Nairóbi, 12/12/2005 – O governo do Quênia só entrega medicamentos anti-retrovirais à quarta parte das pessoas com aids que necessitam deles. E a falta de alimentos piora o panorama. O desafio assumido pelas autoridades é estender as terapias a mais quenianos com aids, para manter sob controle um conjunto de enfermidades relacionadas com esta enfermidade. Mas segundo a Rede de Pessoas Africanas que vivem com HIV/aids (NAP+), não existe um entusiasmo semelhante – especialmente por parte do governo – para garantir que aqueles que recebem anti-retrovirais contem com uma alimentação adequada, imprescindível para que a medicação tenha efeito.
As terapias com anti-retrovirais reduzem a carga do vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da aids) no organismo. Assim, é freado o avanço da doença e os riscos de contrair outras infecções e a vida é prolongada. Mas há muitos efeitos secundários, e sua aplicação exige hábitos rigorosos e uma combinação adequada de descanso e atividade física. "O governo não nos apóia. Não existe nenhuma iniciativa governamental que cuide de uma adequada nutrição", disse à IPS o coordenador nacional da NAP+, Michael Angaga. "Os esforços do governo para enfrentar a epidemia limitam-se, fundamentalmente, ao fornecimento de anti-retrovirais", acrescentou.
Medina Yahya certamente concordaria com esta afirmação. Moradora em Kibera, o bairro mais extenso de Nairóbi e possivelmente de toda a África, com cerca de 700 mil habitantes, Yahya agora sofre de várias doenças, incluindo diversas úlceras, por receber anti-retrovirais com o estômago constantemente vazio. "Comecei a tomar os remédios no início do ano passado e por muito tempo tomava sem ter me alimentado, porque não tinha nada para comer", contou à IPS. Para Yahya, de 30 anos, foi recomendado interromper o tratamento até que se fortalecesse um pouco. Mas isto depende de conseguir comida para ela e seus três filhos. No momento, depende das doações do Centro de Resgate Stara, uma escola informal que alimenta os filhos de portadores de HIV e que também fornece rações semanais aos adultos.
Susan Asiko, de 35 anos, que faz trabalhos domésticos para Yahya, conta uma situação semelhante. Ela mesma está sob tratamento anti-retroviral desde o ano passado, quando a aids foi diagnosticada. "No começo, os remédios me afetaram porque era difícil conseguir comida suficiente. Fiquei de cama algum tempo, mas quando consegui me alimentar regularmente minha saúde melhorou", disse à IPS. "Conseguir alimento é o principal desafio aqui, especialmente se a pessoa não está trabalhando", acrescentou.
Mais da metade dos quenianos sobrevivem com menos de um dólar por dia, segundo estatísticas governamentais. Em última instância, o preço de um prato de comida, maior do que os remédios anti-retrovirais, pode se interpor no caminho das pessoas que vivem com HIV/aids. "Aqui, os pais interrompem sua medicação por causa dos efeitos secundários que sofreram quando tomaram medicamentos fortes com o estômago vazio", disse à IPS Josephine Mumo, diretora e co-fundadora do Centro de Resgate Stara. "Estão debilitados e ficam de cama em casa, incapazes de cuidarem dos filhos. Depois morrem, deixando-os órfãos", acrescentou.
As tentativas de Stara para que o governo forneça alimentos não têm resultado, afirmou Mumo. Atualmente, a escola recebe provisões de entidades beneficentes. Organizações não-governamentais também trabalham nesse sentido. A NAP+ embarcou em um projeto-piloto para fornecer Nutropath, um complemento alimentício em pó para pessoas com aids. O projeto é dirigido por dois centros em Nairóbi e na cidade de Kisumu, e já chega a 150 adultos e 50 crianças. "O produto pode ser misturado com água, leite ou suco, e os que estão tomando apresentaram grandes mudanças em sua saúde", disse Angaga. "Quem perdeu peso voltou a ganhar. A maioria diz que podem deixar de fazer uma refeição e ainda sentir-se forte".
O governo insiste em que o panorama da nutrição não é tão sombrio quanto NAP+ e outros alegam. "O governo tem um orçamento para apoiar a alimentação através do Fundo Global (para a Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária)", disse Patrick Orege, diretor do Conselho Nacional de Controle da Aids, encarregado de coordenar combate à epidemia no Quênia. O Fundo foi criado em 2002 como uma sociedade internacional para financiar esforços para conter essas doenças. Além do bem-vindo dinheiro do Fundo Global, a pergunta é se o governo não deveria dispor de recursos econômicos próprios para os programas de alimentação destinados às pessoas com aids, especialmente depois de ter adotado a Declaração de Compromisso das Nações Unidas com o HIV/aids.
Esse documento estabelece que os países deveriam "aumentar e priorizar orçamentos nacionais para os programas do HIV/aids, e se assegurar que o dinheiro as destinações adequadas sejam efetuadas por todos os ministérios" e outras entidades relevantes. O lema do Dia Mundial da Aids (celebrado no dia 1º de dezembro) foi "Detenha a aids. Mantenha a promessa", adotado com a finalidade de os governos cumprirem os compromissos assumidos na declaração da Organização das Nações Unidas. Os programas alimentares não recebem muita atenção no orçamento nacional, ao contrário dos gastos com entretenimento dos parlamentares, sem mencionar os automóveis presenteados.
A cada ministro e parlamentar do Quênia cabe uma subvenção de US$ 44.600 para comprar um automóvel, e uma quantia mensal para entretenimento, não inferior a US$ 1 mil. Isso significa que o governo gasta cerca de US$ 200 mil por mês para "entreter" os legisladores. A mesma quantia dá para comprar 17 mil sacas de milho, que sem dúvida ajudariam a melhorar a nutrição dos pacientes de aids mergulhados na pobreza. No momento, 2,2 milhões dos 32,8 milhões de habitantes do Quênia têm o HIV. (IPS/Envolverde)

