Helsinque, 04/11/2005 – A agricultura alternativa oferece mais possibilidades de desenvolvimento para a África do que a ajuda monetária, segundo Dov Pasternak, diretor do Programa Internacional de Cultivos em Terra Árida (Ipalac, sigla em inglês), especialista em projetos agrícolas nesse continente. "Todos falam em ajudar a África, mas esse discurso não tem substância", disse à imprensa. O Ipalac tem sua sede em Niamey, no Chade, na África ocidental, e busca promover o uso racional das plantas em áreas propensas à desertificação. O projeto é financiado basicamente pelo governo finlandês. Durante os últimos 10 anos, os maiores doadores internacionais, incluindo o Banco Mundial, abandonaram a questão agrícola, que também saiu da mira dos que tomam decisões na África, seguindo Pasternak.
"A redução da pobreza não pode ser alcançada simplesmente transferindo grandes quantidades de dinheiro", afirmou. "Se alguém deseja ajudar a África tem de apoiá-la no que faz melhor, e a agricultura é o que os africanos conhecem melhor, simplesmente porque cerca de 80% da população vivem em áreas rurais, onde a principal ocupação está nos cultivos", acrescentou Pasternak. O Ipalac foi criado por cientistas israelenses em 1995 para ajudar os vizinhos árabes em assuntos como administração da água e dos alimentos. Desde então, o projeto expandiu. Israel é líder mundial em agricultura em terras áridas e pioneiro em tecnologias como irrigação por gotejamento, um sistema que permite levar água diretamente a cada planta, em lugar de regar toda a área plantada.
O Ipalac lançou o projeto "Árvores da Terra Santa", destinado a expandir cultivos mediterrâneos como oliveiras, algarobeiras, figueiras, palmas, tamareiras e pinhos, disse o especialista à IPS. O nome é um recurso de promoção da iniciativa entre os agricultores cristãos da região do Sahel, explicou Pastenark. Algumas técnicas agrícolas aplicadas no Sahel, a enorme zona árida fronteiriça do deserto do Saara (oeste e centro da África), têm potencial para serem adotadas amplamente no resto do continente em poucos anos, acrescentou. Entre elas está um sistema de irrigação por gotejamento chamado Jardim do Mercado Africano, que requer pressão hídrica de um metro para irrigar 500 metros quadrados de terra. Até agora, 1.500 unidades foram instaladas em oito países do Sahel. Pasternak acredita que outras quatro mil logo estarão em uso em outras partes do continente.
O sistema custa cerca de US$ 50 para uma área de 80 metros quadrados, e US$ 500 para 500 metros quadrados. World Vision, Care International e Catholic Relief Services estão entre as organizações não-governamentais que oferecem créditos para adquirir estes sistemas de irrigação. Como a tecnologia permite abundantes cultivos, Pasternak diz que os agricultores podem pagar suas dívidas em apenas uma safra. O Instituto Internacional de Investigação de Cultivos para Trópicos Semi-Áridos (Icrisat) com sede na Índia, trabalho junto com o Ipalac em vários projetos, por exemplo, na introdução de práticas inovadoras que constituem uma grande promessa de alívio da pobreza, segundo o especialista.
O Icrisat pesquisa cinco cultivos locais (amendoim, grão-de-bico, feijão, sorgo e milho) cultivados principalmente por agricultores pobres em áreas semi-áridas. O diretor do Icrisat, William D. Dar, disse à imprensa que o grande crescimento populacional na região impede que se mantenha o tradicional sistema de barbecho (período de descanso da terra cultivável). A única opção é intensificar a agricultura. A técnica de micro-dose desenvolvida pelo Icrisat em Niamey supõe um mesmo resultado aplicando apenas 20% da quantidade usual de fertilizantes, porque estes se introduzem diretamente debaixo de cada planta, em lugar de ser espalhado por todo o terreno.
Devido a essas inovações, nos últimos cinco anos mais de cem mil espécies de cultivos e árvores frutíferas resistentes às secas se propagaram pela região do Sahel, disse Pasternak. "Tem de haver uma segunda revolução verde para a África, porque esse continente perdeu a primeira", disse o especialista, referindo-se aos polêmicos processos de renovação realizados na Ásia duas ou três décadas atrás para aumentar o rendimento do trigo e do arroz. A África enfrenta um desafio diferente por causa de suas grandes áreas que sofrem longos períodos de secas ou chuvas insuficientes. E as novas técnicas enfrentam precisamente esse desafio, ressaltou Pasternak. (IPS/Envolverde)

