Direitos Humanos: Limpeza de imigrantes na França

Paris, 04/11/2005 – Os violentos enfrentamentos entre jovens imigrantes e policiais na França também desataram uma violenta guerra de palavras dentro do governo, a qual questiona o respeito deste país aos seus ideais em matéria de direitos humanos. Na semana passada, bandos de jovens imigrantes e descendentes de imigrantes incendiaram cerca de 50 automóveis e mais de uma centena de estabelecimentos comerciais e espaços públicos em áreas periféricas do nordeste de Paris. A polícia respondeu com granadas de gás contra uma mesquita do distrito de Clichy-sous-Bois, uma dessas regiões, a 30 quilômetros da capital. O incidente que desatou a violência generalizada foi a morte, no dia 27 de outubro, de três adolescentes, eletrocutados em uma estação de alta voltagem onde se escondiam para fugir da polícia.

O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, disse, inicialmente, que os jovens haviam sido surpreendidos roubando. Porém, um porta-voz do Departamento de Justiça o desmentiu: "Ao que parece, simplesmente se assustaram e saíram correndo pensando que a polícia os perseguia, o que não era verdade", disse. Centenas de moradores de Clichy-sou-Bois participaram de uma manifestação de protesto. Mais tarde, grupos de jovens furiosos queimaram automóveis, lojas e até uma escola. Também atacaram os policiais com pedras e, em alguns casos, com armas de fogo. A situação se agravou quando Sarkozy se referiu aos jovens violentos dos bairros pobres da periferia de Paris – em sua maioria habitados por famílias de imigrantes – com o termo "recaille", que significa escória humana.

O ministro do Interior disse, em seguida, que se preparava para "limpar" esses bairros com uma "Kaercher", máquina de limpeza por alta pressão utilizada principalmente na indústria. As palavras escolhidas pelo ministro motivaram um protesto imediato de organizações de direitos humanos e anti-racistas, e deu lugar a discussões políticas, inclusive dentro do próprio governo. O vice-ministro para a Promoção da Igualdade de Oportunidades, Azouz Begag, disse que Sarkozy usou uma linguagem "insultante" e "belicosa" para se referir a problemas sociais e de segurança que são associados aos imigrantes pobres da França. "Essa linguagem é uma provocação", disse Begag, único membro do governo pertencente a uma família de imigrantes. Embora nascido em Lyon, Begag tem ascendência argelina.

O vice-ministro também questionou os métodos usados por Sarkozy para lidar com a situação social e o clima explosivo que apresentam as áreas com população de baixa renda. "Temos que deixar de ir a essas zonas pobres cercados de jornalistas e câmeras de televisão. Devemos ter tempo para ouvir com paciência as necessidades e reivindicações das pessoas, que têm razões muito concretas para se sentirem discriminadas", afirmou Begag. Os bairros pobres na periferia das grandes cidades sofrem uma deterioração social extrema, segundo um relatório divulgado pelo parlamento. O desemprego e a pobreza nessas áreas são do dobro da média nacional, e o acesso aos serviços de saúde é muito limitado, segundo o estudo.

Organizações que lutam contra a discriminação racial, como SOS Racismo, demonstraram que as solicitações de emprego por moradores desses bairros são sistematicamente rejeitadas pelos empregadores. A violência que supõe essa rejeição sistemática, bem como o desemprego, a pobreza e o sentimento de exclusão, são alguns dos fatores que levam a delitos menores e aos enfrentamentos entre grupos. Sarkozy, que pretende conquistar a presidência nas eleições de 2007, colocou o controle da imigração e a batalha contra os delitos menores no centro de sua campanha eleitoral, com o objetivo, para muitos, de conquistar a extrema direita.

O periódico Journal du Dimanche, que apóia o governo conservador de Jacques Chirac, condenou as expressões do ministro do Interior, as quais qualificou de "retórica própria de extremistas de direita". O ex-primeiro-ministro socialista Laurent Fabius disse: "Com suas palavras e sua conduta, Sarkozy cria um clima terrível nos bairros pobres do país". Por sua vez, o dirigente socialista Arnaud de Montebourg o chamou de "incompetente" e disse à IPS que Sarkozy é capaz de manipular indevidamente todos os problemas sociais da França para se promover". Sarkozy respondeu dizendo: "Falo a linguagem das pessoas, as palavras que o povo francês entende". (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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