Toronto, Canadá, 14/02/2006 – Importantes empresas de geração de energia e manufatura uniram-se a uma destacada organização de especialistas ambientais para desenvolver o primeiro programa dos Estados Unidos para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Shell Oil, British Petroleum, Cinergy Corp, Intel, Alcan Inc, entre outras companhias, aprovaram a Agenda para a AçãoClimática, apresentada pelo Centro Pew sobre Mudança Climática Global, uma organização não-governamental com sede no Estado norte-americano de Virginia que trabalha com particulares para fornecer informação e solução confiáveis sobre mudança climática.
Este informe é o primeiro consenso amplo sobre as políticas necessárias para que os Estados Unidos abordem com êxito os problemas ambientais causados pela queima de combustíveis fósseis como petróleo e carvão, disse Eileen Claussen, presidente do Centro Pew. O documento, divulgado no dia 8, coincidiu com um chamado amplamente divulgado, de 85 influentes líderes cristãos e evangélicos dos Estados Unidos, para que o Congresso aprove uma legislação que leve à redução das emissões de gases que causam o efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global.
"Alguns acreditam que a resposta à mudança climática reside nos incentivos tecnológicos. Outros dizem que limitar as emissões é a única resposta. Necessitamos das duas coisas", afirmou Claussen. Os Estados Unidos respondem por 25% das emissões mundiais de gases que levam ao efeito estufa, mas o presidente George W. Bush retirou, em 2001, a assinatura que seu antecessor, Bill Clinton (1992-2001), havia colocado no Protocolo de Kyoto. Este documento, que já foi ratificado por mais de 150 países, obriga as nações industrializadas a reduzirem, até 2012, as emissões de gases causadores do efeito estufa em 5,2% abaixo dos níveis registrados em 1990.
A negativa de Bush em considerar obrigatórias as reduções de emissões o deixou em más relações com as organizações ambientalistas, muitos governos estaduais e locais e, inclusive, com uma grande quantidade de companhias preocupadas com o fato de a atual dependência dos combustíveis fósseis ser insustentável a longo prazo. O informe do Centro Pew diz que as concentrações de gases que causam o efeito estufa são as mais elevadas em centenas de milhares de anos, causando "impactos observáveis em todo o mundo, e estas mudanças estão ocorrendo maisrápido do que o esperado".
"Estou convencido de que é prudente agir agora para abordar o que sabemos (sobre mudança climática)", disse James Rogers, presidente da Cinergy, empresa de energia com sede no Estado de Cincinnati, que é a quinta maior produtora norte-americana de eletricidade a partir do carvão. O relatório exige uma combinação de redução obrigatória das emissões que inclua toda a cadeia econômica, pesquisa científica, produção de energia alternativa e adaptação. Há15 recomendações específicas que podem ser implementadas de imediato, que inclui reduções no país e compromisso no processo de negociações internacionais. "O informe representa um plano de ação pragmático e significativo para reduzir as emissões", afirmou Vicki Arroyo, diretora de Análise Política do Centro Pew.
A participação construtiva por parte dos Estados Unidos em nível internacional, para fortalecer os esforços globais no sentido de reduzir as emissões, é parte importante deste plano, disse Arroyo à IPS. "O plano de redução voluntária do governo Bush claramente não está funcionando, e isso não vai mudar sem políticas e regulamentações", acrescentou. O presidente da Shell, John Hofmeister, concordou com Arroyo. "As mudanças são necessárias em nossa infra-estrutura de energia para cumprir com a demanda futura, e responder à mudança climática não acontecerá por acaso. Um contexto de trabalho claro e de longo prazo dará ao negócio o incentivo e a confiança necessários para investir mais", acrescentou.
O informe dá especial atenção ao uso do transporte e à energia, porque são as duas principais fontes de emissões dos Estados Unidos, disse Arroyo. Somente o setor de transporte representa 30% das emissões neste país. As tentativas para melhorar a eficiência do combustível para veículos nos últimos anos fracassaram, devido à intensa pressão exercida pelos fabricantes de automóveis e algumas empresas de petróleo, bem com pela oposição do governo Bush. Os padrões de eficiência de combustível para veículos nos Estados Unidos, sob o programa Economia Corporativa Média de Combustível (CAFE, sigla em inglês), mudou pouco desde 1985.
Embora seja similar ao atual programa CAFE, a diferença fundamental da proposta do informe é que uma companhia cuja média esteja abaixo do padrão poderia ganhar "créditos" para serem utilizados no futuro ou vendidos para outras fábricas de veículos ou no mercado de créditos de carbono. Também são necessários importantes incentivos do governo para atrair ao mercado os veículos que geram zero ou baixas emissões, junto com o crescente gasto em pesquisa de biocombustível. "Melhorar a eficiência da energia é o mais fácil que poderíamos fazer e as empresas nos dizem que essas melhorias resultam em economia nos custos", disse Arroyo.
Entretanto, o uso e a produção mais eficientes da energia quase não serão suficientes para se conseguir as necessárias reduções de emissões em uma economia onde prevalece o consumo de eletrodomésticos. As emissões de gases causadores do efeito estufa nos Estados Unidos cresceram mais de 18% desde 1990, e o Departamento de Energia prevê que aumentarão outros 37% até 2030. O carvão é, de longe, a forma de energia que produz mais desses gases, e, como é barato, continuará sendo uma importante fonte de energia nos Estados Unidos. Segundo o informe, são necessários investimentos maciços para pesquisar maneiras de capturar e armazenar tais gases das usinas elétricas alimentadas a carvão.
"Vamos necessitar de todas as formas de produção de energia, incluindo mais carvão e a nuclear", disse Arroyo. "Apesar do apoio do governo Bush às tecnologias limpas de carvão, os Estados Unidos não estão investindo nem perto do que será necessário para fazer este trabalho", acrescentou. Atualmente, as empresas constróem novas usinas de carvão, bem como existe uma tremenda urgência para desenvolver estas novas tecnologias, ressaltou. Além disso, é preciso estabelecer um regime de segurança e um contexto regulatório.
"Tudo isto é vital, pois a indústria da energia elétrica se prepara para construir a próxima geração de usinas necessárias para nossa economia em crescimento", afirmou Rogers, da Cinergy. O informe expressa a necessidade de uma ação urgente. A muito necessária transição para uma economia de baixas emissões "não será fácil, mas é crucial começar agora. Uma demora maior somente tornará mais desanimador e caro o desafio que temos pela frente", concluiu Rogers. (IPS/Envolverde)

