REPORTAGEM: Mudança climática: À espera de um desastre comovedor

RIO DE JANEIRO, Brasil, 26/06/2012 – (Tierramérica).- As dificuldades para acordar uma redução da emissão de gases contaminantes, evidentes na Rio+20, poderão ser vencidas com um evento climático de envergadura suficiente para sensibilizar a humanidade.

A consciência sobre a deterioração ambiental é despertada diante da recorrência de desastres como os causados em 2005 em Cuba pelo furacão Wilma - Patricia Grogg/IPS

A consciência sobre a deterioração ambiental é despertada diante da recorrência de desastres como os causados em 2005 em Cuba pelo furacão Wilma - Patricia Grogg/IPS

As catástrofes são as novas parteiras da história. Contudo, têm que repercutir de forma intensa, como os acidentes de Chernobyl, em 1986, e Fukushima, no ano passado, que levaram governos a interromper e inclusive abolir seus programas de energia nuclear. Em relação à mudança climática, "o desastre tem que ser suficiente para mudar as mentes, mas não tão forte que fuja ao controle", afirmou ao Terramérica o reitor emérito da Universidade para a Paz da Organização das Nações Unidas (ONU), Martin Lees.

Para limitar o aquecimento global e seus impactos exige-se uma redução "rápida e profunda" das emissões de gases-estufa, diz o documento Action to Face the Urgent Realities of Climate Change (Ação para Enfrentar as Realidades Urgentes da Mudança Climática), que seus autores preferem chamar de declaração. Este estudo foi apresentado na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, pelo Grupo de Trabalho sobre Mudança Climática (CCTF), criado em 2009 pelo ex-líder soviético Mikhail Gorbachov (1985-1991) e integrado por vinte ex-governantes, cientistas e especialistas, como Lees.

As emissões crescem a um ritmo superior ao pior cenário previsto pelo Grupo Internacional de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), que projetou um aumento da temperatura do planeta que seria insuportável, superior a seis graus até 2100. Porém, é provável que os cientistas do IPCC estejam "subestimando" essa evolução, devido à cautela e às regras acadêmicas, alerta o documento do CCTF. Apesar destes alertas, este assunto praticamente não foi abordado na Rio+20, encontro que celebra a Cúpula da Terra realizada também no Rio de Janeiro há 20 anos, na qual foram aprovadas as convenções sobre mudança climática, biodiversidade e desertificação.

A dificuldade para alcançar acordos e o fracasso das negociações nas conferências das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática em 2009, em Copenhague, e em 2010, em Cancún, levaram os governantes a evitar a questão do clima e suas "polarizações", segundo Lees. A justificativa mais mencionada foi a crise global, que enfrentam principalmente países da Europa, mas é "um erro extremamente perigoso pensar que devemos tratar primeiro da economia e depois do clima", segundo o CCTF, que tem como único membro latino-americano o ex-presidente chileno Ricardo Lagos (2000-2006).

Enquanto as crises econômica e financeira são conjunturais e foram superadas muitas vezes, a climática pode produzir riscos incontroláveis e irreversíveis, afirmam os autores do documento. A urgência de uma forte redução das emissões de gases-estufa se acentua pelo fato de ser temerária a meta de limitar a dois centígrados a elevação da temperatura do planeta até 2100.

Se os efeitos de um aquecimento de apenas oito décimos de grau desde a época pré-industrial até agora são "alarmantes", imagine dois graus, afirma o CCTF. Além disso, a média de dois graus significa que em algumas regiões críticas do mundo o aumento será de quatro graus, acrescenta. Ainda mais preocupante é a possibilidade de alguns processos estarem chegando ao ponto de inflexão, no qual a retroalimentação os torna irreversíveis e acelerados, diz a declaração do CCTF.

O degelo do Ártico aumenta a absorção de energia pelo mar, ao existir menos gelo para refletir a radiação solar, aquecendo as águas e ampliando mais ainda esse processo, ressalta o estudo. Com sua destruição, as florestas capturam menos gás carbônico e passam a liberá-lo na atmosfera, elevando a temperatura local. A elevação das emissões de dióxido de carbono fez crescer em 30% a acidez dos oceanos nos dois últimos séculos, reduzindo sua capacidade de reter esses gases contaminantes, realimentando a acidificação e a mudança climática.

A gravidade do processo de aquecimento da Terra é reconhecida de forma quase consensual, mas falta uma ação acordada globalmente. Por isto, o chamado à ação do Grupo de Trabalho, que reconhece como positivas algumas iniciativas isoladas, como a economia de baixo carbono buscada pela Suécia e a ampliação de tecnologias de informação e inovações verdes na Coreia do Sul.

Entretanto, a cúpula Rio+20 "não deu a devida atenção à mudança climática", deixando sem sentido as demais questões e tarefas discutidas, lamentou Gorbachov. A burocracia da Organização das Nações Unidas, com as difíceis relações entre suas agências, também contribuiu para evitar o tema na conferência, disse Alexander Likhotal, presidente da Cruz Verde Internacional. O sistema político multilateral se esgotou ao render-se à "cobiça nacional" e tolerar a superexploração dos recursos naturais, acrescentou.

O Grupo de Trabalho recomenda sete linhas de ação, entre elas a preservação do "capital natural", aumento das capacidades comunitárias para mitigar e adaptar-se à mudança climática, soluções de baixo custo e mobilização de financiamento público e privado, além de uma drástica redução da emissão de gases-estufa. A crise climática, que deve "estar no centro dos esforços para garantir o desenvolvimento sustentável do planeta", segundo Likhotal, ganhou esse status após a Cúpula da Terra de 1992, com as convenções das partes, e depois com o Protocolo de Kyoto assinado em 1997, estabelecendo metas e obrigações, apesar de não contar com a adesão dos Estados Unidos.

Desde então, a preocupação mundial com o tema sofreu altos e baixos. Pouco depois desses acordos, um terço dos norte-americanos considerava a mudança climática um "sério" problema, mas esse índice caiu para 40% graças às campanhas de descrédito, explicou Lees, cientista britânico que exerceu diversas funções em empresas, governo e na ONU. A conscientização de sua gravidade está voltando por causa dos eventos climáticos extremos, ressaltou.

A sociedade deve pressionar seus governos e responsabilizá-los por medidas e metas necessárias, defendeu Samantha Smith, que está à frente da Iniciativa Global sobre Mudança Climática e Energia, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). É o que fizeram os brasileiros para evitar uma revisão mais destrutiva do Código Florestal, que continua em debate, citou a ativista em uma entrevista coletiva na Rio+20. As tragédias, como deslizamentos e inundações, que no ano passado mataram quase mil pessoas no Estado do Rio de Janeiro, foram um forte argumento para aprovar uma lei que impeça o desmatamento.

Porém, os desastres locais, dispersos ou invisíveis para o cidadão comum, como a perda de biodiverisdade, ainda não parecem suficientes para induzir políticas e acordos internacionais. Já Fukushima, por seu impacto, sepultou por algum tempo muitos projetos nucleares, que também haviam perdido apoio após o acidente de Chernobyl, mas que vinha recuperando-o em boa parte pelo medo da mudança climática. "Temo que apenas uma grande catástrofe", de efeitos maciços, forçará as mudanças necessárias, disse o biólogo britânico Jonathan Baillie em entrevista ao TerraViva, o jornal diário da IPS publicado na Rio+20.

* Com a colaboração de Fabíola Ortiz (Rio de Janeiro).

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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