Comunicações: Democracia da informação desde a raiz

Santiago, 02/12/2005 – A sociedade civil deve protagonizar a democratização das comunicações, um aspecto escassamente abordado na recém-concluída Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, disseram na quarta-feira participantes de um encontro internacional na capital chilena. "Na América Latina não se discute sobre a democratização das comunicações", disse à IPS o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio, fundador da agência de notícias Inter Press Service (IPS), durante a primeira jornada do encontro "Democratização das Comunicações. Do Informe MacBride à Cúpula da Sociedade da Informação". Segundo Savio, "ninguém se ocupa do assunto, nem os governos de esquerda nem os de direita. A classe política tende a ver a comunicação como um sistema de informação desde onde falam às pessoas", acrescentou.

O encontro é organizado pelo Instituto da Comunicação e Imagem da Universidade do Chile (Icei, que abriga a Escola de Jornalismo) e pela Associação de Escolas de Jornalismo e Comunicação Social do Chile, com patrocínio da embaixada da França e da Fundação Konrad Adenauer. A diretora do Icei, Faride Zerán, disse que se trata de um imperativo ético resgatar o Informe elaborado há 25 anos por uma comissão especial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), presidida pelo irlandês Sean MacBride, já que sua proposta de uma Nova Ordem Mundial da Informação e das Comunicações continua vigente no mundo globalizado de hoje.

"Cerca de um bilhão de habitantes do planeta, equivalente a um quinto da população mundial, têm acesso à Internet. Do restante, existe uma alta porcentagem que jamais fez uma ligação telefônica", afirmou Zerán. "Na Noruega, mais de 50% da população é usuária da Internet, enquanto em Serra Leoa, o país mais pobre do mundo, para cada mil pessoas, menos de duas têm acesso à super autopista da informação". Savio, que foi o principal assessor jornalístico da Comissão MacBride, recordou que o informe publicado em 1980 destacava a concentração dos meios de comunicação, no desigual desenvolvimento tecnológico do Norte em comparação com o Sul, no desequilíbrio e na distorção do fluxo das notícias e na erosão da identidade cultural devido ao monopólio da informação.

Por isso, a comissão pedia, entre outras coisas, uma política de desenvolvimento das comunicações nos países do Terceiro Mundo, a criação de mais meios informativos, o rechaço à censura e redução da concentração e do monopólio da imprensa. Este último ponto desencadeou, segundo Savio, uma campanha contra as propostas da Nova Ordem por parte da então primeira-ministra britânica Margareth Thatcher (1979-1990) e do ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (1981-1989), "tanto que Estados Unidos, Grã-Bretanha e Cingapura se retiraram da Unesco". Os Estados Unidos se retiraram em 1985 e retornaram em 2003, enquanto Grã-Bretanha e Cingapura formalizaram seu desligamento em 1985, sendo que Londres se reintegrou em 1997.

"Por três décadas não falamos disto, até que chegou a Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, realizada na cidade suíça de Genebra e em Túnis", disse Savio, para quem a linguagem utilizada nessa instância foi semelhante à do informe MacBride, quanto a considerar a comunicação um instrumento essencial que deve estar ao alcance de todos para construir um mundo mais justo. Entretanto, no debate da Cúpula da Sociedade da Informação (que teve sua segunda fase realizada em novembro em Túnis) se deixou de fora "o perigo da concentração da imprensa, os meios de comunicação não-comerciais e os serviços tecnológicos" e não se discutiu nenhum mecanismo para reduzir a brecha digital, afirmou.

Segundo o presidente do Colégio de Jornalistas do Chile, Alejandro Guillier, que também participou da jornada inaugural do encontro, a tecnologia oferece múltiplas opções, mas se necessita pessoas com vontade e formação para desenvolver projetos informativos alternativos. Guillier disse à IPS que também é importante mudar a forma com que tradicionalmente se vê a democratização das comunicações. "Pensava-se a democratização como um processo que iria fortalecer organismos internacionais, políticos e governos, mas a experiência demonstrou que nesses espaços não se registraram os resultados esperados. Hoje, a sociedade civil é um terreno fértil para essas opções", afirmou.

Os expositores concordaram que é preciso precipitar as mudanças a partir da sociedade civil, para que em algum momento ganhem expressão política. O surgimento da Internet contribui para criar uma cidadania mais ativa, que seguramente causará impacto no mundo político, sugeriu Savio. O desafio para as novas gerações de jornalistas é aproveitar as novas tecnologias e desenvolver a capacidade de compreensão dos novos horizontes culturais, se transformando em pessoas que facilitem processo com maior horizontalidade", disse Guillier. No encontro, que termina nesta sexta-feira, também haverá exposições feitas pelo jornalista e escritor argentino Mempo Giardinelli, o jornalista e ex-diplomata francês Pierre Kalfon, a professora da Universidade Paris 3-Sorbonne Divina Frau-Meigs, e a socióloga Valeria Betancourt, especialista em tecnologias da informação e da comunicação da Associação Mundial para o Progresso das Comunicações (APC).

(IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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