.7 milh&otilde;es de hectares s&atilde;o usados para pastagens. <\/p>\n<p>Por&eacute;m, devido \u00c3\u00a0 m&aacute; gest&atilde;o ambiental, s&oacute; cepos de &aacute;rvores descarnadas marcam as margens do rio. As pessoas abateram as &aacute;rvores que anteriormente criavam enseadas irregulares ao longo do rio, que sempre acolheu caranguejos, peixes e animais selvagens. <\/p>\n<p>&quot;Mas nos poucos pontos de &aacute;gua desta parte do rio dificilmente se consegue apanhar uma r&atilde;. O rio desapareceu e o assoreamento ocupou toda a zona. As chuvas n&atilde;o s&atilde;o fi&aacute;veis. Chegam tarde e por vezes n&atilde;o chegam a cair,&quot;\u009d conta Ramovha. <\/p>\n<p>Diz ainda que as temperaturas di&aacute;rias aumentaram substancialmente na regi&atilde;o e fizeram desaparecer muitas das verdes pastagens outrora luxuriantes da bacia, privando o gado e os animais selvagens do seu alimento natural e do seu habitat. <\/p>\n<p>Timothy Chauke, agricultor e assistente de campo contratado junto do Conselho da Investiga&ccedil;&atilde;o Agr\u00c3\u00adcola do projecto da Bacia do Limpopo orientado para a recolha de dados, afirma que a seca se tornou a quest&atilde;o ambiental mais comum e devastadora de todas as que afectam a bacia. <\/p>\n<p>Chauke, criador de gado e agricultor, acrescenta que o impacto se est&aacute; a fazer sentir a n\u00c3\u00advel econ&oacute;mico, social e ambiental. <\/p>\n<p>&quot;As chuvas irregulares e inst&aacute;veis querem dizer que a &eacute;poca chuvosa muitas vezes n&atilde;o come&ccedil;a quando se espera e pode ser pontual, visto que a chuva que devia cair durante toda uma temporada ocorre em poucos dias.&quot;\u009d<\/p>\n<p>Chauke diz que nos &uacute;ltimos anos se tem verificado uma redu&ccedil;&atilde;o da qualidade das pastagens e da produ&ccedil;&atilde;o agr\u00c3\u00adcola, causando um decl\u00c3\u00adnio da qualidade de vida e dos rendimentos. <\/p>\n<p>&quot;A inseguran&ccedil;a alimentar &eacute; agora elevada. Os casos de subnutri&ccedil;&atilde;o e fome est&atilde;o a aumentar. A produtividade na minha explora&ccedil;&atilde;o agr\u00c3\u00adcola desceu de cinco toneladas de milho por hectare para menos de tr&ecirc;s. O nosso ambiente natural foi destru\u00c3\u00addo e isso est&aacute; a afectar a produtividade,&quot;\u009d conta Chauke. Adianta que o custo dos insumos tamb&eacute;m aumentou ao longo dos anos. <\/p>\n<p>A maioria dos agricultores entrevistados pela IPS ao longo do Rio Limpopo diz que os n\u00c3\u00adveis da &aacute;gua baixaram drasticamente em resultado da subida das temperaturas di&aacute;rias. <\/p>\n<p>Numa altura em que deve ser a &eacute;poca de chuvas, a seca est&aacute; a matar as colheitas. A resultante poeira e as tempestades de areia aumentaram a eros&atilde;o do solo e a polui&ccedil;&atilde;o do ar, ao mesmo tempo que a produtividade do solo decresceu. <\/p>\n<p>&quot;Estamos perante uma realidade marcada por solos pobres e recursos h\u00c3\u00addricos limitados. A maior parte dos rios que alimentam o Limpopo tem &aacute;gua s&oacute; durante curtos per\u00c3\u00adodos de tempo durante o ano,&quot;\u009d assevera Chauke. <\/p>\n<p>A polui&ccedil;&atilde;o e a competi&ccedil;&atilde;o pela &aacute;gua nas &aacute;reas ao longo do rio criam uma press&atilde;o significativa sobre os recursos dispon\u00c3\u00adveis. A pobreza &eacute; generalizada e as pessoas est&atilde;o extremamente vulner&aacute;veis aos efeitos da seca ou da quebra da produ&ccedil;&atilde;o agr\u00c3\u00adcola. Cada um dos 24 afluentes que alimentam a bacia tem comunidades com um rendimento anual per capita inferior a 200 d&oacute;lares.<\/p>\n<p>A fome e a subnutri&ccedil;&atilde;o tornaram-se ocorr&ecirc;ncias comuns. Actualmente, cerca de um milh&atilde;o de pessoas na bacia est&aacute; dependente de ajuda alimentar. <\/p>\n<p>Ao dirigir-se ao Terceiro F&oacute;rum Internacional Sobre Recursos H\u00c3\u00addricos e Alimenta&ccedil;&atilde;o em Dezembro na \u00c3\u0081frica do Sul, o Dr. Simon Cook, cientista junto do Centro Internacional de Agricultura Tropical e director do Programa Challenge da CIGAR para os Recursos H\u00c3\u00addricos e Alimenta&ccedil;&atilde;o (CPWF) dos Projectos Fulcrais da Bacia, afirmou que se prev&ecirc; que as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas exacerbem as dificuldades em \u00c3\u0081frica com respeito aos escassos recursos h\u00c3\u00addricos e \u00c3\u00a0 a seguran&ccedil;a alimentar.<\/p>\n<p>Segundo Cook, a investiga&ccedil;&atilde;o confirma a previs&atilde;o que a subida das temperaturas mundiais vai aumentar as cheias nalgumas &aacute;reas, causar um decl\u00c3\u00adnio na produ&ccedil;&atilde;o agr\u00c3\u00adcola, amea&ccedil;ar a biodiversidade e produtividade dos recursos naturais, aumentar o leque de doen&ccedil;as transmitidas por vectores e pela &aacute;gua, e agravar a desertifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como parte de um projecto de investiga&ccedil;&atilde;o mundial com a dura&ccedil;&atilde;o de cinco anos, os cientistas do CPWF examinaram os efeitos potenciais das temperaturas mais elevadas e da mudan&ccedil;a dos padr&otilde;es de precipita&ccedil;&atilde;o causados pelas altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas nas cinco bacias hidrogr&aacute;ficas do continente, entre outras. Durante este processo, surgiram alguns cen&aacute;rios preocupantes nalgumas regi&otilde;es africanas.<\/p>\n<p>Durante uma entrevista telef&oacute;nica \u00c3\u00a0 IPS, Cook afirmou que as preocupa&ccedil;&otilde;es se centravam nas mudan&ccedil;as previstas na Bacia do Limpopo, que incluem a subida das temperaturas e o decl\u00c3\u00adnio da precipita&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Cook disse ainda ser necess&aacute;rio que os investigadores se interroguem se as presentes estrat&eacute;gias de desenvolvimento agr\u00c3\u00adcola no Limpopo, que se baseiam nos actuais n\u00c3\u00adveis de disponibilidade de &aacute;gua, s&atilde;o de facto uma realidade num futuro que pode apresentar novos desafios e diferentes oportunidades. <\/p>\n<p>Num recente comunicado de imprensa, o Director do Programa dos Recursos H\u00c3\u00addricos e Alimenta&ccedil;&atilde;o do CPWF, Alain Vidal, afirmou que novos conhecimentos sobre o impacto das altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas nas bacias hidrogr&aacute;ficas podiam indicar a necessidade de reexaminar os pressupostos acerca da disponibilidade da &aacute;gua. <\/p>\n<p>Vidal afirmou que o Rio Limpopo, tal como acontece em muitos rios em todo o mundo, &eacute; fortemente afectado pelas temperaturas mundiais mais elevadas. <\/p>\n<p>&quot;Nalgumas partes do Limpopo, mesmo a adop&ccedil;&atilde;o generalizada de inova&ccedil;&otilde;es como a irriga&ccedil;&atilde;o por gotejamento poder&aacute; n&atilde;o ser suficiente para ultrapassar os efeitos negativos das altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas sobre a disponibilidade de &aacute;gua,&quot;\u009d acrescentou Vidal.<\/p>\n<p>&quot;Mas noutras regi&otilde;es, os investimentos feitos na agricultura alimentada pela chuvas, como a recolha de &aacute;guas pluviais, sabreiras e pequenos reservat&oacute;rios podem constituir uma solu&ccedil;&atilde;o mais eficaz, visto que pode haver chuvas suficientes para que estrat&eacute;gias inovadoras aumentem a produ&ccedil;&atilde;o. O importante &eacute; obter a informa&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para tomar uma decis&atilde;o informada.&quot;\u009d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beitbridge, Zimbabu\u00c3\u00a9, 03\/04\/2012 &ndash; Chapita Ramovha lembra-se do tempo em que o Rio Limpopo chegava ao p&eacute; da sua aldeia no sul do Zimbabu&eacute;. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/04\/africa\/o-oeirento-rio-limpopo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":588,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-9712","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/588"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9712\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}