Washington, 01/12/2005 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, garantiu nesta quarta-feira que as forças de segurança do Iraque seriam capazes de controlar esse país sem necessidade de tropas estrangeiras. Porém, informes divulgados pela imprensa indicam que, pelo contrário, contribuem para a desestabilização. Uma série de artigos publicados por importantes jornais norte-americanos desde que se descobriu há duas semanas uma prisão subterrânea na sede do Ministério do Interior do Iraque (onde eram torturados cerca de 170 sunitas) revelaram detalhes sobre a existência de esquadrões da morte dentro da polícia iraquiana.
Estas unidades estariam sob controle dos milicianos xiitas que conseguiram se infiltrar nas forças de segurança do Estado. Trata-se da organização Badr, aparentemente treinada pelo Irã e braço armado do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, e, também, do islamita Exército Mahdi, liderado por Muqtada al-Sadr. Operando por meio de, ou junto com, as forças de segurança iraquianas, os dois grupos, rivais entre si, seqüestraram, torturaram e executaram centenas, talvez milhares, de homens sunitas, segundo informaram nos últimos dias os jornais The New York Times e Los Angeles Times, bem como o serviço noticioso da rede de jornais norte-americanos Knight-Rideer.
"Centenas de denúncias sobre assassinatos e seqüestros foram apresentadas nas últimas semanas, a maioria feita por civis sunitas, que asseguram que familiares seus foram detidos por homens iraquianos uniformizados sem ordem judicial nem explicação alguma", informo o NYT em sua edição de terça-feira. "Alguns sunitas foram encontrados mortos em valas e descampados com buracos de bala na testa, queimaduras de ácido e perfurações no corpo aparentemente feitas com furadeiras. Outros, simplesmente desapareceram", acrescentou. Os motivos para os seqüestros são vários, segundo as informações.
Em alguns casos, parecem estar dirigidos contra supostos rebeldes. Outros seriam parte de uma "limpeza étnica" em determinadas regiões e, alguns seriam represálias pelas décadas de discriminação e repressão do regime do deposto presidente Saddam Hussein (1979-2003), que privilegiou a minoria sunita em detrimento do setor majoritário da população, seguidora do ramo xiita do Islã. Em todo caso, a repressão agora dirigida contra a comunidade sunita ameaça os planos de Bush de reduzir de 160 mil para menos de 100 mil o número de soldados norte-americanos no Iraque no próximo ano através do fortalecimento das forças de segurança iraquianas.
Os Estados Unidos ocupam militarmente o Iraque desde que o invadiram, em março de 2003. Nesta quarta-feira Bush fez um discurso na Academia Naval dos Estados Unidos, na cidade de Annapolis, no qual tentou fundamentar a viabilidade de sua "estratégia de saída" do Iraque. O mandatário garantiu que as forças iraquianas, integradas por mais de 200 mil homens, seriam capazes de conseguir e garantir a estabilidade. "Os norte-americanos devem ter uma idéia clara desta estratégia", afirmou Bush, embora pedisse "paciência". Mas a crescente percepção de que esse efetivos (dos quais 110 mil pertencem ao Ministério do Interior) atuam contra os sunitas em nome dos partidos políticos xiitas só aumentará ainda mais a insurgência sunita.
Os abusos "socavam os esforços dos Estados Unidos para estabilizar a nação, e treinar e equipar as forças de segurança iraquianas, que são os requisitos-chave de Bush para uma eventual retirada", disse o Los Angeles Times. Toby Dodge, especialista em Iraque do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, com sede em Londres, disse que a situação no Iraque "está se convertendo em uma guerra sem regras de todos contra todos. As forças de segurança iraquianas estão se transformando simplesmente em outros elementos de conflito, e se obedecem a alguém, estes são seus comandantes, mas de modo algum obedecem o Estado", disse Dodge ao jornal The Wall Street Journal.
As novas forças iraquianas, surgidas sob a ocupação norte-americana, estão constituídas em sua maioria por unidades recrutadas das guerrilhas curdas "peshmerga" (em curdo, dispostos a morrer) e das milícias xiitas. Suas operações dentro do chamado "triângulo sunita", no centro do país, estimulam a insurgência. Os comandantes norte-americanos procuraram remediar o problema proibindo o recrutamento de ex-membros do partido Baath, de Saddam Hussein, e pagando às milícias tribais para manterem a ordem. Porém, o Ministério do Interior, dominado por xiitas, é o maior obstáculo, sobretudo depois da descoberta da prisão secreta.
O primeiro-ministro, Ibrahim al Jaafari, prometeu que as torturas seriam investigadas e todos os responsáveis castigados, mas o ministro do Interior, Bayan Jabr, ex-líder da milícia Badr, minimizou o assunto. Os informes sobre torturas e assassinatos "são definitivamente críveis e muito preocupantes", disse Joe Stork, especialista em Oriente Médio da organização internacional Human Rights Watch. Na semana passada, o ex-primeiro-ministro do Iraque Ayad Allawi, um xiita que procura o apoio dos sunitas para as eleições parlamentares do próximo mês, afirmou que a repressão da polícia lhe lembrava o regime de Saddam Hussein. "Estão fazendo o mesmo que se fazia naqueles tempos, e coisas piores ainda", disse ao jornal britânico The London Observer. (IPS/Envolverde)

