Iraque: Travessuras eleitorais em Nínive

Washington, 30/09/2005 – Se o referendo do próximo mês no Iraque acontecer de forma limpa, é muito provável que o projeto de constituição seja derrotado pela rejeição de dois terços dos eleitores nas províncias de maioria sunita. Dessa maneira, se abriria uma nova crise política. Mas uma das maneiras de evitar a derrota no dia 15 de outubro é uma fraude maciça na província de Nínive, onde, apesar da maioria sunita, o Partido Democrático do Curdistão (PDK) tem uma significativa cota de poder. E o PDK apóia a iniciativa constitucional. Segundo o escritório de ligação norte-americano com as autoridades eleitorais provinciais, funcionários curdos em Nínive tentaram cometer fraude nas eleições de janeiro e, talvez tenham conseguido. Essa certeza é apoiada pela evidência física conseguida pela Comissão Eleitoral Independente do Iraque.

Esta é, junto com Anbar e Saladín, uma das três províncias de maioria xiita, e, ao que parece, nelas é esmagadora a maioria pelo NÃO no referendo constitucional. Paradoxalmente, a população sunita, que se marginalizou do processo de eleição da Assembléia Nacional que redigiu a constituição, tem a possibilidade de bloquear o referendo, pelo fato de essa comunidade contar com dois terços dos votos nessas três províncias. Essa disposição foi estabelecida para dar aos curdos poder de veto sobre a constituição. Mas quando o parlamento dominado por curdos e xiitas aprovou o projeto, os partidos representativos e líderes religiosos da comunidade sunita lançaram uma campanha pelo NÃO.

Três quartos dos 24 milhões de iraquianos são árabes, 20% curdos e o restante de pequenas minorias. O Islã é a religião majoritária. Sessenta e dois por cento dos habitantes, concentrados no sul do território, professam o Islã xiita e 35% o Islã sunita, predominantemente no mundo árabe e no regime de Saddam Hussein, deposto em 2003. Em Nínive vivem 1,7 milhão de árabes sunitas, 200 mil curdos e entre 500 mil e 600 mil cristãos assírios, shabakos, yezidis e turcomanos. Estas minorias não-árabes nem curdas, com capacidade de inclinar a balança para um ou outro lado, se opõem majoritariamente ao projeto.

Mas o controle dos povoados não-curdos está nas mãos do PDK, através de milícias e funcionários de inteligência. Muitos temem que a constituição legitime uma velha pretensão curda: que o curdistão absorva as áreas de Nínive de maioria curda. Nas eleições de janeiro os curdos "encheram" as urnas de votos apócrifos, segundo o major Anthony Cruz, da reserva do Exército norte-americano que trabalhou com a comissão eleitoral da província. De volta a Los Angeles, Cruz recordou os detalhes, em entrevista à IPS. A primeira brigada da 25ª Divisão de Infantaria do Exército (a Brigada Stryker) foi responsável pela entrega das urnas e folhas de votação às zonas eleitorais da planície de Nínive, em janeiro. Porém, dependiam de milícias peshmurga curdas para manter a segurança em vilas e povoados.

Os soldados norte-americanos não conheciam suficientemente o terreno a ponto de prescindir da ajuda curda, segundo Cruz. Portanto, a Brigada concordou em enviar um comboio norte-americano com o material de votação para encontrar-se com uma delegação curda. O contato se deu no povoado curdo de Faida, a 50 quilômetros de Mosul. Assim partiriam do Curdistão para os povoados cristãos e shabakos da planície de Nínive. Quando o comboio chegou a Faida um dia antes das eleições, os guias curdos que deviam acompanhá-lo não havia chegado, e nunca chegaram. O prefeito local queria que o material para a eleição lhe fosse entregue a fim de instalá-los nos povoados curdos listados.

Mas ao considerar que sua missão havia abortado, o comandante do comboio expressou sua intenção de levar embora as urnas e as folhas de votação. A situação era tensa. O comandante pediu conselho a Cruz. O militar recomendou que entregasse ao prefeito folhas de votação suficientes para quatro povoados, e o comboio regressou a Mosul. No dia das eleições, recordou Cruz, as forças norte-americanas tentaram encontrar helicópteros para levar o material a outras seis localidades, mas só conseguiram chegar a uma, Bashiqa, cuja população é quase totalmente cristã, shabaka e yezidi. E isso foi pouco antes das 17 horas, quando a votação se encerraria.

Mas segundo Cruz, milicianos curdos roubaram as urnas no centro de votação e as devolveram mais tarde, depois de enchê-las de cédulas. Ao que parece, ofereceram suborno aos funcionários eleitorais para que as aceitassem. Um sistema de fraude ainda mais ambicioso foi detectado em Sinjar, um distrito relativamente pequeno em uma área do ocidente iraquiano predominantemente sunita. Cerca de 12 mil folhas de votação foram enviadas a Sinjar, mas no dia da votação dirigentes do PDK solicitaram muitas mais do que o número estimado do povoado e região, segundo Cruz. O pedido foi apoiado pelo escritório do então presidente interino do Iraque, o árabe sunita Ghazi Al-Yawer.

Cruz ria ao recordar a "porcentagem de comparecimento às urnas de 500%" em Sinjar. De todo modo, a equipe de combate da Brigada Stryker cumpriu os pedidos de mais folhas de votação. Mais tarde, o escritório provincial da Comissão Eleitoral Independente do Iraque controlou o destino de 38 urnas, 174 bolsas plásticas e 14 caixas de cartão com folhas de votação que obviamente haviam sido forçadas. Em algumas urnas, eram visíveis pilhas de folhas de votação que nem mesmo estavam dentro de envelopes. Outras haviam sido seladas novamente com fita adesiva verde e vermelha. Quando Cruz perguntou ao diretor provincial da Comissão quantas folhas de votação fraudulenta de Sinjar haviam sido detectadas, ele respondeu: "Muitas". A média de folhas de votação por urna no Iraque foi de 500, e se cada uma das 236 urnas e bolsas de votação desde Sinjar contivessem tantas, seriam 118 mil votos.

O total de votos legítimos em Nínive foi de apenas 190 mil. Os curdos tinham o evidente desejo de fortalecer suas exigências sobre Sinjar e boa parte da planície de Nínive. Também pretendiam uma melhor representação na Assembléia Nacional (parlamento interino) e no conselho provincial. A votação nacional dos partidos representativos dos cristãos assírios, uma comunidade que representa cem mil votos, chegou a apenas 3.346. A Lista da Frente Turcomana Iraquiana conseguiu nada mais que 1.342 votos, em um eleitorado potencialmente muito maior. A julgar pela grande disparidade entre os 77 mil votos legítimos da lista curda para a Assembléia Nacional e os 110 mil do mesmo setor para o conselho provincial, pode-se deduzir que dirigentes curdos alteraram deliberadamente muitos votos que foram dirigidos à lista do presidente Al-Yawer, em retribuição por ter-lhes facilitado folhas de votação adicionais com vistas à fraude.

Al-Yawer temia obter uma votação mínima na província, devido ao boicote disposto por organizações representativas de sua própria comunidade, a sunita. Embora analisasse o caso, a Comissão Eleitoral Independente minimizou a seriedade da fraude em Nínive e encobriu o papel desempenhado pela direção curda. Em uma entrevista coletiva em fevereiro, o porta-voz da Comissão, Farid Ayar, atribuiu a manobra "a milicianos ou homens armados" os quais não identificou. Mas segundo Cruz, o único incidente cujos protagonistas poderiam ser descritos desse maneira em Nínive ocorreu na localidade de Bashiqa. Além disso, Ayar se negou a identificar o partido que se aproveitou da fraude. "Não posso acusar nenhum, porque não sabemos", disse aos jornalistas.

O PDK obviamente cometeu um erro de cálculo ao pensar que os funcionários eleitorais em Nínive poderiam ser subornados. Mas a tentativa falha não lhes acarretou nenhum dano. A Comissão os ajudou, ao desviar a atenção da imprensa. Os meios de comunicação norte-americanos, por sua vez, nunca analisaram o caso. No referendo constitucional, o governo, de maioria xiita, compartilhará o interesse dos curdos em fazer o que for necessário para impedir uma derrota em Nínive. Por outro lado, os militares norte-americanos dependem muito das milícias curdas na província. O PDK talvez pense que um sistema de fraude melhor planejado funcione no dia 15 de outubro. (IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. "Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã", seu livro mais recente, foi publicado em junho.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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