Iraque: Prematura sensação de entusiasmo sunita

Washington, 01/11/2005 – O resultado das últimas duas consultas eleitorais no Iraque demonstra que a minoria sunita não aceita a liderança dos partidos políticos que dizem representá-la, com gostariam os Estados Unidos, e sim a dos clérigos religiosos e líderes rebeldes. Washington menciona a formação no Iraque de uma coalizão de partidos políticos sunitas com vistas às eleições parlamentares de dezembro como evidência do sucesso de sua estratégia contra a insurgência. Mas este argumento, do mesmo modo que o da elevada participação sunita no referendo do dia 15 de outubro, evita mencionar que a esmagadora maioria dos eleitores dessa comunidade seguiu instruções de rebeldes e clérigos islâmicos contrários à ocupação do país.

O envolvimento sunita no sistema político iraquiano causará "uma gradual erosão do apoio aos rebeldes", disse ao jornal norte-americano Los Angeles Times em Bagdá um "Funcionário ocidental", termo usual para se referir ao embaixador norte-americano Zalmay Khalilzad. A fonte do jornal fez essa apreciação depois do anúncio, há alguns dias, da aliança entre três organizações políticas sunitas para apresentar candidatos com vistas às eleições de 15 de dezembro. Quando ainda estava em andamento a apuração dos votos do referendo constitucional, Khalilzad afirmou no último dia 16 que a alta participação sunita era "um bom sinal dos resultados de nossa aproximação com os sunitas". A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, concordou. "Os sunitas estão se unindo à base deste amplo processo político", afirmou.

Vincular a população sunita com a insurgência é politicamente conveniente para o governo de George W. Bush. Mas a evidência indica que a esmagadora maioria dos sunitas compareceu às urnas não pela convocação dos políticos sunitas, mas porque clérigos e rebeldes armados desse extrato social decidiram aliar-se para derrotar a reforma constitucional. A quase total ausência de violência no dia da votação em território sunita, atribuído à "vigilância de forças de segurança norte-americanas e iraquianas" pelo porta-voz militar de Washington, general Rick Lynch, foi, de fato, resultado de uma decisão tomada em agosto por líderes de grandes organizações rebeldes.

A decisão de ir às urnas com a finalidade de derrotar a reforma constitucional foi apoiada pela influente Associação de Acadêmicos Muçulmanos e a maioria das organizações seculares. Poucos dias antes do referendo, legisladores xiitas e curdos aprovaram uma lei que dificultava a rejeição do texto constitucional, ao exigir que dois terços de todos os eleitores registrados, e não dos que efetivamente participassem da consulta, votasse pelo Não. Em resposta a essa medida, um alto membro do insurgente Exército de Mohammed informou à revista norte-americana Time que várias organizações consideravam "um fechamento total" das três províncias de maioria sunita 10 dias antes e até 10 dias depois do referendo para garantir o boicote.

Porém, o parlamento reviu a lei sob intensa pressão mundial. Os rebeldes sunitas, então, coordenaram um cessar fogo para garantir uma grande participação de sua comunidade nas urnas, como confirmou um de seus líderes à agência de notícias Reuters no dia 19 de outubro. Por outro lado, os jihadistas (extremistas que cultuam a guerra santa) estrangeiros tentaram perturbar as eleições em áreas sunitas, incluindo um ataque contra um local de recepção de votos em Ramad. As ações militares norte-americanas, as ameaças jihadistas e a violência reduziram a votação na província de Anbar, exceto na cidade de Faluja.

O anúncio da aliança dos três partidos sunitas para participar das eleições de dezembro não deveria se confundir com a decisão mais ampla, da comunidade sunita em geral, de participar do referendo deste ano. O Partido Islâmico Iraquiano, a União do Povo Iraquiano e o Conselho pelo Diálogo Nacional são grupos de elite sem base maciça própria, cuja principal motivação é ingressar no parlamento, para o qual estão, inclusive, dispostos a realizar concessões a partidos xiitas e curdos e aos funcionários norte-americanos que os apóiam. Apenas quatro dias antes do referendo, um pequeno grupo sunita, que incluía dirigentes do Partido Islâmico Iraquiano, comprometeu seu apoio à Constituição perante representantes políticos das comunidades xiitas e curdas, com a condição de renegociar no futuro parlamento algumas cláusulas da Constituição.

Um desses políticos sunitas, o magnata da televisão Mishan al Jabouri, garantiu que o voto em favor do texto constitucional na província de Saladín chegaria 80%. O resultado final nesse lugar foi de 88%, mas… contra, o que deixava evidente que os tradicionais intermediários do poder na comunidade sunita tinham perdido sua influência. Na cidade de Tikrit, 96% dos eleitores se manifestaram pelo NÃO, em Faluja 97% e em Samarra 95%. Ainda não há dados dos distritos sunitas de Mosul, mas observadores dessa comunidade afirmam que a proporção é semelhante à de outras grandes áreas urbanas nas quais predominam.

As eleições parlamentares de janeiro também demonstraram a falta de apoio para os partidos sunitas: tanto a União do Povo Iraquiano quanto o Partido Islâmico Iraquiano pretendiam apresentar seus candidatos, mas os líderes rebeldes e religiosos sunitas convocaram o boicote. O partido Islâmico chegou a se registrar antes da convocação do boicote, mas por fim não participou da campanha. A União do Povo do Iraque sim, e recebeu apenas 15 mil votos. Segundo informes de primeira mão de quase todos os centros urbanos de predomínio sunita, entre 95% e 98% dessa comunidade se manteve longe das urnas nas eleições de janeiro. (IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador independente e analista de política externa, além de autor de "A terceira opção no Iraque: uma responsável estratégia de retirada", na edição de outono do Middle East Policy.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *