Caracas, 14/02/2006 – O governo dos Estados Unidos pediu dinheiro ao Congresso para que a emissora de rádio e televisão oficial Voz da América "melhore suas transmissões de notícias" para a Venezuela, com cujo governo Washington mantém uma forte controvérsia política e diplomática. A medida parece responder às transmissões da Telesur – uma rede de televisão internacional do Estado venezuelano, em sociedade com Argentina, Cuba e Uruguai -, que tenta ser uma réplica regional da TV árabe Al Jazeera, a fim de apresentar "um ponto de vista do Sul sobre os problemas latino-americanos", disse à IPS seu diretor, Aram Aharonian.
A Telesur iniciou suas transmissões em julho, com documentários, longa-metragens e noticiários que na Venezuela podem ser vistos 24 horas por dia nas televisões dos assinantes, enquanto em Cuba transmite resumos diários em suas emissoras estatais, e outro tanto começou no final de semana no canal Ciudad Abierta, do governo de Buenos Aires. Washington explicou que a Voz da América "melhorará sua informação sobre os Estados Unidos e o mundo para a Venezuela, Zimbábue e Afeganistão", com custos que constarão do orçamento de 2007, o qual começará a ser executado em outubro.
A junta de governadores da rádio oficial, também identificada como Voz dos Estados Unidos da América, só anunciou um novo programa de televisão em espanhol para a América do Sul, sem dar mais detalhes. Por sua vez, porta-vozes de Caracas afirmaram que a proposta de Washington "faz parte de uma política intervencionista liderada por legisladores do Estado da Flórida, ligados à máfia anticubana de Miami". O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirma continuamente que Washington tem em seu horizonte estratégico derrubá-lo, liquidá-lo e, inclusive, invadir seu país.
Uma declaração do Ministério da Informação da Venezuela expressou "indignação pelo desperdício do dinheiro dos contribuintes norte-americanos e pela competição desleal que significa a Voz da América transmitindo o que aqui transmitem, com igual ineficácia e menor custo, os meios de comunicação da oposição". Quando surgiu a Telesur, o congressista da Flórida Connie Mack, do Partido Republicano, propôs na Câmara de Representantes incentivar emissões de rádio e televisão para "dar aos venezuelanos informação precisa e objetiva", e contrapor-se "ao anti-americanismo" que intuía se daria no canal latino-americano.
Há cerca de dez dias, a rede Al Jazeera, do Catar, e a Telesur assinaram em Doha um memorando de entendimento para intercâmbio de programas, troca de experiências de capacitação jornalística e técnica, e apoio mútuo aos seus respectivos correspondentes. Mack voltou, então, à carga, pois a aliança entre as duas emissoras "tem o efeito de criar uma rede global de televisão para terroristas", já que, em sua opinião, a TV do Catar "freqüentemente serve de porta-voz do terrorismo". Segundo Mack, para Chávez "não foi suficiente difundir sua propaganda socialista pela América Latina. Agora, está sob a mesma carapaça da televisão terrorista original", acrescentou.
Aharonian disse não haver "nenhum problema em fazer convênios, com qualquer entidade, que sejam benéficos para nossa emissora. Não entendo em que Mack se baseia. Continuamos acreditando em valores como democracia, pluralismo e liberdade de expressão". Caracas considerou as declarações de Mack "um insulto aos governos de Cuba, Argentina, Uruguai e Venezuela", bem como "uma ameaça velada", e recordou informes segundo os quais a administração Bush cogitou, no passado, bombardear as instalações da Al Jazeera, em Doha. Elizabeth Safar, ex-diretora do Instituto de Pesquisas da Comunicação em Caracas, disse à IPS que "isto pode ser visto como uma guerra por ondas, ideológica, política e de propaganda" entre Estados Unidos e Venezuela.
Entretanto, "a efetividade de tais guerras é limitada, se olharmos o que ocorre com a Rádio e Televisão Martí, cujas transmissões são persistentemente bloqueadas ou sofrem interferências por parte do governo de Fidel Castro". Esta emissora foi criada há duas décadas pelos Estados Unidos e realiza emissões dirigidas expressamente para Cuba e reflete pontos de vista do exílio anticastrista. "Por outro lado, a Voz da América transmite informação com mais equilíbrio sobre pontos de vista norte-americanos, e não para um país ou sobre um tema, mas para ouvintes em todo o mundo e em muitos idiomas", disseram à IPS vários de seus correspondentes na região.
Para Andrés Cañizález, professor da Universidade Católica Andrés Bello e compliador de um informe anual sobre liberdade de expressão na Venezuela, "é evidente a semelhança com o que ocorre com a Rádio e Televisão Martí". Contudo, "não apenas se trata de situações diferentes, como também aqui não existe um sistema de controle governamental como o de Cuba sobre o que é informado ou não.
Apesar dos tropeços, existe e funciona a liberdade de expressão", afirmou Cañizález. Safar recordou que desde que o Congresso norte-americano cogitou uma oposição à Telesur, Chávez anunciou que usaria a mesma estratégia que a utilizada por Havana. De acordo com o diagnóstico de Safar, "na Venezuela existe um governo militarista e autoritário, que restringe o direito à livre circulação da informação, por exemplo, com as redes de rádio e TV obrigatórias, que transmitem as mensagens do presidente, que muitas vezes duram até sete horas", e com esse estilo é certo que responderá a uma ofensiva ou "guerra" de ondas que venha do Norte. (IPS/Envolverde)

