JANUÁRIA, Brasil, 05/12/2012 – (Tierramérica).- Populações ribeirinhas de um afluente do Rio São Francisco respondem com medidas originais à destruição de seu curso de água.
Uma das pequenas represas próximas do Rio dos Cochos com água de uma chuva recente - Mario Osava/IPS
"Onde vivo ficou sem água cerca de 20 dias" este ano, de forte estiagem. Antes "ficava seco por quatro ou cinco meses", disse Jaci Borges, morador local e ativista da Cáritas, organização católica que apoia essa iniciativa e muitas outras de desenvolvimento solidário. Salvar este e outros pequenos rios é fundamental para revitalizar o São Francisco, o mais importante recurso hídrico do Nordeste do Brasil, uma região iluminada por suas nove hidrelétricas, médias e grandes.
O Rio dos Cochos, um subafluente, faz parte de sua bacia. Dos 36 afluentes diretos do São Francisco, chamado "rio da integração nacional" por cruzar o centro e o nordeste do país, 16 já eram intermitentes em 2005, conforme investigou o jornalista Marco Antonio Coelho para seu livro Os Descaminhos do São Francisco. A população ribeirinha do rio dos Cochos – 300 famílias, ou cerca de 1.500 pessoas – começou a reagir à destruição de seu rio em 2001.
A preparação, que incluiu criar a Associação de Usuários da Sub-Bacia do Rio dos Cochos e a discussão sobre o que fazer exigiu três anos. A partir de 2004 foram construídas 850 "barraginhas", pequenas represas circulares junto a estradas e outros caminhos por onde seguem as águas de cheias ou chuvas. Desta forma, se impede que os sedimentos, abundantes por causa do solo arenoso, sejam arrastados até o leito do rio e continuem entupindo-o.
Além disso, a terra ao redor dessas pequenas represas fica úmida e se alimenta do lençol freático em uma área onde as chuvas não são abundantes e as graves secas são frequentes, como a que sofre o semiárido do país desde ao ano passado. O Rio dos Cochos cruza os municípios de Cônego Marinho e Januária, no norte de Minas Gerais, com um clima semiárido semelhante ao que afeta quase todo o interior do Nordeste, onde o índice pluviométrico varia entre 250 e 750 milímetros por ano.
Além das represas, há três anos se tenta restaurar as florestas ribeirinhas, estendendo uma cerca a 30 metros do leito do rio para impedir a invasão do gado. Nem todos aderiram a esta campanha, mas é impressionante a recuperação natural da vegetação onde foi colocada essa proteção, sem necessidade de plantar novas árvores, contou Matos. O pequeno rio ficou conhecido como exemplo de revitalização, divulgado pela imprensa e pela televisão nos últimos anos.
A causa da deterioração do rio é o desmatamento dos morros e a substituição da mata original por eucalipto para produzir carvão vegetal, estimulada por políticas oficiais desde a década de 1970. Sua agonia vinha prejudicando a produção agrícola local. "Muitas nascentes secaram, algumas fechadas por sedimentos", explicou Borges.
Minas Gerais é o Estado de maior atividade de mineração, vinculada ao transporte ferroviário e à siderurgia, grandes consumidores de carvão vegetal. Entretanto, a pecuária também foi uma causa da deterioração, pois danificou a mata e o solo na margem do rio, até ser colocada a cerca. Além disso, exigia a substituição da vegetação natural por extensas pastagens, favorecendo a erosão que, por sua vez, libera mais sedimentos.
Matos, de 57 anos, divide com cinco irmãos uma área de 200 hectares dedicados a agricultura e pecuária. De seus três filhos, um já foi para a cidade próxima, Januária, e "o outro também quer ir", lamentou. "Viver aqui é bom, mas sobreviver é difícil", porque as chuvas são muito irregulares e, "após dois meses sem chover, se perde tudo", contou. Outras dificuldades são as estradas, de terra e sem manutenção adequada, acrescentou Borges. A pouca atenção das prefeituras afeta o transporte, e também as "barraginhas" com as quais se tenta salvar o rio.
As últimas chuvas romperam diques mal feitos em um trecho da estrada onde foram construídos, mais ou menos a cada 50 metros, para resistir à intensidade das cheias. Assim, cresce a bola de neve: as "barraginhas" corrente abaixo não suportam as águas que crescem muito por não serem contidas acima, explicou o camponês e ativista. A associação de moradores locais proporá às prefeituras uma reforma em um trecho de 6,5 quilômetros da estrada para testar o modelo que poderá servir mais tarde para toda a extensão.
A recuperação do riacho por iniciativa dos próprios moradores mostra um caminho para revitalizar o São Francisco, uma promessa do governo federal como contrapartida à transposição de águas desse grande rio, uma obra gigantesca concebida para melhorar o abastecimento hídrico de quatro Estados do Nordeste, que beneficiará 12 milhões de pessoas, segundo o projeto oficial.
Contudo, pouco está sendo feito, apenas o saneamento básico – e incompleto – de algumas cidades, e nada para reflorestar as margens dos rios, segundo Roberto Malvezzi, membro da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica. Vários estudos estimam que o São Francisco perdeu um terço de seu fluxo desde meados do século passado. Muitos de seus afluentes ou subafluentes secaram em Minas Gerais, onde nasce a maior parte de suas águas.
A pecuária e as monoculturas – soja, café, arroz e outros grãos, além do eucalipto – provocaram desmatamento e são as principais causas desse desastre hídrico, ao "romper o ciclo hidrológico", disse Apolon Heringuer-Lisboa, fundador e dirigente do projeto Manuelzão, que procura recuperar o Rio das Velhas. O grande problema deste curso é que cruza a região metropolitana de Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais, e recebe a contaminação do esgoto urbano e industrial antes de desembocar no São Francisco.

