Toronto, 02/03/2006 – Além de provocar virulentas e terríveis enfermidades, o uso da biotecnologia com fins terroristas pode enfraquecer a luta contra a fome e as doenças, alertam especialistas em ética aplicada às ciências. Avanços científicos de última geração, como a biotecnologia e a nanotecnologia, "supõem sérios riscos potenciais para o público", disse à IPS Peter Singer, diretor do Centro Conjunto para a Bioética em Toronto. Mas "se o que nos preocupa são apenas a biossegurança e os riscos, deveríamos criar um grande muro para impedir o desenvolvimento destas novas tecnologias", afirmou Singer, co-autor do informe "ADN para a paz. Reconciliando biodesenvolvimento e biossegurança". O estudo enfatiza as possibilidades que a biotecnologia oferece na luta contra as doenças, a fome e a pobreza, especialmente no Sul em desenvolvimento. "Nosso maior temor é a perda de oportunidade para o mundo em desenvolvimento que sofreríamos como conseqüência de uma reação exagerada do público e dos países a algum incidente bioterrorista", disse outro co-autor do relatório, Abdallah S. Daar. Não se trata de uma ameaça iminente, mas para o futuro, acrescentou Daar, que é co-diretor do Programa sobre Genômica e Saúde Mundial do Centro Conjunto para a Bioética.
De todo modo, a preocupação diante de tais eventualidades poderia levar os países a impor controles rígidos, regulamentações ou proibições que abortem o desenvolvimento das novas tecnologias, afirmou o especialista. Os laboratórios de biotecnologia e nanotecnologia surgem como fungos por todo o planeta. Somente no Brasil há cerca de 400 companhias de pesquisa e desenvolvimento biotecnológico. Cingapura e Malásia investem dezenas de milhões de dólares em pesquisa. E cientistas vietnamitas acabam de anunciar a criação de um arroz transgênico resistente ao ataque de insetos. Mas ativistas alertam que os governos e Estados deveriam exercer um controle mais rigoroso sobre as empresas privadas de biotecnologia e nanotecnologia, que resistem a compartilhar suas descobertas por razões comerciais.
Estes ativistas consideram que o relatório do Centro se coloca favorável ao setor privado, ao desestimular as regulamentações e os controles com o argumento de que detêm o avanço científico, sem levar em conta os riscos. Os chefes de Estado e de governo do Grupo dos Oito países mais poderosos decidiram em julho, na sua última reunião, criar uma rede internacional para resolver possíveis conflitos entre o controle do bioterrorismo e o desenvolvimento da biotecnologia. Estas preocupações também estarão na agenda da próxima reunião das Partes do Protocolo sobre Segurança da Biotecnologia, que é parte do Convênio sobre Diversidade Biológica. Os delegados dos países signatários se reunirão em Curitiba entre 13 e 17 deste mês.
Este acordo da Convenção sobre Biodiversidade, também chamado de Protocolo sobre Biossegurança, ou de Cartagena, é o acordo internacional que regulamenta o movimento fronteiriço de organismos transgênicos. Estados Unidos, Argentina e Canadá, que somam 90% da produção de transgênicos, não o ratificaram. A biotecnologia é um conjunto de técnicas que implicam a manipulação ou engenharia das células de organismos vivos. Já são produzidas sementes transgênicas e, num futuro próximo, serão fabricados novos medicamentos, vacinas e reagentes para diagnósticos. A nanotecnologia, por sua vez, se refere à manipulação de matéria não-biológica e biológica em nível de átomos e moléculas. Até agora, é usada na fabricação de telas mais resistentes e cosméticos mais suaves.
Em 2004, os cientistas chineses divulgaram mais informes sobre pesquisas em nanotecnologia do que seus pares norte-americanos. "As preocupações sobre bioterrorismo são legítimas. É mais fácil criar uma bactéria resistente aos antibióticos do que desenvolver um novo antibiótico", disse à IPS Gig Kwik Gronvall, professora de medicina do Centro de Biossegurança da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos. As barreiras científicas, técnicas e de custos à biotecnologia diminuem e a tornam mais acessível e simples. Ao mesmo tempo, acrescentou, aumentem o poder e os riscos, segundo Gronvall.
"Os acidentes serão o grande problema no futuro", afirmou. A acelerada proliferação dessas tecnologias é muito preocupante, segundo a ativista Pat Mooney, da organização ambientalista ETC Group, que se pergunta quem pagará a pesquisa e a infra-estrutura necessárias para regulamentá-las no Sul em desenvolvimento. "Os governos do Canadá e dos Estados Unidos carecem de capacidade para regular adequadamente a biotecnologia e a nanotecnologia em seu próprio território", afirmou Mooney. "Acredito que não devemos confiar que o setor privado fará tudo o que for necessário para proteger o meio ambiente e a saúde humana", acrescentou.
A maior parte da pesquisa em biotecnologia corresponde a companhias privadas que trabalham em segredo para proteger seus interesses comerciais. Esse é um obstáculo enorme para que os cientistas compartilhem a informação necessária a fim de impedir acidentes e mau uso desses avanços, afirmou Singer. As empresas estão a par dessa situação e se mostram dispostas a participar de uma rede mundial para a criação de uma cultura de boa ciência e boas regulamentações, acrescentou o especialista. "Os países nem mesmo podem manejar material nuclear, mas a biotecnologia é aterradora porque envolve matéria viva", disse à IPS a especialista Anuradha Mittal, do não-governamental Instituto Oakland, com sede nos Estados Unidos que estimula a ajuda ao desenvolvimento do Sul.
Os vegetais ou vírus criados através da manipulação genética são difíceis de se rastrear e impossíveis de deter uma vez liberados no meio ambiente, acrescentou Mittal. "O Protocolo sobre Segurança da Biotecnologia. Por que não usá-lo para arbitrar a biotecnologia?", perguntou. A propaganda a favor da biotecnologia como uma necessidade dos países em desenvolvimento representa um sinal do despreparo das companhias do setor diante dos crescentes questionamentos do público, segundo Mittal, para quem "continuam prometendo melhores alimentos e melhores remédios, mas nunca os forneceram".
Mittal recordou que a Índia é o terceiro produtor mundial de alimentos, por isso, a forme não deve ser atribuída à disponibilidade material, mas à pobreza. Esse país, segundo a especialista, não precisa de novas tecnologias para deter as enfermidades, mas de ajuda e investimentos em saúde. "Já que se supõe que são especialistas em ética, por que os membros do Centro Conjunto para a Bioética não trabalham em um assunto como a justiça social?", perguntou Mooney. "Parecem mais interessados em promover a liberação tecnológica", acrescentou. (IPS/Envolverde)

