EUA-Irã: A hora do realismo

Washington, 05/12/2005 – O anúncio do influente embaixador dos Estados Unidos no Iraque, Zalmay Khalilzad, de que iniciaria negociações diretas com o Irã constitui um novo e claro sinal de que o equilíbrio de poderes dentro do governo do presidente George W. Bush se volta a favor dos chamados "realistas". O anúncio, feito em uma entrevista publicada na semana passada pela revista Newswweek marca uma importante mudança na política externa do governo Bush, que agora se vê obrigada a buscar a colaboração iraniana para estabilizar o Iraque. Washington e Teerã mantêm conversações diretas desde maio de 2003, pouco depois da derrubada do presidente iraquiano, Saddam Hussein pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, e quando a influência dos neoconservadores estava em seu apogeu.

Na época, a administração Bush afirmava que atentados atribuídos à rede terrorista internacional Al Qaeda na Arábia Saudita haviam sido preparados em território iraniano. Esta acusação interrompeu de imediato o diálogo diplomático bilateral que se desenvolvia em Genebra, dirigido pelo próprio Khalilzad e que tinha como temas centrais Afeganistão e Irã. "Fui autorizado pelo presidente para manter um diálogo com os iranianos, como fiz no Afeganistão, diretamente. Haverá reuniões, e isso também é uma novidade e um ajuste" na política externa, disse o diplomata à Newsweek. A decisão de reiniciar as conversações diretas com Teerã, que ainda não reagiu a este anúncio, desencadeou um acalorado debate dentro do governo Bush, insuflado pelos temores do programa de desenvolvimento nuclear iraniano.

Alguns políticos de linha dura, incluindo os neoconservadores ligados ao independente Comitê sobre o Perigo Presente, criado para combater o terrorismo islâmico, querem que a administração se aproxime de Teerã para, assim, ganhar maior acesso aos grupos de oposição iranianos. Os neoconservadores afirmam que, com suficiente apoio dos Estados Unidos, esses grupos poderiam subverter o regime teocrático do Irã, assim como o apoio ao sindicato Solidariedade contribuiu para criar as condições para acabar com o sistema comunista na Polônia em 1990. Mas outros acreditam que seria um erro dar qualquer passo que dê legitimidade internacional ao governo iraniano, sobretudo diante da desafiante postura do novo presidente, Mahmoud Ahmadinejad.

"Por um lado, creio que é uma boa idéia manter contatos com adversários", disse Raymond Tanter, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional, que chegou a propor a Washington que utilizasse contra Teerã o grupo iraquiano Mujahadin-e Khalq, incluído na lista de organizações terroristas elaborada pelo governo norte-americano. "Por outro lado, quando ouço Ahmadinejad propor varrer Israel do mapa me parece que estabelecer contatos seria premiar a beligerância iraniana. Não sei o porque o fazem", acrescentou. Os realistas, grupo que dominou no último século e meio a política externa dos Estados Unidos, mas foi relegado pelos neoconservadores no primeiro mandato de Bush, preferem a ação multilateral e priorizam o fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Por outro lado, os neoconservadores são hostis aos processos multilaterais, em geral, e à Organização das Nações Unidas, em particular. Seus postulados sobre política externa rechaçam o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais. Para o historiador Juan Cole, especialista em Oriente Médio da Universidade de Michigan, o anúncio de Khalilzad tem uma mensagem clara. "É um bom sinal de desespero e um reconhecimento de que o governo Bush necessita da boa vontade do Irã para sair do Iraque", disse á IPS. De fato, Khalilzad explicou que a decisão é parte de uma estratégia geral há tempos reclamada por realistas como o ex-conselheiro de Segurança Nacional Brent Scowcroft e alguns membros do Partido Democrata, de oposição, incluindo seu principal porta-voz em assuntos de política externa, Joseph Biden, que destacam a necessidade de buscar a cooperação dos países vizinhos ao Iraque para uma eventual retirada norte-americana.

Esse objetivo se tornou mais urgente no mês passado, quando ao apoio da população norte-americana à ocupação caiu drasticamente, bem como a confiança na "guerra mundial contra o terrorismo" liderada por Bush. Enquanto o apoio popular ao presidente cai a níveis inéditos desde a administração de Richard Nixon (1969-1974), os democratas intensificam suas demandas de uma volta ao realismo na política externa, e os integrantes do Partido Republicano (no poder) se impacientam. A Casa Branca foi sacudida no começo de novembro quando uma maioria de senadores republicanos votou junto com os democratas um pedido ao governo para que apresente relatórios periódicos sobre as perspectivas de retirar um número substancial de soldados do Iraque em 2006 e treinar efetivos locais para substituí-los.

O Departamento de Defesa tem planos para retirar grande parte dos quase 160 mil soldados do Iraque. A idéia seria reduzir esse número para 140 mil depois das eleições parlamentares iraquianas previstas para este mês; a 115 mil até julho do próximo ano, e para 100 mil, ou menos, até novembro de 2006. Mas estes projetos estão condicionados não só à capacidade do Exército em treinar e equipar dezenas de milhares de integrantes das forças de segurança iraquianas, como também a uma estratégia política efetiva para reduzir a violência da insurgência sunita. Ao mesmo tempo, é chave assegurar que os grupos xiitas, em especial o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, o mais ligado a Teerã, estejam dispostos a aceitar qualquer medida destinada a pacificar o país.

É à luz de tudo isto que devem ser analisadas as tentativas de contatos diplomáticos das últimas semanas no Oriente Médio, sobretudo a Cúpula da Liga Árabe no Cairo, onde xiitas e sunitas iraquianos se reuniram para fazer um chamado pela reconciliação do país e exigir a retirada de todas as tropas estrangeiras. O presidente iraquiano, Jalal Talabani, também emitiu um claro sinal ao fazer uma visita a Teerã imediatamente depois da cúpula árabe. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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