Washington, 09/11/2005 – Teria o vice-presidente norte-americano, Dick Cheney se convertido em um peso morto de que é preciso se desfazer? A pergunta pode parecer prematura quando a sorte do principal assessor político do presidente George W. Bush, Karl Rove, lidera a lista de especulações. Mas a dúvida paira sobre a Casa Branca desde a renúncia do conselheiro de segurança e chefe do escritório de Cheney, Lewis "Scooter" Libby, no último dia 28. Libby foi acusado de perjúrio e obstrução da justiça na investigação para descobrir quem revelou à imprensa a identidade de Valerie Plame, uma agente secreta da Agência Central de Inteligência (CIA), cujo marido, o diplomata aposentado Joseph Wildon, criticou o governo por levar os Estados Unidos à guerra sob falsas premissas.
A sorte de Cheney não depende tanto de Libby dizer aos promotores que seu ex-chefe o incentivou a vazar a identidade de Plame, mas sim de a Casa Branca considerar que o vice-presidente mais poderoso da história deste país se tornou uma séria desvantagem política para Bush e os legisladores do governante Partido Republicano, que necessitam desesperadamente manter o controle do Congresso nas eleições do próximo ano. A aprovação pública de Cheney registrou a maior queda, segundo as últimas pesquisas do Instituto Gallup. A maioria dos entrevistados acredita que o vice-presidente, no mínimo, sabia das ações de Libby. Grande parte do problema é o Iraque, e particularmente o papel que Cheney desempenhou antes da guerra iniciada em março de 2003, como o funcionário mais agressivo em promover a invasão.
Agora, dois terços dos entrevistados pelo Gallup acreditam que invadir o Iraque foi um erro, enquanto mais da metade afirma que o governo "enganou o povo deliberadamente" sobre as razões para a invasão. Nesse contexto, Cheney é particularmente vulnerável. Segundo a Newsweek, o poder do vice-presidente se reduziu praticamente a nada. Na semana passada, a revista citou "um hierarca simpatizante das políticas de Cheney" que afirmava: "Alguém pode dizer que a influência do vice-presidente vai diminuir, mas é difícil diminuir para menos de zero". Isto é, seguramente, um exagero, talvez deliberado. Ainda que tenha perdido influência em política externa, pelas mãos da secretária de Estado, Condoleezza Rice, por exemplo, Cheney continua exercendo um grande peso, inclusive decisivo, em assuntos considerados prioritários.
Alguns deles são a suposta ameaça nuclear do Irã e da Coréia do Norte, bem como a manutenção das faculdades virtualmente absolutas do Poder Executivo para continuar com sua "guerra contra o terrorismo". Cheney foi figura-chave para vetar a proposta de uma viagem a Pyongyang do secretário de Estado Adjunto para Assuntos da Ásia Oriental e do Pacífico, Christopher Hill, antes da rodada de conversações das "seis partes", este mês em Pequim, sobre o programa nuclear norte-coreano. As seis partes (Coréia do Sul, Coréia do Norte, China, Estados Unidos, Japão e Rússia) negociam um cronograma para deter o programa nuclear da Coréia do Norte em troca de ajuda ao desenvolvimento desse país, em particular do setor energético.
De modo semelhante, uma proposta do Departamento de Estado no mês passado para reiniciar as conversações diretas com Teerã, dois anos e meio depois de Cheney ter ajudado a interrompê-las, foi descartada quando o vice-presidente manifestou sua firme oposição. Se Cheney tivesse de fato perdido tanta influência, não poderia ter argumentado na semana passada com tanta energia, em um encontro com senadores republicanos, que o país ficaria em risco inaceitável se a CIA ( e não só o exército) se visse legalmente obrigada a não praticar torturas nem tratamentos desumanos a prisioneiros capturados na "guerra contra o terror". Um projeto com essa finalidade, redigido pelo senador republicano John McCain, está em processo de aprovação no parlamento.
Sua agressiva reação á Emenda McCain valeu a Cheney o mote de "vice-presidente para a tortura", dado pelo conselho editorial do jornal The Washington Post, mas também revelou que o polêmico funcionário acreditava continuar contando com a confiança de Bush e sentia um grande desprezo pelos legisladores republicanos que, por esmagadora maioria, votaram a favor de proibir a tortura. Se for aprovada, a Emenda MacCain torna ilegal o "tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante", tal como define a Constituição dos Estados Unidos, e qualquer técnica de interrogatório não autorizado pelo Manual de Campo do Exército deste país, que foi elaborado para respeitar as Convenções de Genebra que protegem os prisioneiros de guerra. Bush apoiou Cheney nessa questão, embora afirmando que "nós não torturamos".
Respondendo a perguntas dos jornalistas no Panamá, na segunda-feira, o presidente norte-americano afirmou: "Qualquer coisa que fizermos (para proteger o povo dos Estados Unidos), qualquer atividade que dirigirmos, está dentro da lei". Entretanto, está em dúvida se o apoio de Bush continuará incondicional como até agora, sobretudo diante da variedade sem precedentes de forças que se alinham contra o vice-presidente. Segundo um informe publicado segunda-feira pelo Post sobre a batalha interna do governo a respeito da Emenda McCain, Cheney enfrenta cada vez mais oposição de outros funcionários, "incluindo membros do gabinete, pessoal de confiança e legisladores republicanos que haviam apoiado firmemente a administração em tudo que se refere ao terrorismo".
Não só o Departamento de Estado se opõe a Cheney quanto ao tratamento dos presos, como já o havia feito no primeiro mandato de Bush (iniciado em 2001). Segundo o Post, o neoconservador Elliot Abrams, conselheiro-adjunto de Segurança Nacional para a Democracia, e seu chefe, Stephen Hadley, conselheiro de Segurança Nacional, polemizaram com o vice-presidente sobre esta questão. Mais destacável foi a oposição de Gordon England, o novo número dois do secretário da Defesa, Ronald Rumsfeld. Uma fonte do Departamento de Estado descreveu o setor de Cheney como "uma ilha minguante".
A posição de England em matéria de torturas contra os prisioneiros, que reflete a dos militares, está prejudicando particularmente Cheney, pois sugere que o próprio Rumsfeld, um animal político de grande percepção, abandonou o vice-presidente em um momento delicado. Em outubro, quem havia sido chefe de pessoal do ex-secretário de Estado, Colin Powell, o coronel da reserva Lawrence Wilkerson, acusou Cheney e Rumsfeld de terem liderado uma "conspiração" para seqüestrar a política externa dos Estados Unidos depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 contra Nova York e Washington.
Cheney e Rumsfeld, que haviam trabalhado juntos como chefe de pessoal da Casa Branca e secretário de Defesa, respectivamente, durante o governo de Gerald Ford (1974-1977), evitaram os procedimentos formais de tomada de decisões para aparecerem com a sua, afirmou Wilkerson. O coronel desenvolveu este tema em uma entrevista que concedeu na semana passada à Rádio Nacional Pública, na qual sugeriu que a autorização de maus-tratos contra presos partiu de Cheney.
"Houve uma evidente supervisão desde o escritório do vice-presidente para o secretário de Defesa e os comandantes na linha de frente" autorizando práticas que conduziram ao abuso dos presos, disse Wilkerson, acrescentando que o novo chefe de pessoal de Cheney, David Addington, desempenhou um papel particularmente importante. É pouco provável que a questão das torturas, por si só, derrube o vice-presidente. Mas a crescente e agressiva pressão do opositor Partido Democrata para investigar a manipulação de informação de inteligência antes da guerra contra o Iraque sugere outro campo de batalha no qual Cheney deverá jogar na defensiva. (IPS/Envolverde)

