Calefação com energia do esgoto

Berlim, Alemanha, 19/02/2013 – (Terramérica).- Edifícios alemães aproveitam o calor que circula pelos canos de esgoto para alimentar seus sistemas de climatização, tanto no inverno quanto no verão, sem consumir energia nova.

Parte dos equipamentos que convertem o calor cloacal em calefação para o palácio municipal de Fürth. - Ricarda Hager/Cortesia Municipalidade de Fürth

Parte dos equipamentos que convertem o calor cloacal em calefação para o palácio municipal de Fürth. - Ricarda Hager/Cortesia Municipalidade de Fürth

Cada vez que a água quente usada na cozinha ou no chuveiro vai pelo ralo, com ela também vai uma quantidade substancial de energia. Aproveitá-la custa pouco e só exige mecanismos simples de troca e transmissão de calor. Alguns já estão fazendo isso. Esta riqueza energética – que permite reduzir o consumo de combustíveis fósseis e as emissões de gases que aquecem a atmosfera – flui pelos canos de esgoto. E foi aí que a municipalidade da cidade de Fürth, no Estado alemão da Baviera, foi buscá-la.

Há dois anos, o governo da cidade utiliza a água das tubulações de esgoto instaladas nas proximidades do palácio municipal para aquecer o edifício durante o inverno. "Nas tubulações ligadas às cloacas da vizinhança circulam pelo menos 150 litros de água por segundo, com temperatura entre 12 e 16 graus centígrados, o suficiente para alimentar a calefação do palácio municipal", disse ao Terramérica a engenheira encarregada da administração de edifícios na cidade bávara, Katrin Egyptiadis-Wendler.

"No outono de 2010, no contexto da lei alemã de promoção de energia renovável, trocamos o antigo sistema de calefação e instalamos um novo, a gás e muito eficiente, um mecanismo de troca e transmissão de calor ganho da cloaca", explicou a engenheira. Os requisitos indispensáveis para recuperar a energia do esgoto são um volume constante de água fluindo pelas tubulações de pelos menos 15 litros por segundo e temperaturas não inferiores a 12 graus. "Isto é, a água tem de ser usada e não estar misturada com a da chuva, que é muito fria para nossos propósitos", acrescentou Egyptiadis-Wendler.

Em Fürth, a prefeitura instalou uma série de trocadores de calor ao longo de 70 metros de tubulações de esgoto. Estes dispositivos absorvem o calor da água usada e, mediante uma bomba de calor, o elevam até 50 graus para injetá-lo no sistema de calefação do prédio, construído há mais de 170 anos. "A única energia extra que precisamos é a eletricidade para fazer funcionar a bomba", disse Egyptiadis-Wendler. "Com este sistema fornecemos 70% da calefação consumida no edifício. Somente quando o inverno é muito frio necessitamos usar o gás que instalamos em 2010", acrescentou.

Esta recuperação de energia implica, a cada ano, a emissão de 130 toneladas a menos de dióxido de carbono (CO2), o principal gás-estufa, e 14 toneladas a menos de partículas finas. Além disso, é economizado 65% do combustível que era utilizado antes da instalação do sistema e que chegava a cerca de 85 mil metros cúbicos de gás por ano. Desta forma, o investimento total no novo sistema de calefação, de 550 mil euros, estará completamente amortizado antes de 2018.

Apenas cerca de 30 prédios alemães, em particular grandes centros comerciais e hotéis, utilizam sistemas semelhantes para recuperar energia das cloacas ou do calor gerado dentro das instalações. No entanto, segundo a Associação Alemã de Água, Esgoto e Resíduos (DWA), seria possível instalá-los em muitos outros lugares, pois as condições necessárias para um bom funcionamento são relativamente fáceis de serem atendidas: proximidade da fonte de calor e um volume constante de fluido quente, para evitar perdas devido às distâncias e dispor de uma temperatura mínima regular.

"É muito simples absorver o calor das tubulações, seja de esgoto ou de ventilação. Contudo, é preciso avaliar se o ganho de energia justifica os investimentos necessários", disse ao Terramérica o diretor-gerente da DWA, Johannes Lohaus. O método pode ser aplicado de maneira inversa durante o verão. O calor absorvido da água usada das tubulações, ou dos próprios edifícios, pode ser esfriado para alimentar o ar-condicionado.

Isto é feito por uma loja em Berlim, da rede de móveis e decorações Ikea. O prédio, de 43 mil metros quadrados, aplica no inverno um sistema idêntico ao de Fürth, absorvendo calor das águas de esgoto. E no verão o processo inverso retira calor do edifício e o transforma em fluido frio para realimentar o sistema de ar-condicionado. "Dessa forma não necessitamos de um sistema de climatização convencional e reduzimos nossas emissões de CO2 em 700 toneladas por ano", disse ao Terramérica a porta-voz da Ikea, Simone Setterberg.

Esta reciclagem de calor tem, no entanto, um aspecto negativo: o esfriamento das cloacas coloca em perigo as bactérias que constituem um filtro natural de eliminação de impurezas da água de esgoto. "A eficiência das bactérias é maior se a água de esgoto é relativamente quente", explicou Lohaus. "Se a água esfria muito com a reciclagem do calor, as bactérias não sobrevivem e é necessário ventilar as cloacas para obter o mesmo nível de limpeza produzido via bactérias, o que representa maior investimento em energia", acrescentou. Envolverde/Terramérica

* A autora é correspondente da IPS.

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *