Afeganistão: Quatro anos depois da invasão, os perigos continuam

Washington, 07/10/2005 – Quatro anos depois da invasão norte-americana que desalojou o regime islâmico talibã do Afeganistão, o governo do presidente Hamid Karzai goza de certa estabilidade, mas a situação da segurança e da economia continua desesperadora. A estabilidade política, reforçada pelas exitosas eleições do mês passado para as legislaturas regionais e nacional, dá lugar a declarações de satisfação por parte das autoridades dos Estados Unidos. Entretanto, especialistas advertem que o Afeganistão continua extremamente dependente de ajuda externa e sofre sérias ameaças, desde um ressurgimento da insurgência do Talibã até a consolidação do narcotráfico como base da economia doméstica.

Os programas de treinamento para o exército e a polícia estão atrasados em relação ao cronograma estabelecido, o que deixa vastas áreas distantes de Cabul sob o controle dos senhores da guerra. E nos últimos meses aumentou a quantidade de civis e soldados norte-americanos mortos por integrantes do movimento Talibã e das forças de seu principal aliado, Gulbuddin Hekmatyar. Este ano já morreram em ação 86 soldados norte-americanos, um número enorme em relação aos 55 que caíram entre 7 de outubro de 2001, quando começou a invasão, e 31 de dezembro de 2002. Mais de 1.200 pessoas, no total, morreram em razão do conflito nos primeiros seis meses deste ano, segundo o Grupo Internacional de Crise (ICG).

"A guerra no Afeganistão está adquirindo um ritmo que não se previa", disse Michael Scheuer, ex-funcionário da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA) que se dedicou durante boa parte de sua carreira a seguir o rastro do líder da rede terrorista Al Qaeda, Osama bin Laden. O atentado que matou três mil pessoas em 11 de setembro de 2001 em Nova York, Washington e Pennsylvania, atribuído à Al Qaeda – então protegida em território afegão pelo Talibã – desatou com resposta um mês mais tarde a invasão do Afeganistão, a cargo de uma coalizão internacional encabeçada pelos Estados Unidos.

Os ataques insurgentes se tornaram cada vez mais complexos no último ano. Além disso, surgem evidências de que os islamitas radicais que combatem contra as forças norte-americanas no Iraque possuem equipamentos e experiência adquiridos na luta no Afeganistão. Por outro lado, o comparecimento às urnas marcou certa desilusão dos cidadãos, pois ficou em 70% dos habilitados a votar nas eleições presidenciais de 2004 e em 53% nas eleições legislativas de agosto. Aqueles que obtiveram mais votos nas zonas mais seguras do território, como Ramyan Bachardost, em Cabul, protagonizaram campanhas populistas contra a corrupção e o desperdício de assistência internacional, segundo Barnett Rubin, especialista da Universidade de Nova York.

Rubin, junto com Scheuer e outros especialistas, participaram na quarta-feira de um fórum sobre a situação no Afeganistão patrocinada pela Universidade George Washington e pelo Centro para o Progresso dos Estados Unidos. As queixas da maioria da população do interior do país não cessam, apesar do grande crescimento econômico registrado desde a instalação, em dezembro de 2001, do governo interino de Karzai, confirmado no ano passado no cargo de Presidente. O Afeganistão continua entre a meia dúzia de países mais pobres do mundo e, segundo informou em julho o Departamento de Estado norte-americano, 70% de sua população sofrem desnutrição, o maior índice do mundo.

O fato de a atividade econômica não estar atada à ajuda internacional se deve ao narcotráfico, que, segundo Karzai, é o principal problema do país junto com a corrupção. A Organização das Nações Unidas calculou no começo do ano que o cultivo e tráfico de papoula (insumo do ópio, da morfina e da heroína) representam 60% da economia, isto é, US$ 2,8 bilhões. O Departamento de Estado advertiu no ano passado que o Afeganistão estava "prestes a se converter em um Estado narcótico", pois concentrava 90% da produção de papoula do mundo. As colheitas diminuíram um pouco este ano, segundo a ONU, mas o país se dedica cada vez mais ao processamento de heroína.

A grande dependência do narcotráfico que sofre a economia afegã origina um grande paradoxo para os Estados Unidos e outros doadores internacionais, segundo Rubin. "Não se pode estabelecer uma política de consolidação nacional, por um lado, e, por outro, uma política de aniquilamento de um grande setor da economia", afirmou o especialista. O cultivo de papoula, acrescenta, encontra-se estendido a todas as províncias. "Não há sinais de uma estratégia completa de desenvolvimento, de construção de uma economia legal", acrescentou Rubin, que assessorou a ONU nas reuniões de doadores realizadas em Bonn (Alemanha) em 2001.

Tampouco o diplomata norte-americano James Dobbins, que representou seu país nas reuniões em Bonn, vê "uma estratégia para curto prazo" que reduza a dependência do narcotráfico. Qualquer medida para erradicar os cultivos neste momento não só empobreceria ainda mais a população rural, como também aprofundaria a desconexão entre o governo em Cabul e o resto do país, segundo Rubin. Isso aumentaria o sentimento de "grande brecha institucional" entre organizações locais e de base, a maioria das quais estão nucleadas em torno de mesquitas, e o governo central.

Outro motivo de vulnerabilidade institucional é a falta de consenso entre as mesquitas quanto à legitimidade do governo, advertiu Rubin. Os líderes religiosos contam com uma ampla rede nacional que pode realizar mobilizações populares, algo que falta às autoridades centrais e locais. Outro problema é a incoerência entre "três ou quatro governos" que incluem o escritório da ONU em Cabul, a embaixada dos Estados Unidos, as organizações não-governamentais que administram a maior parte da ajuda internacional, o governo de Karzai e, "em quinto lugar, o parlamento", disse o antropólogo afegão Nazif Sharani, da Universidade de Indiana (EUA).

Os Estados Unidos e o resto dos doadores cometeram um grave erro ao tratar de consolidar o governo central, em particular o exército e a polícia – aos quais se destina quase a metade do orçamento central – às custas das autonomias locais e organizações de base, segundo Sharani. "Este governo continuará não porque tem o apoio do povo, mas porque o povo teme a volta do Talibã", afirmou Sharani. O regime do Talibã, do qual participavam estudantes de teologia refugiados no Paquistão durante a ocupação soviética do Afeganistão (1979-1989), proibiu a partir de 1996 a atividade artística, ignorou os direitos fundamentais das mulheres e destruiu antigos monumentos budistas.

A versão fundamentalista do Islã praticada pelo Talibã foi rejeitada por acadêmicos e políticos de todo o mundo muçulmano. A Conferência Islâmica, integrada por 56 países, do Pacífico ao Atlântico, nunca o apoiou. As mulheres eram proibidas de estudar, trabalhar e saírem sozinhas de casa. As que não usavam a burka, a tradicional vestimenta que as cobre dos pés à cabeça, eram insultadas e espancadas. Muitas viúvas morriam de fome porque, sem a companhia de um parente homem, eram impedidas de saírem de casa.

A tentativa de criar uma sociedade islâmica "pura" incluiu amputações e execuções públicas, com a intenção de erradicar o crime. Foram também proibidos os enfeites e as maquiagens, o xadrez, a televisão, o cinema, o teatro e a música. O regime terminou em 2001, depois da operação militar liderada pelos Estados Unidos. A coalizão vencedora impôs, em dezembro desse ano, Karzai como presidente, um magnata exilado. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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