Buenos Aires, 03/02/2006 – Em cinco anos a tiragem saltou de cinco mil para 30 mil exemplares. Trata-se de uma revista mensal vendida apenas na capital argentina por mais de 250 pessoas que vivem ou trabalham em situação precária nas ruas, muitas das quais fazem parte da equipe de redação. A experiência da publicação Hecho en Buenos Aires abriu um caminho na América Latina. Com primeira de seu tipo na região, nos últimos cinco anos de existência inspirou e colabora na criação de propostas semelhantes no Brasil, Chile e Colômbia. Seu objetivo principal é propiciar uma oportunidade de geração de renda para pessoas da rua, desempregados e excluídos.
A publicação aborda temas de interesse geral, com destaque nas questões sociais, investigação, meio ambiente, arte e cultura. "No início, encontramos muita resistência à idéia", contou à IPS Patricia Merkin, fundadora e diretora do projeto. "Hecho en Buenos Aires é vista como uma maneira inovadora de resolver um problema social, possibilitando que as pessoas em situação de rua possam aspirar uma vida melhor e a integração social e profissional através da autogestão, cortando toda forma de assistencialismo", afirma a revista em seu balanço social 2005. Os vendedores compram o exemplar por 50 centavos de peso (cerca de US$ 0,17) e revendem a 1,50 pesos.
"Isso me permite ganhar a vida", contou à IPS Mariano Sepúlveda, de 20 anos e há dois como vendedor. "Pude progredir", diz este jovem que vende entre 20 e 30 revistas por dia e que após conversar com a IPS segue adiante pensando em seus dois pequenos filhos, "para que eles tenham o que não tiver na minha infância". Mas Hecho en Buenos Aires também é um particular espaço de expressão: "dá voz a grupos da comunidade que carecem de acesso aos meios de comunicação", afirmou Merkin. Na seção "Imprensa do asfalto", vendedores e pessoas que vivem na rua compartilham opiniões, comentários e experiências. No último número há uma entrevista com o vendedor Luis Luna. "Através da revista fiz novos amigos, nos juntamos para falar de tudo em geral, nos fins de semana ou quando acordo", conta nessa reportagem.
A equipe de redação está integrada principalmente por uma dezena de voluntários ligados ao projeto. Mas também "os vendedores levam à redação temas de seu interesse, especialmente ligados aos direitos humanos e ao direito ao trabalho", contou Merkin. Segundo uma pesquisa da própria publicação, quase 70% dos leitores consultados compram seu exemplar tanto para "ajudar o vendedor" quanto pelo "conteúdo" da proposta. A revista "dá visibilidade a um problema social invisível e permite aproximar grupos sociais entre os quais, em geral, não existe ponto de encontro", diz em seu balanço.
Isso é corroborado por Gabriela, uma jovem profissional e fiel leitora. "O que mais me agrada é o contato com o vendedor, compartilhar esse pouco tempo em que ele me oferece a revista, com muita dignidade, respeito e valorizando a si mesmo", afirmou. Nesse sentido, também mais de 70% de seus vendedores, segundo pesquisa dos responsáveis pelo projeto, afirmam que a venda da revista melhorou sua situação pessoal. Quase a metade dos vendedores estava na rua quando aderiu ao projeto. "A venda da revista é uma espécie de primeiro passo em um processo de desenvolvimento pessoal que Hecho en Buenos Aires propõe aos seus vendedores", disse Merkin.
"Se uma pessoa consegue avançar em sua vida e vendendo a revista tem como alugar um quarto, isso não significa que tenha que deixar de vendê-la, já que ter um lugar para ficar ainda não significa deixar de ser um excluído", esclarece a equipe da publicação. "A exclusão não é apenas um fator econômico", explica Merkin. Por esta razão, e junto com apoios privados e estatais, o projeto se amplia com a criação do centro social Puerto 21, um espaço onde são dados cursos e oficinas de criação e de capacitação, assessoramento jurídico e atenção psicológica, tanto para os vendedores quanto ao restante da comunidade em situação de rua.
É que "todo lucro pós-investimento gerados pela revista é reinvestido para criar projetos de apoio social para os excluídos", segundo estabelece desde seus princípios a organização que a Hecho en Buenos Aires integra. Trata-se da Rede Internacional de Publicação de Rua (INSP, sigla em inglês de International Network of Street Papers), uma associação que reúne mais de 50 revistas do mundo de características semelhantes. Contudo, e apesar dos apoios que recebe a revista por parte de fundações, associações e organismos estatais, a sustentação econômica e financeira da iniciativa constitui atualmente um de seus principais desafios. Porém, a meta, segundo Merkin, permanece intacta: "continuar ajudando cada vez melhor as pessoas que se aproximam da organização para que possam, com seu trabalho e nosso apoio, ir em frente por seu próprio esforço". (IPS/Envolverde)

