Bagdá, 16/01/2006 – A Associação de Acadêmicos Muçulmanos, uma entidade sunita criada depois da invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, voltou a ser alvo do exército norte-americano. Esta influente organização, considerada a máxima autoridade sunita no país, trabalha em auxílio dos que perderam suas famílias e dos desempregados, e também é uma forte crítica da ocupação norte-americana. Sua posição provocou vários ataques por parte do exército dos Estados Unidos e um contínuo conflito com o governo interino, dominado pelos muçulmanos xiitas. Os sunitas são o ramo dominante do Islã no mundo árabe, e no Iraque, apesar de serem minoria, predominaram no regime de Saddam Hussein (1979-2003).
O último ataque à sua mesquita, no domingo, parece relacionado com o seqüestro da jornalista norte-americana Jill Carroll, colaboradora do jornal The Christian Science Monitor, com sede em Boston (Massachusetts). Ninguém assumiu o seqüestro, que aconteceu no sábado quando Carroll, de 28 anos, ia entrevistar um dirigente sunita. Seu tradutor iraquiano foi assassinado. A Associação de Acadêmicos Muçulmanos foi acusada de manter vínculos com organizações da resistência iraquiana, mas não existe uma ligação conhecida entre ambos, nem com o seqüestro da jornalista.
As forças norte-americanas, aparentemente, agiram com base na denúncia de um iraquiano. Os soldados atacaram a mesquita de Umm Al Qura, oeste de Bagdá, durante a madrugada, apenas dois dias depois da festividade de Eid al Adha, que encerrou a peregrinação muçulmana à cidade de Meca, na Arábia Saudita. A Associação tem sua sede nesse templo. "Às 3h30, soldados dos Estados Unidos e do exército iraquiano atacaram a mesquita", disse à IPS Akram Ahmed, que é guarda no local. "Alguns dos soldados norte-americanos desceram de helicópteros, prenderam sete guardas e o xeque Yunis Al Ugaidi", um líder religioso sunita. "Procuravam locais secretos na mesquita e perguntaram pela jornalista norte-americana. Mas nunca encontraram nada sobre isso", contou Ahmed.
É difícil compreender o motivo de os Estados Unidos escolherem a Associação como objetivo inicial da investigação do seqüestro de Carroll, que foi condenado pela entidade. Esta, embora tenha se oposto ao processo político sob a ocupação, continuou exortando pela paz, tendo sido essencial para mediar o primeiro cessar-fogo na cidade iraquiana de Faluja. Por causa do ataque à mesquita, os escritórios da organização forma saqueados. Testemunhas disseram que encontraram cruzes pintadas nas paredes. "Os soldados norte-americanos desenharam as cruzes dentro da mesquita, destruíram tudo nela e levaram computadores e armas dos guardas", contou Ahmed. Outros guardas corroboraram com seu testemunho, mas pediram para não serem identificados.
A Associação afirmou em uma declaração posterior ao ataque que os Estados Unidos eram responsáveis por profanar a mesquita e roubar arquivos com informações sobre seus membros. O tenente-coronel Barry Johnson, porta-voz do exército norte-americano, afirmou que a operação foi realizada de madrugada para "minimizar o impacto sobre os fiéis e a vizinhança". Também negou que os soldados tenham profanado a mesquita. Os muçulmanos sunitas se mostraram indignados com esta agressão. Os sunitas constituem 35% da população iraquiana, de 26 milhões de pessoas, e são o segundo setor religioso majoritário, depois dos xiitas, que constituem 62%.
Na última terça-feira, centenas de pessoas se reuniram em uma manifestação realizada nos jardins da mesquita. "O ataque contra Umm Al Qura é um ataque contra os muçulmanos e o Islã", dizia um cartaz. Em um sermão prévio à manifestação, o líder político Harith Al Ubaidi, disse que a ocupação é responsável "pela morte da cada cidadão no Iraque. Se o ocupante deixasse o país, os iraquianos viveriam como irmãos". Em semelhante situação, fica difícil imaginar que esteja próxima a formação de um governo de unidade nacional, que incluiria os sunitas, com asseguram autoridades interinas e de Washington. (IPS/Envolverde)

