"Luta contra a mutilação genital feminina ganhará impulso"

Nações Unidas, 09/01/2013 – Cerca de 140 milhões de mulheres e meninas em todo o planeta sofrem as consequências da mutilação genital feminina.

Alvilda Jablonko, coordenadora do programa contra a mutilação genital feminina da organização No Peace Without Justice (Não há paz sem justiça, NPWJ). - Julia Kallas/IPS

Alvilda Jablonko, coordenadora do programa contra a mutilação genital feminina da organização No Peace Without Justice (Não há paz sem justiça, NPWJ). - Julia Kallas/IPS

No entanto, desde que foi aprovada uma proibição mundial, no final do ano passado, ativistas esperam que muitas mais escapem da brutal prática. A maioria das vítimas da ablação se encontra na África. A prática implica a extirpação total ou parcial dos órgãos sexuais externos da mulher sem justificativa médica e por motivos culturais.

Muitos homens defendem a prática, mal chamada de "circuncisão feminina", argumentando que diminui o risco de suas mulheres lhes serem infiéis, pois acreditam erroneamente que reduz o desejo sexual. Certas comunidades veem a operação como uma iniciação à vida adulta e também uma medida higiênica, enquanto alguns muçulmanos a defendem como um requisito religioso.

Alvilda Jablonko, coordenadora do programa contra a mutilação genital feminina da organização No Peace Without Justice (Não há paz sem justiça, NPWJ), foi uma das que lutaram desde 2010 para que a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse essa proibição, finalmente adotada em 20 de dezembro de 2012. "É um novo capítulo, uma nova ferramenta", disse em entrevista à IPS. Mas é "apenas uma ferramenta, e será efetiva conforme o uso que se fizer dela", ressaltou.

IPS: Quais foram as principais barreiras que enfrentou quando pedia uma resolução que proibisse em todo o mundo a mutilação genital feminina?

ALVILDA JABLOKO: Creio que a adoção da resolução na ONU foi, definitivamente, resultado de uma luta por parte dos Estados que estão mais preocupados com o assunto. Burkina Faso é um dos países que impulsionou em nível nacional o combate contra a prática, e realmente liderou na matéria. Trabalharam estreitamente com organizações não governamentais no terreno, e inclusive com uma coalizão de grupos da sociedade civil. De forma muito natural, trabalharam para estimular esses Estados a adotarem ações em nível nacional.

IPS: Qual o principal papel da NPWJ nesta luta?

AJ: A organização vem trabalhando na matéria nos últimos dez anos. Foi fundada por Emma Bonino, ex-comissária da União Europeia para Assuntos Humanitários e agora vice-presidente do Senado da Itália. Esteve na vanguarda da luta pelos direitos das mulheres em todo o mundo. A NPWJ uniu-se a várias organizações, principalmente africanas, que já estavam envolvidas na luta há décadas. Assim, em colaboração com muitos ativistas no terreno, a organização se concentrou em pressionar os governos a assumirem sua responsabilidade e não deixarem todo o trabalho para os ativsitas.

IPS: Qual o próximo passo?

AJ: Agora que a resolução foi adotada, o passo seguinte é que seja implementada. Muitos Estados já estão fazendo muito, mas há uma necessidade de harmonização em níveis regional e sub-regional. Em alguns Estados limítrofes, onde há leis a respeito em uns e em outros não, as pessoas cruzam a fronteira para realizar a prática em suas filhas onde ela não está proibida. Esperamos que a resolução dê um grande impulso aos países para que comecem a fazer a sua parte e liberem mais recursos para que isto possa se generalizar de forma séria.

IPS: Quanto impacto a resolução terá nos fatos?

AJ: Creio que muito, sobretudo graças aos ativistas que pressionaram seus governos para que levassem a ação ao nível da ONU. Estes ativistas conseguiram algo assombroso. Não vão parar. Ganharão energia e se verão fortalecidos por isto. Vão regressar às suas comunidades, aos governos, parlamentos, ministérios e farão com que a bola realmente comece a rodar. Existe um maravilhoso exemplo de uma parlamentar do Quênia, Linah Jebii Kilimo, que promoveu e conseguiu a aprovação de uma lei em seu país contra a mutilação genital feminina. Ela afirmou que a resolução realmente legitimou internacionalmente o que ela havia feito em nível nacional. Ativistas de todo o mundo ajudaram em nosso trabalho. A resolução, de fato, foi liderada por Kilimo. Como disse, os que travaram uma forte luta contra a mutilação genital feminina em nível nacional foram líderes naturais nesse assunto. A primeira dama do Quênia, Lucy Kibaki, é uma verdadeira ativista em muitos temas, incluindo a luta contra a mutilação genital feminina, e foi coordenadora internacional da campanha. Realmente, fez um grande trabalho, também realizando lobby junto aos seus colegas de outros países. Uma das organizações com as quais trabalhamos foi o Comitê Interafricano sobre Práticas Tradicionais que Afetam a Saúde das Mulheres e das Meninas. É um grupo de comitês em 29 países da África, todos eles ativos em nível nacional. Envolverde/IPS

Julia Kallas

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