Nações Unidas, 13/02/2006 – Empregados da Organização das Nações Unidas se levantam contra iniciativas tendentes a destinar determinadas tarefas e serviços do fórum mundial a empresas privadas. Diante de um milhar de trabalhadores reunidos em assembléia, na semana passada, os principais dirigentes do Sindicato da ONU rejeitaram qualquer medida tomada para passar à iniciativa privada os fundos de aposentadoria e planos de saúde. "Isto é muito, muito perturbador. Isto não é uma organização privada", disse na assembléia a presidente do sindicato, Rosemarie Waters. A controvertida proposta de privatização faz parte de uma reforma gerencial, lançada em setembro, pela Cúpula Mundial, realizada no recinto da Assembléia Geral da ONU, em Nova York.
O sindicato pediu ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e à Assembléia Geral, que reúne os 191 países-membros, que levem em conta as preocupações dos empregados ao examinarem mudanças nas normas trabalhistas. "Deveriam ser feitas consultas significativas do início ao fim" do processo, disse Waters à IPS depois da reunião. "Quando a proposta de reforma chegar à Assembléia Geral, cada um de nós terá direito a conhecer o conteúdo do processo". Prevê-se que a Secretaria Geral apresente seu informe sobre o processo de reformas da ONU à Assembléia Geral no final deste mês.
Ao que parece, a reforma administrativa e gerencial tem o objetivo de eliminar a corrupção e a fraude no sistema da ONU. Contudo, o modo como a Secretaria conduz o processo é alvo de críticas, não só por parte dos funcionários como também dos Estados-membros. "Não queremos jogar de lado nossas conquistas do passado", disse, em nome da União Européia, o embaixador da Áustria nas Nações Unidas, Gerhard Pfanzelter. "Queremos continuar conscientes de que a ONU é uma organização de caráter único e não pode se transformar em uma empresa privada". O Grupo dos 77, mais a China, principal grupo das Nações Unidas, com 132 integrantes e expressão do mundo em desenvolvimento, também manifestou sua preocupação com relação ao processo de reformas.
"Parece refletir um avanço para um enfoque mais corporativo. Isto não é apropriado, devido à natureza única da organização", afirmou o representante do G-77 e embaixador da África do Sul, Dumisani Kumalo. A tensão em torno da reforma aumentou entre a Secretaria Geral e o G77 em novembro, quando detalhes de um informe a respeito foram publicados na imprensa norte-americana, antes de serem apresentados aos países-membros e a outros órgãos da ONU. Funcionários e diplomatas acreditam que Annan está se aproximando muito das posições dos Estados Unidos, cujos vínculos com a organização sofrem as conseqüências da invasão do Iraque e do escândalo da corrupção no programa humanitário Petróleo por Alimentos.
O G77 enviou a Annan, em outubro, uma carta protestando contra os esforços da Secretaria para apaziguar os políticos norte-americanos que lançaram uma campanha de imprensa para destacar a corrupção na ONU, especialmente a visita do chefe da equipe da secretaria, Mark Malloch Brown, ao Congresso em Washington. Brown compareceu perante o Comitê de Relações Internacionais da Câmara de Representantes em busca de apoio norte-americano para a reforma da ONU defendida pela Secretaria Geral. Em uma tentativa de tranqüilizar o sindicato dos empregados das Nações Unidas, Brown enviou uma carta a Rosemarie Waters na qual nega a existência de planos para privatizar os fundos de pensão dos empregados da ONU.
No entanto, muitos funcionários temem a perda de benefícios. "Vou me aposentar em junho, com 60 anos. Vão mudar as regras? Estão loucos? Cada dólar conta", disse Michael Pysarenko, que há 36 anos trabalha o setor de segurança da ONU. O sindicato espera uma resposta ao pedido de diálogo apresentado a Kofi Annan. "Estaremos vigilantes diante de qualquer coisa que prejudique nossos direitos", advertiu Waters. (IPS/Envolverde)

