México, 30/09/2005 – O investimento estrangeiro direto (IED) cresceu na América Latina e no Caribe 44% em 2004, após quatro anos de quedas consecutivas, indica um informe da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento divulgado nesta quinta-feira, um número que multiplica lucros multinacionais em uma região de desigualdade e pobreza. O aumento do IED na região, que recebeu US$ 68 bilhões no ano passado, foi o segundo mais importante do Sul em desenvolvimento, atrás de Ásia e Oceania, diz o Informe 2005 sobre Investimentos no Mundo da Unctad, divulgado simultaneamente em Genebra, Nova Délhi, Nova York e México.
São boas notícias para os que fazem negócios transnacionais e multiplicam seu dinheiro, mas não para os 224 milhões de pobres e 96 milhões de indigentes da região. "O investimento estrangeiro por si só nada promove (em matéria de desenvolvimento social), seu papel é secundário" nesse sentido, disse à IPS Tagi Sagafi-nejad, professor da Escola de Administração de Empresas da Universidade Internacional do Texas, um dos encarregados de apresentar o relatório da Unctad no México. Opinião semelhante expressou Cristina Casanueva, pesquisadora da Universidade Ibero-americana do México e também expositora do assunto. "Para o investimento estrangeiro não importa a pobreza ou se há, ou não, democracia neste ou naquele país", afirmou em resposta a uma pergunta da IPS.
Brasil e México foram os mais beneficiados da região em matéria de IED em 2004, com 52% do total. Trata-se dos maiores e mais povoados países, mas também os de maior desigualdade social. O efeito de distribuição do IED depende diretamente das estratégias e regulamentações de cada país, disse Casanueva. Entretanto, o investimento estrangeiro, "do qual agora já não há como prescindir", cria empregos e recursos. A América Latina, a região do mundo com maior brecha entre ricos e pobres, é um destino relativamente atraente para o IED e começa a ser origem de investimentos. Entre as empresas que investem no exterior estão a Petrobras e as mexicanas Cementos de México e América Móvil, companhias que já estão entre as maiores do mundo em desenvolvimento, segundo a Unctad.
Os investimentos de empresas mexicanas e brasileiras fora de seus territórios no ano passado somaram US$ 11 bilhões. "Somos muito milionários e muito bons para receber dinheiro estrangeiro, mas isso ainda não nos serve para reduzir a pobreza, o que é um paradoxo", disse à IPS o consultor financeiro Francisco Rivas. Segundo estudo do Banco Mundial "Desigualdade na América Latina e no Caribe. Ruptura com a história?", os 10% mais ricos da população da região recebem entre 40% e 47% da renda total, enquanto os 20% mais pobres conseguem apenas entre 2% e 4%.
"A América Latina sofre uma grande desigualdade. O país da região com menor desigualdade na renda continua sendo mais desigual do que qualquer outro da Organização para o Desenvolvimento Econômico (OCDE) ou da Europa oriental", diz esse estudo. "Trata-se de um fenômeno invasor, que caracteriza cada aspecto da vida, como o acesso à educação, saúde, e serviços públicos, o acesso á terra e a outros ativos, o funcionamento dos mercados formais de crédito e trabalho, e a participação e influência políticas", acrescenta.
É positivo que cheguem mais investimentos estrangeiros à região, mas isso não significa que os países tenham "resolvido seus problemas relacionados com os escassos benefícios propiciados pela operação de empresas multinacionais em seu território", alerta a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Em seu relatório sobre investimentos 2004 divulgados em março, essa agência da Organização das Nações Unidas indica que a região deveria fazer esforços adicionais para atrair investimentos estrangeiros de melhor qualidade. Segundo a Unctad, os maiores crescimentos do IED em 2004, comparado com anos anteriores se registraram no Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, México e Peru, enquanto houve redução na Bolívia, Venezuela e Equador.
O aumento do IED na região está relacionado com uma combinação de fatores locais e mundiais, como o crescimento econômico global, a elevada demanda de produtos básicos e a adoção de políticas favoráveis por parte de alguns governos, indica a Unctad. Em nível mundial, o IED no ano passado somou US$ 648 bilhões, 2% a mais do que em 2003. Para 2005, são esperadas novas altas nos investimentos na América Latina e no Caribe, marcando assim uma tendência diferente da registrada no período de estancamento registrado entre 1999 e 2003, acrescenta o estudo. (IPS/Envolverde)

