Des Moines, Estados Unidos, 27/11/2012 – Dê esmola a uma mulher e a alimentará por um dia, mas se ensiná-la a cultivar e agregar valor ao seu produto, a ajudará a resolver a situação dela e de sua família pelo resto de suas vidas. E se essa mulher for nigeriana e se chamar Susan Godwin também dará emprego à sua comunidade.

A pequena agricultora Susan Godwin dá emprego a três mulheres que a ajudam a processar o amendoim que cultiva, e este ano foi nomeada HeroÃna da Alimentação na Nigéria. - Busani Bafana/IPS
"Algumas das mulheres com as quais me capacitei desistiram após se darem conta de que os cursos não incluíam ajuda financeira, mas eu quis ir até o final", afirmou Godwin à IPS. Na colheita seguinte, o rendimento da batata-doce e do amendoim dela duplicou. Com o dinheiro das vendas comprou uma máquina de descascar amendoim para poder produzir óleo e doces, algo que poucos em sua comunidade fazem. Atualmente, sua família goza de segurança alimentar e financeira.
Em sua aldeia de Tunduadabu, no Estado nigeriano de Nasarawa, não há muitos pequenos agricultores que possam dizer o mesmo. Enquanto Godwin emprega três mulheres que a ajudam a processar o amendoim que cultiva, muitos agricultores da aldeia lidam com problemas de produção. Isto porque, ao contrário dela, não foram capacitados sobre a adoção de novos métodos de cultivo e ainda dependem de técnicas tradicionais.
"A capacitação é muito importante para os pequenos agricultores, especialmente na Nigéria, porque sem a formação não estariam conhecendo os novos métodos para cultivar", enfatizou Godwin. Adotar estas técnicas "me ajudou a sair da pobreza e a forjar uma nova vida na qual tenho o suficiente para comer, para dar aos vizinhos e para vender. Agora posso enviar meus filhos à escola", contou esta mãe de cinco filhos.
Um informe de março deste ano, intitulado Oxfam na Nigéria, elaborado por esta organização não governamental, indica que cerca de 70% das mulheres deste país contribuem para a produção agrícola nacional. Entretanto, a Nigéria não está a salvo da insegurança alimentar, apesar de situar-se em primeiro lugar na produção agrícola da África. Apenas 50% de sua terras aptas são cultivadas.
Agora, Godwin tem cinco descascadoras e emprega três mulheres para operá-las. Também permite que sua comunidade use as máquinas por um preço módico. "A cada mulher dou metade do dinheiro que ela gera a cada dia com as máquinas", informou. Ela paga o equivalente a US$ 1,27, o que "representa uma diferença quando não se tem nada", ressaltou Godwin, que também preside o Movimento Unido pelos Agricultores de Pequena Escala.
Ao compartilhar o lucro de seu negócio, Godwin empoderou suas empregadas. Agora, algumas já podem iniciar seus próprios empreendimentos. Os que se dedicam à pequena agricultura "podem alimentar o mundo" se lhes derem as ferramentas e o apoio necessários, opinou. Muito longe de sua aldeia, no Estado norte-americano de Iowa, Godwin foi declarada, em outubro, modelo agrícola no Diálogo Borlaug 2012. A Oxfam Internacional também a nomeou Heroína da Alimentação na Nigéria.
Sithembile Mwamakamba, a gerente do projeto de Acesso das Mulheres a Mercados Realinhados na Rede de Análises de Políticas de Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais (Fanrpan), lamentou o elevado índice de analfabetismo entre as pequenas agricultoras do continente. "Com o apoio adequado, as pequenas produtoras podem identificar suas necessidades, apresentar mensagens relevantes e comunicá-las de modo efetivo aos políticos", afirmou à IPS.
"Há uma necessidade de estabelecer em nível local plataformas de diálogo que capturem a voz das agricultoras no processo de formulação e implantação de políticas. Além disso, existe uma necessidade de serviços de extensão e formação desenhados especialmente para as pequenas produtoras, a fim de melhorar sua produtividade", acrescentou Mwamakamba. Ela também enfatizou que estes programas devem ser complementados com melhor acesso a insumos e mercados, se o objetivo é ter um impacto duradouro sobre o sustento das agricultoras.
Tracy Gerstle, diretora de políticas públicas globais na organização CropLife International, disse à IPS que as mulheres são a coluna vertebral da economia rural, ao constituírem 43% da força de trabalho agrícola nos países em desenvolvimento e, estima-se, representarem dois terços dos 600 milhões de criadores pobres de gado no mundo. "Não podemos passar por cima do papel central das mulheres na segurança alimentar mundial e no crescimento econômico. Nos lares pobres, elas são essenciais para romper o ciclo da pobreza, já que tendem a investir uma porção significativamente maior de sua renda em alimentos e educação para a família", destacou.
"As mulheres se esforçam para desenvolver seu potencial, devido às brechas mundialmente persistentes em relação ao homem em seu acesso a serviços de extensão, insumos agrícolas, terra e finanças. Isto é agravado pelas persistentes desigualdades em seus direitos humanos básicos", indicou Gerstle. E acrescentou que dar apoio educativo a meninas e mulheres mediante bolsas, serviços de extensão e outras formas de assistência técnica ajudará a superar a desigualdade.
Happy Shongwe, da Suazilândia, lidera a luta contra a insegurança alimentar em seu país. Cultivadora comercial de sementes e premiada em 2011 pela Fanrpan, afirmou que a agricultura de pequena escala é a chave para conseguir a segurança alimentar. Isto, sempre e quando se dá capacitação e ferramentas a quem a pratica, declarou à IPS em entrevista por telefone desde seu país, na África austral. Shongwe produz sementes certificadas de legumes e milho com técnicas agrícolas de conservação em seu estabelecimento na bacia de Lubombo, região de Siteki, 150 quilômetros a leste da capital, Mbabane.
Após notar que os agricultores constantemente sofriam falta de sementes, ela incursionou no competitivo e lucrativo mercado da produção de sementes. "O apoio financeiro é importante para a pequena agricultura. Tenho energia e paixão pela agricultura, mas não o dinheiro para iniciar alguns dos meus projetos", disse à IPS esta mãe de dois filhos. Sua renda triplicou desde que começou o negócio, que em uma boa temporada pode lhe render US$ 2,5 mil.
Seu sucesso atraiu inclusive a atenção da família real da Suazilândia, que a consultou sobre a produção de sementes de legumes. Shongwe também transmite seus ricos conhecimentos para outras pessoas. "Atualmente, sou mentora de 60 produtores ansiosos para incursionar na produção de sementes, e tenho outro grupo de dez que capacito em agricultura de conservação, porque o conhecimento e a informação são fundamentais se os pequenos agricultores querem contribuir para a segurança alimentar", ressaltou. Envolverde/IPS

