Mogadíscio, 23/08/2012 – Miriam Jama, com um ano de idade, é um símbolo de vida na Somália depois da época de fome. Miriam nasceu quando o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) declarou a existência de fome neste país do Corno de África há um ano, não conhecendo outro tipo de vida além daquele que existe no campo de refugiados de Badbaado, situado a 10 quilómetros fora da capital do país, Mogadíscio. Fraca e visivelmente subnutrida, Miriam, como o resto da família, mal tem alimentos suficientes para comer.
E, como quase a totalidade das 400.000 vítimas de fome que fugiram para a cidade no auge da crise para terem acesso a ajuda alimentar, os pais e quatro irmãos ainda vivem num dos muitos campos de refugiados fora de Mogadíscio. Aqui vivem na miséria numa minúscula barraca com apenas dois metros quadrados num campo dirigido por autoproclamados administradores, muitos dos quais são acusados pela comunidade de roubarem a ajuda disponibilizada. "Quase não recebemos o suficiente para sobreviver. A época da fome pode ter terminado mas para nós a fome não passou," diz à IPS a mãe de Miriam, Hawa Jama. Jama afirma que a família recebe só 25 quilos de cereais, 25 quilos de farinha e 10 litros de óleo alimentar por mês, dificilmente suficiente para alimentar esta família de sete pessoas. Mas não são os únicos com fome. Um ano depois de ter sido declarada a época da fome na Somália, centenas de milhares de refugiados que fugiram da fome e que vivem em campos fora da capital afirmam que ainda enfrentam a fome e o desespero. A fome, que causou a morte de dezenas de milhares de Somalis, foi declarada nesta nação destroçada pela guerra em resultado de uma seca severa. A seca, que tem prevalecido em todo o Corno de África, foi descrita como a pior em 60 anos. A situação piorou devido ao elevado preço dos alimentos e à instabilidade na região. O PAM afirmou no dia 18 de Julho que, apesar de nesta altura a Somália estar a passar por uma época de fome e dos níveis de subnutrição terem diminuido consideravelmente no último ano, a situação continua a ser frágil e o progresso atingido pode retroceder se não continuar a haver ajuda. A Agência das Nações Unidas para os Refugiados noticiou no dia 18 de Julho que a população de refugiados somalis excedia um milhão. Só no complexo de refugiados de Dadaab, no Quénia, estão alojadas 570.000 pessoas. E 3.8 milhões de pessoas na Somália continuam a ser afectadas por crises e carecem urgentemente de ajuda. enquanto que umas estimadas 325.000 crianças sofrem de subnutrição aguda. Um ano depois da crise ter começado, continua a haver abrigos cerrados que abarcam até onde a vista alcança nos arredores de Mogadíscio. Mas a vida nos campos de refugiados é difícil e os refugiados queixam-se que os administradores dos campos e funcionários locais roubam alimentos e recorrem ao nepotismo e favoritismo na distribuição da ajuda. "Não gosto de me queixar mas, para nós, trata-se de uma questão de vida ou de morte. Aqueles que são responsáveis pela gestão do campo não nos entregam toda a ajuda e além disso, favorecem outras pessoas. Transmitimos isso a todos os funcionários estrangeiros que nos visitam mas nada é feito acerca da nossa difícil situação," disse à IPS Mumino Ali, mãe de sete filhos no campo de Sayidka em Mogadishu. A água e saneamento também têm pouca qualidade nos campos visto que o número de instalações sanitárias é inadequado e a água que é distribuida em camiões não cumpre os requisitos internacionais em termos de qualidade e quantidade, segundo afirmou Mohamed Ali, um activista de direitos humanos local. "Penso que o que conseguimos desde que a época da fome foi declarada em Julho do ano passado é que as pessoas já não estão a morrer de fome. Mas continua a haver fome e não há programas sistemáticos para ajudar os refugiados a sustentarem-se sozinhos através da criação de regimes de rendimentos e do regresso às suas comunidades," acrescentou Ali. A situação alimentar piorou depois das agências de ajuda internacional terem reduzido as suas operações humanitárias e depois das Nações Unidas terem declarado o fim da época da fome em Fevereiro. Além disso, a Agência Nacional de Gestão de Catástrofes, que foi criada para lidar com a fome, tem sido acusada de ser ineficaz e corrupta. "A agência tem sido ineficaz no seu trabalho e é uma das agências que falhou quanto à ajuda prestada às pessoas que precisam de ajuda. A corrupção é generalizada nos orgãos governamentais e esta agência também tem culpas no cartório a esse nível," afirmou à IPS um funcionário de ajuda local, que pediu anonimato. O funcionário referiu que a existência de "várias camadas de corrupção" nas agências internacionais, parceiros locais, funcionários governamentais e administradores dos campos continua o ciclo de fome para os refugiados deslocados. Para poderem sobreviver, muitos dos refugiados que fugiram à fome procuram qualquer tipo de trabalho. Mas o desemprego já é frequente na população de Mogadíscio em geral, visto que 20 anos de guerra deixaram a infraestrutura económica destruida. Por isso, vêem-se crianças nos mercados locais a oferecerem os seus serviços para engraxar sapatos, trabalhar como criados de casa ou mesmo lavar carros, tentando ganhar a vida para ajudar a sustentar as famílias. O marido de Jama é um dos muitos que passa os dias a tentar encontrar qualquer tipo de trabalho na capital, onde não conhece ninguém e onde é difícil arranjar trabalho. Jama conta que ela e o marido, antigos agricultores de subsistência da região Média de Shabelle da Somália, localizada a norte de Mogadíscio, preferiam que as agências de ajuda os ajudassem a encontrar uma forma sustentável de ganhar dinheiro em vez de lhes darem simplesmente ajuda. "Não quero estar dependente da ajuda das agências, que nunca é o suficiente aqui. Mas ficaria feliz se me ajudassem a encontrar trabalho de forma a poder sustentar a minha família e regressar à minha aldeia," afirmou Jama enquanto carregava Miriam na anca. A menina nasceu um mês antes da família ter fugido da terra natal em Agosto de 2011, e Jama deseja que ela conheça uma outra vida menos dura.

