Bangcoc, 07/10/2005 – O trabalho voluntário ou sem fins lucrativos tem um enorme peso nas economias nacionais, revelaram novas estatísticas, contrariando a idéia de que essa tarefa é bem-vinda e louvável, mas não é essencial. "Este terceiro setor é uma enorme força econômica. É uma força importante e crescente, que merece mais atenção além da que recebe", destacou Lester Salamon, diretor do Centro de Estudos sobre a Sociedade Civil da Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos, em uma conferência feita em Bangcoc. O Centro, junto com a Divisão de Estatísticas da Organização das Nações Unidas, criou um manual para a inclusão da contribuição das instituições sem fins lucrativos nas contas nacionais, e agora tenta fazer com que os países elaborem estatísticas sobre esse setor e informem sobre elas.
"Estes dados derrubam a idéia de que o setor sem fins lucrativos é residual", acrescentou Salamon. Este setor é definido como aquele que provém bens ou serviços públicos, não distribui lucros, tem autogestão e estrutura de gerenciamento e arrecadação diferentes das encontradas em organizações comerciais ou públicas, bem como um tratamento fiscal e jurídico diferente. Integram esse setor bombeiros e socorristas voluntários e os ativistas ambientais e políticos, entre outros.
Nas Filipinas, as organizações voluntárias e sem fins lucrativos são uma indústria de US$ 1,2 bilhão ao ano, com gastos que superaram 1,5% do produto interno bruto. Esses grupos empregam cinco vezes mais pessoas do que gigantescas empresas de serviços públicos e muitas mais do que as maiores companhias do país, entre elas a San Miguel Corp., que produz alimentos e bebidas. Na Índia, estima-se que 3,4% da população adulta trabalham em instituições sem fins lucrativos. Somente na capital, Nova Délhi, um em cada oito adultos trabalha nesse setor, informou Ilpo Survo, diretor de estatísticas da Comissão Social e Econômica das Nações Unidas para Ásia-Pacífico (ESCAP).
"Não sabíamos que a contribuição do setor era tão grande, até analisarmos os números", afirmou Ledivina Carino, professora da Faculdade de Administração Pública da Universidade das Filipinas. Desde a Europa Ocidental até Ásia e Austrália, as organizações voluntárias têm um peso importante nas economias. Se a sociedade civil fosse uma economia nacional, suas despesas representariam US$ 1,6 trilhão, convertendo-a na quinta economia do mundo, depois de Estados Unidos, Japão, Alemanha e Grã-Bretanha, de acordo com dados do projeto comparativo do setor sem fins lucrativos da Universidade John Hopkins.
O projeto, que atualmente conta com dados sobre o setor sem fins lucrativos em 37 países, demonstrou que esta área representa 47,6 milhões de empregos de tempo integral e dá trabalho a 4,5% da população economicamente ativa e 7,7% do emprego não agrícola, explicou Salamon. Nos países analisados, acrescentou, o emprego em organizações da sociedade civil, seja voluntário ou remunerado, emprega 48 milhões de pessoas, número expressivo em comparação com os quatro milhões de empregados das maiores companhias nacionais.
Esses dados refletem o crescente papel das organizações sem fins lucrativos na provisão de serviços e são importantes para que "os governos percebam os limites ao estado de bem-estar e concentrem a política nacional no desenvolvimento", disse Salamon. Em muitos casos, os governos outorgam fundos a essas organizações para que cheguem a grupos de pessoas aos quais eles não podem ter acesso. Em países da Europa ocidental, como Itália e Holanda, a maior parte da atividade sem fins lucrativos (66% e 86%, respectivamente) acontece nas áreas da saúde e do trabalho social, seguidos pelos serviços comunitários e sociais, e pela educação.
O papel desse setor foi matéria de discussão da conferência organizada na capital tailandesa por ESCAP, a Universidade John Hopkins e o Programa de Voluntários da ONU, com apoio financeiro da Fundação Sasakawa para a Paz, com sede em Tóquio. A conferência reuniu ativistas, pesquisadores e funcionários de escritórios de estatísticas nacionais de países asiáticos. Os participantes disseram que a maioria dos sistemas de contas nacionais se limitam a registrar cifras de áreas tradicionais, como as empresarial, governamental e doméstica. Em alguns casos, a contribuição econômica do setor sem fins lucrativos se mescla com a de outros.
Até esta data, 18 países (entre eles Brasil, Argentina, Bélgica, França, Itália, República Checa, África do Sul e Marrocos) se comprometeram a modificar seus sistemas de contas ou acrescentar "contas satélites" para registrar a contribuição desse setor. Dentro da Ásia, se comprometeram a fazer o mesmo Austrália, Nova Zelândia, Japão e Quirguistão. Filipinas, que tem quase 500 mil grupos voluntários ou sem fins lucrativos, trabalha na mesma linha. (IPS/Envolverde)

