Katmandu, 31/01/2006 – O plano de paz do rei Gyanendra do Nepal naufraga. Não há candidatos suficientes para cobrir os cargos em disputa nas eleições locais do dia 8 de fevereiro e os protestos continuam, enquanto centenas de ativistas seguem presos. Essas eleições representam o primeiro passo para o retorno à paz e à democracia prometido pelo monarca, que em 1º de fevereiro deu um golpe de Estado e assumiu todo o poder no país. Prevê-se que depois desta votação sejam convocadas eleições parlamentares para 2007.
Porém, o boicote de sete partidos políticos que concentram mais de 90% dos votos das últimas eleições parlamentares do país, ameaças dos rebeldes maoístas e uma greve nacional convocada pelos partidos se uniram este mês para desalentar possíveis candidatos. "Tivemos êxito. Não há uma só candidatura coberta por pessoas que tenham compromisso político ou que estejam filiadas aos partidos" da aliança antigolpista, disse à imprensa o porta-voz do Partido Comunista, Pradip Nepal. Em Katmandu, que além de ser a capital é a cidade mais segura deste pequeno país, só se apresentaram 98 candidatos para 177 postos, incluídos 10 de prefeito e oito para vice-prefeito.
Porém, o porta-voz da Comissão eleitoral do governo, Tej Muni Bajracharya, expressou satisfação. A Comissão estabelecerá um segundo dia para registro de candidaturas nos distritos onde escassearam os candidatos, afirmou. Entretanto, Bajracharya também disse o jornal Nepali Times que nem todos os aspirantes queriam se registrar como tais. "Tivemos queixas de alguns dos que queriam ser candidatos e não puderam se registrar por causa da 'bandh? (greve geral)", afirmou o porta-voz. "O principal obstáculo foi a psicologia do medo", acrescentou.
Os rebeldes maoístas, que controlam até três quartos das áreas rurais, prometeram desbaratar as eleições quando ficou claro que Gyanendra não atenderia as reclamações para cancelar a votação, nem atenderia às condições pactuadas no final do ano passado entre os insurgentes e a aliança de sete partidos. Desde que deu o golpe de Estado, o rei se cercou de políticos experientes – muitos deles do sistema "panchayat", anterior à democracia – e rejeitou todos os pedidos para negociar com os maoístas e os partidos, aos quais ameaçou declarar "terroristas" se mantivessem seu pacto com os rebeldes.
O monarca virtualmente ignorou o pedido internacional para restaurar a democracia e iniciar conversações de paz, e respondeu habilmente aos cortes na assistência militar da Índia, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha com veladas ameaças aos seus adversários, China de Paquistão. Em janeiro, Pequim mudou ligeiramente sua posição, consistente em declarar a deterioração política do Nepal como assunto "interno", ao expressar sua esperança de que "todos os partidos possam acertar suas diferenças através do diálogo".
Ao mesmo tempo, Katmandu foi tomada por especulações sobre um possível acordo entre Gyanendra e o centro-esquerdista Partido do Congresso, pelo qual esse setor regressaria ao governo pela terceira vez desde a revolução democrática de 1990. Mas não houve nenhum acordo. Por outro lado, um candidato a prefeito pelo Partido Sabdhavana, Bijay Lal Das, foi assassinado no dia 24 no povoado de Janakpur. Após o crime, atribuído a rebeldes maoístas, o governo atendeu o pedido de proporcionar um seguro de vida para todos os candidatos.
No último dia 26, outro candidato a prefeito pelo Partido Sadbhavana do Nepal foi seqüestrado por maoístas no distrito de Bardiya. Em alguns povoados houve nesse mesmo dia, seguramente, mais prisões do que listas de votação apresentadas para registro eleitoral. Ativistas políticos saíram às ruas para impor a greve geral e protagonizaram confrontos com policiais. Duas dúzias de ativistas foram presos no povoado turístico de Pokhara, onde uma pessoa foi ferida a tiros na perna quando a polícia abriu fogo.
Pelo menos outras 30 foram detidas no povoado de Birgunj, depois de entrarem no escritório local da Comissão Eleitoral e rasgarem as papeletas. Na localidade de Dhankuta, os ativistas queimaram urnas e gritaram palavras de ordem contra as eleições, segundo informes da imprensa. No total, mais de duas mil pessoas foram presas em, pelo menos, uma dúzia de localidades, disseram porta-vozes dos partidos. Algumas foram maltratadas pela polícia, que costumam devolver as pedras atiradas pelos manifestantes para controlar as multidões. Mas em Katmandu, cerca de 10 pacifistas realizaram uma vigília silenciosa pela paz, na via pública.
"Reconhecemos que os problemas são políticos", disse Rita Thapa, da organização de voluntários Voz dos Cidadãos. "Mas não temos acesso nem ao rei nem aos partidos políticos. O que podemos fazer?", perguntou. A organização exibiu pequenos cartazes e distribuiu folhetos conclamando o governo a ouvir o pedido de paz da população. Um dos participantes da vigília, Rishi Ram Adhikari, disse que não regressará a Bardiya onde mora, por medo dos maoístas, que dominam o povoado. "Durante muito tempo estive preocupado com a situação e perguntava em que poderia contribuir", disse à IPS.
"Pensei em algo como isto, mas um parlamentar me disse que o problema é político, por isso a solução deve ser política. Respondi que não acreditava que ficar parado aqui fosse a solução, mas que se todos participassem, demonstraríamos que existe uma quarta voz", além do governo, dos partidos e dos rebeldes, "e que a sociedade civil é poderosa", disse Thapa. Os protestos começaram em todo o país desde que o governo estabeleceu o toque de recolher e a proibição de reuniões públicas na maior parte da capital, depois dos mortais atentados maoístas do último dia 14 contra postos de polícia nos arredores de Katmandu e região.
Na madrugada do dia 19, véspera de uma grande concentração convocada na capital, a polícia deteve dezenas de dirigentes e ativistas políticos. As autoridades também voltaram a interromper os serviços de telefonia celular. No dia 21, foi imposto o toque de recolher por um dia. Além disso, os choques entre maoístas e forças de segurança recomeçaram desde que os rebeldes encerraram seu cessar-fogo unilateral, no dia 3 de janeiro. Dezenas de rebeldes morreram. (IPS/Envolverde)

