{"id":9876,"date":"2012-05-04T11:09:48","date_gmt":"2012-05-04T11:09:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9876"},"modified":"2012-05-04T11:09:48","modified_gmt":"2012-05-04T11:09:48","slug":"brasil-obstetrcia-moderna-e-parteiras-aliana-necessria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/05\/america-latina\/brasil-obstetrcia-moderna-e-parteiras-aliana-necessria\/","title":{"rendered":"BRASIL: Obstetr&iacute;cia moderna e parteiras, alian&ccedil;a necess&aacute;ria"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 04\/05\/2012 &ndash; Maria dos Prazeres de Souza perdeu a conta do n&uacute;mero de nascimentos &quot;sem nenhuma morte&quot; que atendeu como parteira, of&iacute;cio que atualmente se busca resgatar nas comunidades tradicionais do Brasil, onde o Estado n&atilde;o chega ou que sua a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; de todo compreendida culturalmente. <!--more--> Souza tem 74 anos e conta que at&eacute; 2008 fez mil partos, tanto em Jaboat&atilde;o dos Guararapes, onde mora, quanto no restante do Estado de Pernambuco e em outros vizinhos do Nordeste.<\/p>\n<p>Embora reconhe&ccedil;a a dor da mulher sempre que d&aacute; &agrave; luz, ainda continua se surpreendendo pela mudan&ccedil;a da express&atilde;o do choro para o prazer. &quot;A mulher em trabalho de parto sente dor, mas quando o beb&ecirc; nasce sorri e chora de alegria&quot;, contou &agrave; IPS, ao recordar todas as l&aacute;grimas que ela mesma derramou na emo&ccedil;&atilde;o de cada nascimento.<\/p>\n<p>Esta parteira de origem ind&iacute;gena aprendeu o of&iacute;cio por heran&ccedil;a cultural. Sua m&atilde;e, a av&oacute; e a bisav&oacute; transmitiram a ela, desde crian&ccedil;a, esse conhecimento e a pr&aacute;tica. &quot;No come&ccedil;o fazia partos de gatos, c&atilde;es e outros animais, mas depois comecei a ajudar mulheres em suas casas&quot;, recordou. Mais tarde, fez um curso de enfermagem obst&eacute;trica e trabalhou em hospitais durante 20 anos. Agora, aposentada, continua atendendo partos em domic&iacute;lio, &agrave;s vezes &quot;apenas por um abra&ccedil;o em troca&quot;, como muitas de suas colegas que trazem vidas nos rinc&otilde;es mais miser&aacute;veis do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o se pode negar que as tecnologias e pr&aacute;ticas do modelo oficial de sa&uacute;de trouxeram grandes avan&ccedil;os, mas devemos nos esfor&ccedil;ar para associar e conseguir um equil&iacute;brio entre o tradicional e o biom&eacute;dico se quisermos garantir a sa&uacute;de da m&atilde;e e da crian&ccedil;a, n&atilde;o apenas f&iacute;sica, mas mental e espiritualmente&quot;, disse Paula Viana, coordenadora do Programa de Parteiras do Grupo Curumim, em Pernambuco. Por seu conhecimento e sua experi&ecirc;ncia, as parteiras deveriam ser integradas e n&atilde;o exclu&iacute;das do sistema de sa&uacute;de, afirmou &agrave; IPS.<\/p>\n<p>Este programa do Grupo Curumim demonstrou, entre outros benef&iacute;cios, que as parteiras tradicionais contribuem para avaliar mais precocemente problemas da gravidez e que, como l&iacute;deres naturais, ajudam em casos de mulheres violadas ou em campanhas de vacina&ccedil;&atilde;o ou preven&ccedil;&atilde;o da aids. Seu trabalho ajudou no constatado aumento das consultas pr&eacute;-natais nos servi&ccedil;os p&uacute;blicos, bem como em pr&aacute;ticas saud&aacute;veis, como amamenta&ccedil;&atilde;o materna, e em a&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas leves, como massagens, banhos e conten&ccedil;&atilde;o afetiva.<\/p>\n<p>O Grupo Curumim, por ocasi&atilde;o do Dia Internacional da Parteira, amanh&atilde;, realizar&aacute; uma campanha para valorizar o of&iacute;cio das parteiras tradicionais entre os ind&iacute;genas e em quilombolas, comunidades de habitantes dos antigos quilombos ou ref&uacute;gios de escravos negros. A campanha tamb&eacute;m pedir&aacute; o reconhecimento do nascimento em domic&iacute;lio assistido por parteiras tradicionais no Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS) e seu reconhecimento como &quot;patrim&ocirc;nio imaterial&quot;. Para Viana, &quot;as parteiras tradicionais s&atilde;o o elo entre a comunidade e os servi&ccedil;os de sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Em muitos lugares onde n&atilde;o h&aacute; m&eacute;dicos, s&atilde;o elas que atendem a popula&ccedil;&atilde;o em geral, e outras vezes s&atilde;o a &uacute;nica liga&ccedil;&atilde;o para levar um doente a hospitais ou postos sanit&aacute;rios de cidades pr&oacute;ximas&quot;. Souza conhece muito bem esse isolamento de muitas comunidades rurais, da selva ou ribeirinhas. J&aacute; atendeu um parto no primeiro andar de uma casa ainda em constru&ccedil;&atilde;o, sem ainda ter escada, precisando subir por uma corda improvisada por dois policiais. &quot;Depois do parto foi um trabalh&atilde;o descer sozinha, porque um policial carregava o beb&ecirc; e o outro a m&atilde;e&quot;, contou.<\/p>\n<p>Dados do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de mostram que cerca de 41 mil mulheres d&atilde;o &agrave; luz anualmente em suas casas no Brasil, a maioria assistida por parteiras tradicionais. Contudo, as autoridades admitem que esse n&uacute;mero pode ser maior. Apesar de oficialmente esse tipo de parto ser considerado dentro da promo&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas e projetos de sa&uacute;de, &quot;a realidade &eacute; que na maioria das vezes ocorrem em situa&ccedil;&atilde;o de exclus&atilde;o e isolamento, e desarticulados do SUS&quot;, observou Viana.<\/p>\n<p>Embora as parteiras &quot;possam ensinar, mais do que aprender&quot;, como qualquer profissional de sa&uacute;de devem ser capacitadas e contar com material adequado de transporte para urg&ecirc;ncias, destacou Viana. Souza acrescentou que muitas de suas colegas no pa&iacute;s n&atilde;o t&ecirc;m direitos trabalhistas nem s&atilde;o reconhecidas por seu trabalho. &quot;O governo tem que se preocupar com este assunto, principalmente em um pa&iacute;s em que tivemos at&eacute; um presidente que nasceu em casa com parteira&quot;, enfatizou, referindo-se ao ex-presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva (2003-2011), origin&aacute;rio do Nordeste.<\/p>\n<p>Viana enfatizou que &quot;o risco &eacute; inerente ao processo obst&eacute;trico, independente de o parto ser na casa da m&atilde;e ou no hospital&quot;. No entanto, o perigo de uma complica&ccedil;&atilde;o grave de sa&uacute;de aumenta se &quot;a parturiente n&atilde;o tem apoio destas parteiras tradicionais&quot;, explicou. Por isso, pede para &quot;unir os dois modelos de aten&ccedil;&atilde;o, o tradicional e o biom&eacute;dico&quot;, especialmente para as comunidades isoladas. Para Souza, a gravidez &eacute; um &quot;ato ecol&oacute;gico&quot;, mas &quot;muitas mulheres colocam na cabe&ccedil;a que est&atilde;o doentes ou n&atilde;o querem sentir dor e pedem cesariana&quot;. Estat&iacute;sticas do SUS de 2008 mostram que metade dos tr&ecirc;s milh&otilde;es de nascimentos registrados nesse ano foram por meio dessa cirurgia.<\/p>\n<p>A mortalidade materna est&aacute; em franca redu&ccedil;&atilde;o no Brasil desde 1990, quando apresentava 140 casos em cada cem mil nascidos vivos, &iacute;ndice que caiu em 2010 para 68 em cem mil, e j&aacute; caminha para uma redu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. As principais causas dessas mortes s&atilde;o hipertens&atilde;o, hemorragia e infec&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-parto. Tamb&eacute;m caiu a mortalidade infantil at&eacute; chegar a 15,6 em cada mil nascidos vivos, em 2010, 47% menos do que em 2000, segundo o &uacute;ltimo Censo.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Viana acredita que para melhorar &eacute; preciso considerar a diversidade da aten&ccedil;&atilde;o obst&eacute;trica regional. &quot;Na medida em a comunidade cient&iacute;fica se esfor&ccedil;a para estabelecer o modelo biom&eacute;dico de sa&uacute;de, mais do que nunca temos que analisar as consequ&ecirc;ncias da natureza intervencionista e m&eacute;dica em excesso dessa escola de pensamento&quot;, alertou, diante da redu&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de parteiras tradicionais. &Eacute; que, como diz Souza, &quot;fomos aben&ccedil;oadas e continuamos sendo. A nossa &eacute; uma hist&oacute;ria milenar que tem de ser respeitada&quot;, ressaltou esta parteira das mais de mil vidas. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 04\/05\/2012 &ndash; Maria dos Prazeres de Souza perdeu a conta do n&uacute;mero de nascimentos &quot;sem nenhuma morte&quot; que atendeu como parteira, of&iacute;cio que atualmente se busca resgatar nas comunidades tradicionais do Brasil, onde o Estado n&atilde;o chega ou que sua a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; de todo compreendida culturalmente. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/05\/america-latina\/brasil-obstetrcia-moderna-e-parteiras-aliana-necessria\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5,7],"tags":[27,21,24],"class_list":["post-9876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-saude","tag-brasil","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9876\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}