{"id":9884,"date":"2012-05-07T09:17:44","date_gmt":"2012-05-07T09:17:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=9884"},"modified":"2012-05-07T09:17:44","modified_gmt":"2012-05-07T09:17:44","slug":"eeuu-afeganisto-o-pacto-que-nada-mudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/05\/direitos-humanos\/eeuu-afeganisto-o-pacto-que-nada-mudar\/","title":{"rendered":"EEUU-AFEGANIST&Atilde;O: O pacto que nada mudar&aacute;"},"content":{"rendered":"<p>Washington, Estados Unidos, 07\/05\/2012 &ndash; Os acordos assinados entre Washington e Cabul s&atilde;o apresentados como o meio para o povo do Afeganist&atilde;o assumir seu pr&oacute;prio destino e os Estados Unidos porem fim &agrave; guerra que iniciaram contra esse pa&iacute;s h&aacute; quase 11 anos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_9884\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/e33-300x199.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9884\" class=\"size-medium wp-image-9884\" title=\"Presidente Barack Obama fala aos jornalistas na base a&eacute;rea de Bagram, no Afeganist&atilde;o, em 1\u00c2\u00ba de maio - Pete Souza\/Casa Blanca\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/e33-300x199.jpg\" alt=\"Presidente Barack Obama fala aos jornalistas na base a&eacute;rea de Bagram, no Afeganist&atilde;o, em 1\u00c2\u00ba de maio - Pete Souza\/Casa Blanca\" width=\"200\" height=\"132\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-9884\" class=\"wp-caption-text\">Presidente Barack Obama fala aos jornalistas na base a&eacute;rea de Bagram, no Afeganist&atilde;o, em 1\u00c2\u00ba de maio - Pete Souza\/Casa Blanca<\/p><\/div>  No entanto, uma leitura mais minuciosa sugere o contr&aacute;rio. Os dois governos assinaram uma Associa&ccedil;&atilde;o Estrat&eacute;gica Duradoura com o Afeganist&atilde;o e v&aacute;rios memorandos de entendimento.<\/p>\n<p>Entretanto, o &uacute;nico acordo substancial alcan&ccedil;ado, e bem oculto entre esses documentos, &eacute; o que autoriza as For&ccedil;as de Opera&ccedil;&otilde;es Especiais (SOF) dos Estados Unidos a continuarem suas a&ccedil;&otilde;es noturnas contra resid&ecirc;ncias particulares em territ&oacute;rio afeg&atilde;o, odiadas pela popula&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas pashtunes.<\/p>\n<p>A apresenta&ccedil;&atilde;o do acordo foi feita durante a viagem surpresa do presidente Barack Obama ao Afeganist&atilde;o, com um discurso em hor&aacute;rio nobre na televis&atilde;o e v&aacute;rias entrevistas coletivas que lhe facilitaram apresentar-se para a renhida disputa eleitoral como o mandat&aacute;rio que acabou com uma guerra muito impopular.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o presidente do Afeganist&atilde;o, Hamid Karzai, pode afirmar que conseguiu manter sob controle as a&ccedil;&otilde;es noturnas das SOF, al&eacute;m de conseguir um compromisso norte-americano de apoio econ&ocirc;mico por dez anos. Por&eacute;m, o texto real do acordo e do memorando de entendimento sobre as blitze noturnas &#8211; inclu&iacute;do no pacto mediante uma refer&ecirc;ncia &#8211; n&atilde;o p&otilde;e fim &agrave; guerra no Afeganist&atilde;o e nem d&atilde;o a Karzai o controle sobre essas a&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A not&iacute;cia real &eacute; que o governo de Obama conseguiu dissimular estes fatos. As decis&otilde;es de Obama sobre a quantidade de soldados norte-americanos que permanecer&atilde;o no Afeganist&atilde;o em 2014, e depois desse ano, e sobre a miss&atilde;o que ter&atilde;o somente ser&atilde;o tomadas em um Acordo Bilateral de Seguran&ccedil;a, que ainda n&atilde;o foi negociado.<\/p>\n<p>Embora os altos funcion&aacute;rios n&atilde;o forne&ccedil;am dados espec&iacute;ficos sobre essas negocia&ccedil;&otilde;es aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, a Associa&ccedil;&atilde;o Estrat&eacute;gica diz que se proceder&aacute; &agrave; assinatura do documento &quot;com o objetivo de conclu&iacute;-lo no prazo de um ano&quot;. Isto significa que Obama n&atilde;o tem que tomar nenhuma decis&atilde;o sobre retirada de tropas do Afeganist&atilde;o antes das elei&ccedil;&otilde;es norte-americanas deste ano, o que lhe permite enfatizar a retirada de solo afeg&atilde;o e contornar a quest&atilde;o de um compromisso militar de longo prazo.<\/p>\n<p>Segundo o texto, o Acordo Bilateral de Seguran&ccedil;a substituir&aacute; o Estatuto de For&ccedil;as, assinado em 2003 com o Afeganist&atilde;o, que dava imunidade judicial aos soldados norte-americanos e n&atilde;o impunha limita&ccedil;&otilde;es quanto ao seu envio e &agrave;s opera&ccedil;&otilde;es em territ&oacute;rio afeg&atilde;o. No m&ecirc;s passado, Washington foi obrigado a assinar o memorando de entendimento sobre opera&ccedil;&otilde;es noturnas devido &agrave;s reiteradas amea&ccedil;as de Karzai de n&atilde;o assinar a Associa&ccedil;&atilde;o Estrat&eacute;gica, a menos que Obama lhe desse o controle sobre as blitze em resid&ecirc;ncias particulares.<\/p>\n<p>A insist&ecirc;ncia de Karzai em acabar com essas a&ccedil;&otilde;es noturnas unilaterais e a deten&ccedil;&atilde;o de afeg&atilde;os atrasou por v&aacute;rios meses o acordo de Associa&ccedil;&atilde;o Estrat&eacute;gica. E desta forma o mandat&aacute;rio afeg&atilde;o entrou em conflito direto com os interesses de um dos elementos mais influentes das for&ccedil;as armadas norte-americanas: as SOF.<\/p>\n<p>Tanto sob o comando dos generais Stanley A. McChrystal, como de David Petraeus, a estrat&eacute;gia b&eacute;lica dos Estados Unidos no Afeganist&atilde;o passou a depender da suposta efetividade das blitze noturnas de unidades das SOF para enfraquecer o movimento extremista Talib&atilde;. Os oficiais do comando Central dos Estados Unidos (Centcom) negaram-se a suspender essas opera&ccedil;&otilde;es e a ceder ao governo afeg&atilde;o o controle das mesmas, como a IPS informou em fevereiro.<\/p>\n<p>As duas partes tentaram durante semanas redigir um acordo no qual Karzai pudesse dizer que cumpria sua demanda, mas que, na realidade, pouco mudaria. Ao final, Karzai teve que ceder. E o que se fez para dissimular isto leva a um novo n&iacute;vel de engenho o engano sobre o verdadeiro sentido de um acordo internacional sobre opera&ccedil;&otilde;es militares dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O memorando de entendimento foi noticiado pela m&iacute;dia como uma mudan&ccedil;a radical da conduta das opera&ccedil;&otilde;es militares. Contudo, uma leitura minuciosa do texto revela que praticamente n&atilde;o haver&aacute; altera&ccedil;&atilde;o do statu quo. O acordo foi negociado entre o comando militar norte-americano instalado em Cabul e o Minist&eacute;rio da Defesa afeg&atilde;o. Advogados das for&ccedil;as armadas dos Estados Unidos inclu&iacute;ram uma disposi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica que modifica substancialmente o significado do restante do documento.<\/p>\n<p>No primeiro par&aacute;grafo, sobre a defini&ccedil;&atilde;o dos termos, o memorando diz que as opera&ccedil;&otilde;es especiais s&atilde;o aquelas &quot;aprovadas pelo Grupo Afeg&atilde;o de Coordena&ccedil;&atilde;o de Opera&ccedil;&otilde;es e efetuadas pelas for&ccedil;as afeg&atilde;s com apoio de tropas norte-americanas de acordo com as leis afeg&atilde;s&quot;. Esta frase, que foi cuidadosamente redigida, significa que as &uacute;nicas blitze noturnas compreendidas pelo memorando s&atilde;o aquelas que o comandante das SOF decidir realizar com pr&eacute;via consulta ao governo do Afeganist&atilde;o. Assim, as realizadas sem consulta &agrave;s autoridades afeg&atilde;s ficam fora do acordo.<\/p>\n<p>A cobertura dos principais meios jornal&iacute;sticos sobre o memorando, indicando que a participa&ccedil;&atilde;o de unidades das SOF dependeria do governo afeg&atilde;o, simplesmente ignorou essa disposi&ccedil;&atilde;o. No entanto, o porta-voz do Departamento de Defesa, John Kirby, disse, no dia 9 de abril, aos jornalistas que Karzai n&atilde;o teria poder de veto sobre as blitze noturnas. &quot;N&atilde;o se trata de os Estados Unidos estarem cedendo a responsabilidade aos afeg&atilde;os&quot;, esclareceu.<\/p>\n<p>Kirby n&atilde;o disse se essas unidades das SOF que operam de forma independente seriam afetadas pelo memorando, confirmando de maneira impl&iacute;cita que o far&atilde;o. Tamb&eacute;m explicou que o acordo &quot;codifica&quot; o que vem sendo feito desde dezembro passado: as for&ccedil;as afeg&atilde;s especiais dirigem a maior parte das opera&ccedil;&otilde;es noturnas, isto &eacute;, s&atilde;o as que entram nas casas de fam&iacute;lias desse pa&iacute;s. Por&eacute;m, as for&ccedil;as dos Estados Unidos continuam capturando ou matando afeg&atilde;os nessas opera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O conflito entre a realidade e o acordado e o exposto por Washington recorda as declara&ccedil;&otilde;es de Obama em 2009 e 2010 sobre a retirada do Iraque e o fim da guerra nesse pa&iacute;s, quando as unidades de combate permaneceram ativas muito depois de 1&ordm; de setembro de 2010, data limite fixada por Obama para a retirada. Passado este prazo, em 2010 e 2011 morreram 58 militares norte-americanos no Iraque. Mas h&aacute; uma diferen&ccedil;a fundamental entre os dois casos de manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o que chega ao p&uacute;blico.<\/p>\n<p>O acordo de retirada do Iraque de 2008 tornou politicamente dif&iacute;cil, quando n&atilde;o imposs&iacute;vel, que o governo iraquiano pudesse manter soldados norte-americanos em seu territ&oacute;rio ap&oacute;s 2011. No caso do Afeganist&atilde;o, os acordos agora assinados n&atilde;o imp&otilde;em nenhuma restri&ccedil;&atilde;o aos militares norte-americanos. E embora Obama promova sua pol&iacute;tica de acabar com a guerra, suas for&ccedil;as armadas e o Pent&aacute;gono dizem publicamente que esperam manter milhares de soldados das SOF em solo afeg&atilde;o at&eacute; bem depois de 2014.<\/p>\n<p>Obama esperava conseguir que os chefes do Talib&atilde; aceitassem iniciar negocia&ccedil;&otilde;es de paz, o que teria tornado mais f&aacute;cil vender a ideia da retirada, enquanto segue a guerra. Contudo, o movimento isl&acirc;mico n&atilde;o cooperou. Em seu discurso em Cabul, Obama n&atilde;o podia amea&ccedil;ar os talib&atilde;s com a continua&ccedil;&atilde;o da ca&ccedil;a noturna casa por casa se n&atilde;o aceitassem negociar a paz com Karzai. Isto teria revelado o que de fato os dois pa&iacute;ses negociaram. Entretanto, Obama deve supor que o Talib&atilde; entende o que o p&uacute;blico norte-americano n&atilde;o entende: as opera&ccedil;&otilde;es noturnas continuar&atilde;o depois de 2014, n&atilde;o importa quanta resist&ecirc;ncia for contraposta &agrave;s odiadas tropas norte-americanas. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Gareth Porter &eacute; historiador e jornalista investigativo especializado em seguran&ccedil;a nacional dos Estados Unidos. Seu &uacute;ltimo livro, Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam (Perigos do Dom&iacute;nio: Desequil&iacute;brio de Poder e o Caminho para a Guerra no Vietn&atilde;), foi editado em 2006. (IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, Estados Unidos, 07\/05\/2012 &ndash; Os acordos assinados entre Washington e Cabul s&atilde;o apresentados como o meio para o povo do Afeganist&atilde;o assumir seu pr&oacute;prio destino e os Estados Unidos porem fim &agrave; guerra que iniciaram contra esse pa&iacute;s h&aacute; quase 11 anos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/05\/direitos-humanos\/eeuu-afeganisto-o-pacto-que-nada-mudar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":84,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,11],"tags":[14,17],"class_list":["post-9884","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-politica","tag-america-do-norte","tag-asia-e-pacifico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/84"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9884"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9884\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}