Aids: Muitos milhões mais de mortos até 2015

Nações Unidas, 02/12/2005 – Pelo menos 74 milhões de pessoas, especialmente das regiões mais pobres do mundo, poderão morrer até 2015 por causas relacionadas com a aids (síndrome de deficiência imunológica adquirida) se os governos não cumprirem suas promessas de combater a pandemia. A Organização Mundial do Trabalho e outros organismos internacionais e ativistas fizeram esta advertência por ocasião do Dia Mundial de Combate à Aids. "O mundo fez promessas consideráveis. É tempo de cumpri-las", afirmou nesta quinta-feira o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan. Há mais de 40 milhões de pessoas com aids no mundo, segundo dados da ONU, e a doença já fez cerca de 25 milhões de vítimas fatais.
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Apesar de essa doença estar presente em todo o planeta, estudos indicam que a maioria das pessoas contagiadas reside em países com renda média ou baixa, onde ocorrem a maior parte das mortes e das novas infecções pelo HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da aids). A África subsaariana é a região do mundo mais afetada. Ali residem quase 26 milhões de pessoas infectadas. Na Ásia meridional e sudeste há mais de sete milhões de doentes. Na América Latina, o número de pacientes com aids é calculado em dois milhões, e quase a mesma quantidade na Europa oriental e Ásia central.

Pesquisas mostram que, nos países em desenvolvimento, a classe trabalhadora é de longe a mais vulnerável. "Quase 90% das mortes ligadas à aids ocorrem entre pessoas em idade de trabalhar", disse o independente Worldwatch Institute, com sede em Washington. O instituto estima que, devido ao HIV/aids, a cada cinco anos a África perde, pelo menos, 10% de seus adultos em idade de trabalhar. Por outro lado, os países industriais perdem apenas 1% no mesmo período. Na Cúpula Mundial de 2005, realizada em setembro na sede da ONU, a comunidade internacional prometeu por em prática a Declaração de Compromissos adotada em 2001, intensificando os esforços de prevenção, tratamento, atenção e apoio a vítimas da aids.

Mas aqueles que participaram das ações internacionais contra a doença duvidam de que os governos levem as promessas a sério. "Nos pediram que agüentássemos ano após ano declarações retóricas disfarçadas de compromissos sobre a aids", disse o diretor-executivo da Campanha Mundial contra a Aids, Marcel Van Soest. Em seu novo informe intitulado "Promessas, promessas, mas quando serão cumpridas?", esta coalizão de organizações da sociedade civil afirma que muitas declarações contra a aids são simplesmente reformulações de anteriores, que evitam compromissos concretos a respeito de entrega de fundos.

Deter e reverter o HIV/aids até 2015 também é um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos em 2000 pelos então 189 países-membros do fórum mundial. Entre as metas figuram garantir até esse ano a educação universal para meninos e meninas e reduzir à metade, em relação a 1990, a porcentagem de pobres, famintos e pessoas sem acesso à água potável nem meios para custeá-la. Outras são promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o HIV, a malária e outras enfermidades, além de garantir a sustentabilidade ambiental.

"Deter a propagação da aids não é uma meta do milênio por si só, é mais um requisito para alcançar as demais", disse esta quinta-feira Kofi Annan, ao exortar os governos a acelerarem seus esforços de luta contra a pandemia. Estudos indicam que as mulheres superam os homens na quantidade dentro da população com aids entre 15 e 24 anos. Segundo a independente Fundação Família Kaiser, com sede nos Estados Unidos, as desigualdades de gênero nas condições sócio-econômicas e o acesso à prevenção e cuidados da aids aumentam a vulnerabilidade das mulheres diante da doença.

Pesquisadores apontam que a epidemia tem múltiplos efeitos para as mulheres, muitas das quais se vêem obrigadas a assumir o cuidado de familiares doentes e outras são vítimas de violência quando se descobre sua condição de portadoras do HIV. Em suas mensagens desta quinta-feira, agências como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial da Saúde tentaram chamar a atenção internacional para o sofrimento de milhões de pessoas com HIV/aids, especialmente as grávidas. O Unicef disse que o número anual de crianças contagiadas pelo HIV/aids poderia cair pela metade se as mães infectadas recebessem cuidados médicos completo, incluindo medicamentos anti-retrovirais.

Estima-se que todos os anos mais de 600 mil meninos e meninas adquirem aids, mais de 80% deles através de suas mães. "Centenas de milhares de crianças nascem com HIV todos os anos, quando isso é algo que pode ser evitado, e muitos deles morrem no primeiro dia de nascidos", disse a diretora-executiva do Unicef, Ann Veneman. Ela também destacou que o número de vítimas infantis poderia se reduzido "drasticamente" se fossem prestados serviços essenciais às mães, o que requer recursos adicionais e ações práticas por parte dos governos. Os fundos internacionais para a luta contra a aids aumentaram de US$ 300 milhões para US$ 8 bilhões entre 1995 e 2005.

Entretanto, ainda está por ver-se se os governos saberão colocar em prática as promessas incluídas na Declaração de 2001. Segundo a Onusida, agência da ONU para a luta contra a aids, os esforços de prevenção atingem menos de 20% dos necessitados. Por outro lado, a organização não-governamental Health GAP criticou iniciativas contra a aids, como a dos Estados Unidos, que em vez de enviar mensagens claras e com base científica pregam somente a abstinência e a fidelidade conjugal em sociedades onde 50% dos jovens têm atividade sexual e nas quais o casamento supõe mais riscos de contágio do que o celibato.

"Não proporcionar tratamentos é algo muito ruim, mas que o governo dos Estados Unidos agrave a pandemia com mensagens evangélicas que ignoram a vulnerabilidade das mulheres e a realidade da sexualidade humana é algo criminoso", disse nesta quinta-feira em uma declaração Sharonann Lynch, da Health GAP. "Os Estados Unidos criaram uma escassez artificial de camisinhas em Uganda, nega-se a financiar uma completa educação sexual para os jovens, amordaça os serviços de planejamento familiar e socava os esforços para atuar com trabalhadores sexuais", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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