Hong Kong, 13/12/2005 – Diante da possibilidade de os ministros de comércio chegarem a um acordo que desproteja os trabalhadores, a Aliança Popular de Hong Kong sobre a Organização Mundial do Comércio prefere um lentidão da liberalização do intercâmbio mundial de bens e serviços. "Houve muita pressão, mas aproveitei", disse Elizabeth Tang, da Aliança Popular, se referindo ao ano "muito agitado" que termina esta semana com a reunião nesta região administrativa especial chinesa: a conferência ministerial da OMC.
A intensa atividade desenvolvida pela Aliança permitiu que as questões negociadas na OMC saíssem das juntas empresariais e das reuniões governamentais para se integrar nas deliberações diárias de ativistas e sindicalistas de Hong Kong, afirmou Tang.
Haverá três grandes marchas de protesto e cerca de 50 seminários, exibições e com certos durante a sexta conferência ministerial da OMC.
A população de Hong Kong se orgulha de "ser capaz de expressar suas opiniões com muita ordem", afirmou Tang, líder da confederação de sindicatos da região.
IPS- A OMC é algo para se intervir ou desbaratar? A sociedade civil dirá muitas coisas em Hong Kong, mas será ouvida?
R- Há muitas oportunidades para intervir. Mantivemos três reuniões das quais participaram o secretário de Comércio e Indústria de Hong Kong, John Tsang, que presidirá a conferência ministerial. O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, veio em outubro e participou de uma mesa-redonda com organizações não-governamentais. Lamy foi muito franco nessas discussões. Mas ao mesmo tempo, não temos pista do que acontecerá com nossas propostas. É como se nossos esforços não causassem impacto, como se nos dissessem:" podem falar que nós ouviremos", e nada mais. Creio que se nossos governos continuarem tratando a sociedade civil desta maneira, sem levar suas posições com seriedade no processo de formulação de políticas, não continuaremos a ser parte desta autodenominada participação. Como estrutura, a OMC está bem. Seus princípios estão bem. Entretanto, sua aplicação real é outra coisa. Portanto, temos de manter este tipo de estrutura multilateral, mas não pode continuar operando assim.
IPS- Qual é o papel dos sindicatos?
R- Em Hong Kong, os sindicatos têm um papel de condução na organização da campanha e em atividades educativas, precisamente porque fomos nós trabalhadores que começamos a sentir primeiro as injustas conseqüências do livre comércio. Muitos trabalhadores de Hong Kong enfrentam redução de salário e são obrigados a trabalhar por conta própria ou com contratos de curto prazo, e é porque o governo quer garantir um ambiente competitivo para o investimento estrangeiro, para que sejamos considerados a economia mais livre do mundo. Por isso, procuram se assegurar de que tudo seja flexível, incluindo as leis trabalhistas. Esse é o vínculo, mas normalmente nossos trabalhadores não vêem a razão imediata: a política de nosso governo.
IPS – O mundo em desenvolvimento pode contar com a China para que apóie sua causa na OMC? A China é uma grande potência econômica e integra a OMC, mas diz ser um país em desenvolvimento…
R- É uma grande pergunta. Pascal Lamy costuma colocar China e Índia como um exemplo de como os países em desenvolvimento podem se beneficiar da OMC. No caso chinês, os números sobre o crescimento econômico e investimento estrangeiro são realmente grandes. Não se pode negar o desenvolvimento da economia, mas não há normas nem medidas apropriadas que garantam uma distribuição justa dessa riqueza.
IPS – Como garantir no processo a proteção das pessoas, especialmente dos trabalhadores? R- A economia rural está em colapso e os agricultores não podem vender seus produtos nem mesmo dentro da China. Depois da redução das tarifas agrícolas muitos se mudaram para as cidades, mas foram trabalhar em fábricas com mínima proteção, sem cuidados com a saúde nem com a segurança. A atração pelo lucro é exagerada. Os trabalhadores que morreram em novembro no acidente em uma mina em Heilongjiang ganhavam US$ 50 por mês. O impressionante desenvolvimento econômico da China não é invejável, pois os trabalhadores pagam um enorme custo. Para a OMC, a China é o exemplo vivo de como os países em desenvolvimento podem se beneficiar do livre comércio. Mas para os sindicatos e as organizações não-governamentais, é o exemplo vivo de como a OMC promove uma abertura viciada do mercado, sem estabelecer ao mesmo tempo normas e leis que assegurem que o crescimento em aliança com as organizações populares e protegendo todos os que participam do processo.
IPS – Como definiria uma conferência ministerial de sucesso?
R- Não queremos um acordo apressado. Dissemos ao secretário John Tsang que não se apresse na conferência, que não tente conseguir um acordo somente por conseguir. Preferiríamos uma lentidão em todo o processo, que os governos voltem aos seus países e realizam consultas públicas e acordos genuínos com organizações populares para decidir depois como liberalizar o comércio e em que ritmo. (IPSTerraViva/Envolverde)
Crédito "Construction Workers", 1936 – James Daugherty

