Pequim, 04/11/2005 – As autoridades da China querem que a economia nacional não só cresça rápido, como também cresça "verde": de maneira sustentável e sem esgotar os recursos naturais. Para isso, o governo solicitou aos encarregados do planejamento que desenvolvam um novo indicador do crescimento da atividade econômica para levar em conta os custos do impacto ambiental e do consumo dos recursos naturais. Este novo interesse por um produto interno bruto verde (O PIB verde) reflete que, embora muito lentamente, o gigante asiático está se afastando de um modelo de crescimento econômico a qualquer preço e se aproximando de um modelo de desenvolvimento sustentável.
O rascunho do novo plano de desenvolvimento econômico qüinqüenal que acaba de ser divulgado pelo governo dá ênfase na necessidade de conservar os recursos naturais. Os dois indicadores que caracterizaram o milagre chinês nos últimos 20 anos (o PIB em espetacular aumento e as rendas disponíveis também em crescimento) já não serão suficientes para avaliar a gestão econômica do governo. Ao fazer as autoridades locais responsáveis pelo desperdício dos recursos naturais, pela contaminação e outros danos resultantes da atividade econômica, Pequim espera deter um acelerado processo de deterioração ambiental.
Mas em seu empenho para "tornar-se verde" o governo chinês terá de vencer um desafio: como assegurar o cumprimento das novas regras sem que isso afete negativamente o crescimento da atividade econômica. Consideremos apenas alguns dos dilemas que se avizinham. Salvar os rios do país é um dos chamados reiterados tanto por funcionários preocupados com a preservação ambiental quanto por ativistas das organizações ecologistas, já que mais da metade das águas dos sete principais rios da China está contaminada.
Entretanto, proteger os rios significa enfrentar enormes necessidades energéticas recorrendo a centrais alimentadas a carvão, que atualmente fornecem dois terços da energia elétrica, mas são uma das causas principais da contaminação do ar. Os graus de contaminação podem aumentar em quatro vezes nos próximos 15 anos se o país não conseguir reduzir seu consumo de energia, advertiu Zhang Lijun, alto funcionário da Agência Estatal para a Proteção Ambiental. As emissões de dióxido de enxofre na China foram as mais altas do mundo no ano passado, e ocasionaram chuvas ácidas em 30% do seu território, segundo informe desse organismo.
Os partidários de manter um grande crescimento do PIB e, portanto, um grande consumo de energia, pensam que é preciso gerar energia de qualquer maneira e sustentam que a chave está em construir mais hidrelétricas, que vêem como uma solução ecológica. O ministro de Recursos Hídricos, Wang Shucheng, previu que a construção de centrais hidrelétricas atingirá seu pico de crescimento nos próximos 20 ou 25 anos, na medida em que se represar os poucos rios que ainda fluem livremente. Somente para a bacia do rio Yangtzé estão planejadas, ou já em construção, pelo menos 46 grandes represas, segundo a Revista Internacional de Represas e Energia Hidrelétrica.
Embora projetadas para evitar inundações devastadoras e produzir energia sem emitir substâncias contaminantes, muitas foram construídas em parte para evitar o acúmulo de sedimentos na central hidrelétrica de Três Gargantas, a maior do mundo. As represas resultantes da construção dessas usinas não apenas destroem o ecossistema, como também obrigam à retirada de milhares de habitantes. Embora o governo afirme que o uso da energia hidrelétrica tenha contribuído para aumentar a qualidade de vida da população, pesquisadores chineses estimam que cerca de 60% dos 16 milhões de pessoas que abandonaram os locais onde moravam para a construção de represas desde a revolução comunista de 1949 continuam sendo pobres.
Tudo isto acrescenta uma dimensão social ao dilema que Pequim enfrenta. Os camponeses das áreas rurais pobres já não são mais a força silenciosa por trás do espetacular crescimento do país. Cada vez mais são vistos protestando contra a construção dessas represas, pela contaminação dos rios e pelo desmatamento. Obrigados a seguir metas e diretrizes contraditórias, não é surpresa que os funcionários façam declarações confusas. O ministro de Recursos Hídricos que promovia o crescimento hidrelétrico em grande escala, disse há pouco tempo que a China deveria limitar a atividade econômica perto dos principais rios e reduzir seu raio de utilização para proteger o meio ambiente.
"Nossa tarefa prioritária é manter o ambiente natural e a vida sã dos rios, e não explorar os recursos hídricos a qualquer preço", disse Wan Shucheng em um fórum sobre conservação realizado em outubro em Zhengzhou, na província de Henan. Pequim deverá aceitar condições em todos e em cada um dos ambiciosos planos derivados de suas novas diretrizes ambientais, e deverá enfrentar os efeitos de seu êxito econômico. Na medida em que os mais ricos pretendem emular o estilo de vida e consumo de seus pares em países industrializados, a frota de automóveis dispara e as cidades chinesas estão asfixiadas pelo tráfego e pela poluição.
As vendas de veículos aumentaram uma média de 50% anual nos últimos três anos e, segundo as previsões oficiais, as vendas passarão de 4,4 milhões de unidades, em 2003, para 13 milhões na próxima década. As estradas da China terão de suportar um total de 130 milhões de veículos em 2020, para quando esse país terá superado os Estados Unidos em número total de automóveis. Obviamente, este fenomenal crescimento do parque automobilístico preocupa os ambientalistas. A China já é o segundo maior emissor de gases causadores do efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global do clima.
Estes gases, dos quais o principal é o dióxido de carbono, são emitidos fundamentalmente pela queima de petróleo, carvão e gás, e se acumulam na atmosfera, acentuando o efeito estufa natural. Se não forem controladas, as emanações chinesas de dióxido nos próximos 20 anos neutralizarão qualquer esforço do resto do mundo para reduzir essa contaminação atmosférica. No ano passado, o governo anunciou que introduziria normas mais rígidas para a fabricação de veículos mais eficientes no consumo de combustível. Também se discute cobrar mais impostos na venda de automóveis.
Mas limitar o prodigioso crescimento do mercado de veículos na China não só é difícil como politicamente explosivo. A indústria automobilística chinesa, a de maior crescimento no mundo, é um dos pilares da economia nacional, é uma fonte de emprego e representa caudalosos recursos fiscais. Para a classe média, comprar um ou dois carros significa aspirar a alcançar a qualidade de vida do mundo industrial. Os ambientalistas reconhecem que arruinar o sonho da classe média é quase tão difícil quanto persuadir os funcionários que abandonem sua adesão aos exorbitantes índices de crescimento.
"A China já não pode se dar ao luxo de sacrificar as preocupações ambientais", disse Xue Ye, diretor-executivo da Amigos da Natureza, a associação civil pró-ambientalista mais importante da China. "O problema é que a política ambientalista do governo ainda não se traduziu em uma legislação, e mesmo quando esta existir, será preciso ver como se dará sua implementação e se será cumprida localmente", acrescentou. Pelo menos no papel, o governo prometeu que para o décimo-primeiro plano qüinqüenal (2006-2011) destinará à proteção do meio ambiente o equivalente a US$ 169 bilhões, o que significa 1,6% de seu PIB, uma proporção que duplica a dedicada a essa área no início dos anos 90.
Um estudo feito no ano passado pela Agência Estatal para a Proteção do Meio Ambiente comprovou que as autoridades locais em todo o país não conseguiram concretizar as metas ambientais fixadas no plano qüinqüenal anterior. Funcionários admitem que muitos mecanismos para reduzir as emissões de gases contaminantes ficaram curtos e que aproximadamente 700 projetos para reduzir a contaminação das águas (a metade dos que Pequim tinha previsto para o período 2001-2005) nem mesmo começaram a ser construídos. (IPS/Envolverde)

