Energia: Com o tanque vazio no paraíso do petróleo

Bagdá, 02/12/2005 – Antes da guerra, o combustível no Iraque era abundante, apesar das sanções da Organização das Nações Unidas que limitavam o acesso da população a muitos recursos. Depois da invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, a escassez é evidente. No subsolo do Iraque fica a segunda reserva de petróleo do mundo, mas os iraquianos são obrigados a esperar em filas insuportavelmente longas para comprar pequenas quantidades de gasolina ou querosene. Durante o regime de Saddam Hussein (1979-2003), o programa humanitário Petróleo por Alimentos da ONU estabeleceu cotas para a produção petrolífera do país, as quais costumavam ser ampliadas ilegalmente.

O governo de Saddam manteve um rígido controle nos poços e nos oleodutos, assim o fornecimento não sofria interrupções. O litro de gasolina custava o equivalente a, aproximadamente, três centavos de dólar. O querosene também era barato, embora uma confiável rede de distribuição de eletricidade reduzisse a necessidade de geradores domésticos e, portanto, também a demanda desse produto. "Costumávamos obter gasolina e querosene muito facilmente no inverno", disse Hussein Rudha, um taxista de Bagdá. "Nem mesmo tínhamos problemas de racionamento. Os preços eram muito baixos". Depois da queda do regime de Saddam Hussein, em abril de 2003, a situação de segurança no Iraque se deteriorou rapidamente. Os oleodutos foram sabotados mais de 200 vezes, o que reduziu o fornecimento local.

Grande parte do combustível iraquiano é controlada por empresas estrangeiras, contratadas pelos Estados Unidos no começo da guerra para administrá-lo. Os iraquianos acreditam que o combustível produzido no Iraque é exportado e que o disponível no mercado local é importado do Kuwati e de outras nações petrolíferas do Golfo. A escassez mudou drasticamente a vida diária no Iraque. Os veículos de Bagdá só podem circular em determinados dias: os de placa par, em dias pares, e os de placa ímpar, em dias impar. Algumas famílias ricas possuem dois carros, com placas diferentes, para contarem com transporte todos os dias.

Além disso, os motoristas só podem abastecer nos dias em que seus veículos podem circular, o que soma às longas filas diante dos postos. "Estava há 13 horas na fila, desde a manhã, quando uma patrulha norte-americana me avisou que o toque de recolher estava para começar. Assim, desperdicei todo o dia", disse o jornalista iraquiano Isham Rashid. A espera não só é incômoda, como também perigosa. "Um dia estava gravando em vídeo uma fila diante de um posto de gasolina. Omar, meu assistente, fazia fotografias. Nosso motorista, Hussein, nos disse, de repente, para escondermos as câmeras".

"Terminei de gravar e escondi o aparelho. Nesse momento irrompeu no lugar um tanque norte-americano, que passou tão perto que quase podíamos tocá-lo". As freqüentes patrulhas do exército dos Estados Unidos fora da cidade e nas estradas são para os iraquianos uma fonte de tensão e ansiedade. "Nas longas filas para comprar combustível tememos ser feridos por um carro-bomba ou nos vermos em meio a um tiroteio", disse Khullod, refugiado em Bagdá. As restrições à circulação e as longas filas tiveram um enorme impacto sobre o desemprego, pois os motoristas são alguns dos poucos iraquianos que ainda podem encontrar trabalho na capital.

A classe média, que perdeu seus anteriores privilégios profissionais e as possibilidades de estudar, conseguiu transformar seus carros em uma ferramenta de trabalho. "Sou taxista porque não pude continuar estudando, tudo está muito difícil", disse Hussein, que tem pouco mais de 20 anos. O querosene, antes abundante a barato, agora é escasso e caro. Como se não bastasse, a infra-estrutura elétrica entrou em colapso com a invasão. A falta de querosene obriga muitas famílias a ficarem sem eletricidade para aquecer suas casas no inverno. "Quando chegamos a Bagdá, meu filho tinha nove dias de vida, e não tínhamos nada para manter o calor. Tivemos de cobri-lo com um monte de mantas", disse Khulood.

A escassez deu lugar a um grande mercado negro, que cada vez age mais abertamente na capital iraquiana. Em alguns lugares, à sombra dos edifícios, homens com idades entre 20 e 40 anos, sentam-se em cadeiras improvisadas com os pés sobre os recipientes com gasolina. Esse é o sinal para quem quer evitar as filas. Nas estradas e nos subúrbios de Bagdá, é comum encontrar crianças com tanques, ao sol ou à sombra de um pé de tâmaras. Os mais ambiciosos se arriscam a acenar para os veículos que passam mostrando garrafas de plástico cortadas que usam com funil.

Uma vez, nosso automóvel ficou sem combustível na estrada. Pedimos a um menino que enchesse o tanque do carro e pagamos uma nota de valor alto. A criança teve de correr até um posto nas proximidades para conseguir troco. Quando nos afastávamos, vimos ele dirigir-se ao mesmo posto com o recipiente vazio, seguramente para enchê-lo novamente. A escassez é apenas um de muitos problemas, mas se converteu em um símbolo do fracasso da ocupação. A economia não poderá se estabilizar até que esteja solucionada a questão do petróleo, e não haverá prosperidade se o lucro do setor continuar deixando o país.

A Constituição iraquiana não faz mais do que exacerbar os problemas, pois deu lugar à privatização dos campos de petróleo e à concessão da enorme riqueza que existe no subsolo do país a companhias multinacionais. Como conseqüência, os iraquianos continuam fazendo prolongadas filas para comprar uma gasolina escassa e cara. Enquanto esperamos enfileirados diante do posto, passa outro tanque norte-americano. Hussein diz, e não parece estar errado: "Esta é a nova Constituição". (IPS/Envolverde)

Brian Conley

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