{"id":9828,"date":"2012-04-25T08:58:16","date_gmt":"2012-04-25T08:58:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9828"},"modified":"2012-04-25T08:58:16","modified_gmt":"2012-04-25T08:58:16","slug":"espanha-a-lua-de-mel-e-a-lua-de-fel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/04\/politica\/espanha-a-lua-de-mel-e-a-lua-de-fel\/","title":{"rendered":"ESPANHA: A lua de mel e a lua de fel"},"content":{"rendered":"<p>Madri, 25\/04\/2012 &ndash; O governo presidido pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy desde 21 de dezembro parece querer demonstrar, mediante um fren&eacute;tico exerc&iacute;cio do poder, a falta de resultados tang&iacute;veis e imediatos, capacidade de decis&atilde;o. <!--more--> Contudo, a realidade &eacute; que continuamos imersos em uma crise que se agrava, que sabemos como come&ccedil;ou, mas n&atilde;o sabemos como nem quando terminar&aacute;.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, a situa&ccedil;&atilde;o de Rajoy se parece cada vez mais com a angustiosamente vivida por seu antecessor socialista Jos&eacute; Luis Rodr&iacute;guez Zapatero, quando n&atilde;o teve outra op&ccedil;&atilde;o a n&atilde;o ser sacrificar seus interesses eleitorais &agrave;s medidas impopulares impostas por Bruxelas e pelo Banco Central Europeu.<\/p>\n<p>Agora, como antes, a obsess&atilde;o do governante &eacute; evitar que a economia espanhola chegue a sofrer interven&ccedil;&atilde;o. E, como antes, as decis&otilde;es do atual governo para evitar essa amea&ccedil;a come&ccedil;am a causar rachas inclusive em seu pr&oacute;prio eleitorado. Assim ocorreu em Andaluzia e Ast&uacute;rias, apesar de o ajuste mais duro ter ocorrido ap&oacute;s as elei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Fora da Espanha j&aacute; se fala na possibilidade de uma interven&ccedil;&atilde;o da economia espanhola. &Eacute; uma grande amea&ccedil;a, e evit&aacute;-la condiciona todas as decis&otilde;es do governo porque significaria que aquilo que Zapatero conseguiu evitar o governo da &quot;mudan&ccedil;a&quot; n&atilde;o pode impedir.<\/p>\n<p>N&atilde;o causa estranheza a muitos eleitores do governante Partido Popular (PP) a pol&iacute;tica desenvolvida por Rajoy parecer uma continua&ccedil;&atilde;o da empreendida por Zapatero a partir do ajuste draconiano de maio de 2010, que o PP n&atilde;o apoiou.<\/p>\n<p>Rajoy tem acesas uma vela para Bruxelas e outra para os eleitores, mas como com Bruxelas e os mercados h&aacute; pouca elasticidade, &eacute; claro que o peso da carga de quantos ajustes forem &quot;necess&aacute;rios&quot; agora e no futuro recair&aacute; sobre os cidad&atilde;os, sabendo que isso traz consigo um custo pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>Nesse sentido, explica-se que o conjunto de declara&ccedil;&otilde;es do primeiro-ministro e de seus ministros se caracterizarem por sinais bem definidos: dramatiza&ccedil;&atilde;o, culpa sobre a heran&ccedil;a recebida, nega&ccedil;&atilde;o de toda alternativa, pretendida justi&ccedil;a e equidade das medidas adotadas, autossatisfa&ccedil;&atilde;o e car&ecirc;ncia de autocr&iacute;tica.<\/p>\n<p>Disse, por exemplo: &quot;Estes s&atilde;o alguns or&ccedil;amentos duros, dolorosos, fazemos coisas que ningu&eacute;m gosta. Por&eacute;m, &eacute; o que h&aacute; para ser feito a fim de corrigir os erros do passado. N&atilde;o toca fazer em dois anos o que n&atilde;o foi feito em oito&quot;.<\/p>\n<p>Outra ideia mestre &eacute; a prioridade absoluta dada ao cumprimento do objetivo de d&eacute;ficit de 5,3%. Rajoy &eacute; terminante: &quot;Isto &eacute; uma prioridade. Jogamos o futuro do nosso pa&iacute;s, e quem n&atilde;o entende assim n&atilde;o significa que n&atilde;o tenha um problema, mas cria um problema para os demais espanh&oacute;is&quot;.<\/p>\n<p>A dramatiza&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o fazendo da necessidade virtude permite adotar um ar de hero&iacute;smo tenaz e tem como poss&iacute;vel explica&ccedil;&atilde;o justificar as duras medidas de ajuste e o descumprimento de promessas eleitorais b&aacute;sicas. Pode servir para criar resigna&ccedil;&atilde;o durante um tempo, mas o resultado final n&atilde;o pode ser outro que n&atilde;o a desmoraliza&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica do pa&iacute;s, a frustra&ccedil;&atilde;o e, no longo prazo, a rebeldia.<\/p>\n<p>Que o governo ainda se refugie na heran&ccedil;a recebida &eacute; de duvidosa efic&aacute;cia como autodesculpa. A esta altura, as pol&iacute;ticas do governo atual contra&iacute;ram uma cota de responsabilidade pr&oacute;pria. Os cidad&atilde;os percebem que o governo &quot;da mudan&ccedil;a&quot; e de tantas expectativas n&atilde;o atendidas, cada vez que se apresenta &eacute; para anunciar cortes e ajustes que geram novos ajustes e cortes.<\/p>\n<p>Por outro lado, a invoca&ccedil;&atilde;o do exemplo, da igualdade e da justi&ccedil;a acaba questionada quando diariamente conhecemos casos de nepotismos e desperd&iacute;cios. E que se invoque a justi&ccedil;a quando a decis&atilde;o por uma anistia fiscal resultar no m&iacute;nimo contradit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Os objetivos econ&ocirc;micos da anistia est&atilde;o claros: ingressar 2,5 bilh&otilde;es de euros este ano (e gerar futuras rendas) e introduzir no sistema 25 bilh&otilde;es de dinheiro oculto para ajudar na recupera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p>As cr&iacute;ticas que podem ser feitas &agrave; anistia fiscal s&atilde;o principalmente duas. A primeira &eacute; que uma paulada no exemplo e na igualdade que o governo apregoa e que s&atilde;o necess&aacute;rias para conter o mal-estar social. E a segunda &eacute; o efeito negativo que ter&aacute; na luta contra a corrup&ccedil;&atilde;o, um dos grandes problemas de fundo do pa&iacute;s e sobre cuja rela&ccedil;&atilde;o com a crise econ&ocirc;mica nunca se deve deixar de insistir.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixa de ser paradoxal o governo anunciar um plano contra a fraude fiscal para depois da anistia, o que s&oacute; se explica pelo desejo de reduzir a indigna&ccedil;&atilde;o que a impunidade concedida provoca inclusive entre os eleitores do PP.<\/p>\n<p>Outra marca do discurso de Rajoy &eacute; a justificativa dos sacrif&iacute;cios atuais pela promessa de um futuro melhor. &quot;Sabemos o que fazemos. Temos um plano. Esse ano ser&aacute; dif&iacute;cil, mas teremos assentado as bases da recupera&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>A grande quest&atilde;o &eacute; se as pol&iacute;ticas adotadas pela Uni&atilde;o Europeia e secundadas por Madri s&atilde;o suficientes e adequadas para gerar um m&iacute;nimo de crescimento no m&eacute;dio prazo. De forma complementar, a pergunta capital &eacute; se a velocidade da deteriora&ccedil;&atilde;o do PP ser&aacute; maior ou menor do que a da recupera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica pregada pelo governo. A&iacute; est&aacute; o desafio de Rajoy.<\/p>\n<p>&Eacute; uma luta contra o tempo: o que acontecer&aacute; antes, a indigna&ccedil;&atilde;o dos cidad&atilde;os ou a vis&atilde;o dos primeiros brotos verdes? A resposta, dentro de um ano e meio ou, na velocidade dos acontecimentos, antes.<\/p>\n<p>Se n&atilde;o surgir ent&atilde;o a luz no fim do t&uacute;nel, os cidad&atilde;os concluir&atilde;o que tantos sacrif&iacute;cios acumulados n&atilde;o serviram para nada. E ent&atilde;o ser&aacute; pouco prov&aacute;vel que os cidad&atilde;os desencantados se voltem a favor dos socialistas, cuja recupera&ccedil;&atilde;o ser&aacute; lenta. Talvez fique como &uacute;nica alternativa alguma forma de consenso &agrave; italiana, isto &eacute;, uma solu&ccedil;&atilde;o Monti. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Guillermo Medina, jornalista e escritor, ex-diretor do jornal YA, ex-deputado e ex-presidente da Comiss&atilde;o de Defesa do Congresso espanhol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, 25\/04\/2012 &ndash; O governo presidido pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy desde 21 de dezembro parece querer demonstrar, mediante um fren&eacute;tico exerc&iacute;cio do poder, a falta de resultados tang&iacute;veis e imediatos, capacidade de decis&atilde;o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/04\/politica\/espanha-a-lua-de-mel-e-a-lua-de-fel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1368,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,11],"tags":[18],"class_list":["post-9828","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9828","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1368"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9828"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9828\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9828"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9828"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9828"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}