Birmânia: Junta militar expulsa mediadores do processo democrático

Bangcoc, 10/03/2006 – Ao fechar a porta para uma organização suíça especializada em resolução de conflitos, os militares da Birmânia jogaram por terra toda esperança de ajuda internacional para que esse oprimido país transite rumo a uma sociedade livre e aberta. No final de março, o Centro para o Diálogo Humanitário (HD), organização com sede em Genebra, terá de esvaziar seu escritório birmanês, de onde dirigiu um programa de reconciliação política iniciado em agosto de 2000. Seu representante em Rangun, Leon de Riedmatten, teve de partir no final de fevereiro, quando a junta militar que governo o país desde o golpe de Estado de 1962 negou-se a renovar seu visto. "Fomos informados desta decisão verbalmente", disse à IPS desde Genebra Andrew Andréa, diretor de comunicações do HD, em entrevista por telefone. "Estamos desiludidos. Isto tornará mais difícil nosso trabalho", afirmou. No momento, a esta organização com antecedentes em resolução de conflitos na Indonésia, Filipinas e Nepal, entre outros países, restaram poucas opções além de fechar seu escritório na capital birmanesa.

Mas a decisão da junta acabou sendo uma medalha para Riedmatten e sua equipe, que buscava criar condições para que altos funcionários do governo dialogassem com outras figuras políticas do país no falido processo para a paz e a democracia. Entre lês figurava a líder oposicionista e prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que cumpre prisão domiciliar; membros de seu partido político, a Liga Nacional para a Democracia, e dirigentes das comunidades étnicas do país.

A tarefa do HD permitiu ao enviado da Organização das Nações Unidas para a Birmânia, Razali Ismail, intermediar entre o homem forte da ditadura, general Than Shwe, o ex-primeiro-ministro Khin Nyunt e Aung San Suu Kyi, durante o período de um ano que terminou em maio de 2003. A líder oposicionista passou, no total, mais de 10 anos como presa política. "Antes do HD não havia nenhuma organização estrangeira de destaque preparada para ajudar no processo de reconciliação da Birmânia", disse Soe Aung, porta-voz do Conselho Nacional da União da Birmânia, rede que reúne 30 associações de exilados políticos desse país. "Riedmatten teve muito bons contatos com escritórios de alto nível no governo militar que foram de ajuda", acrescentou.

Não surpreende que governos como o dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, bem como os da União Européia, prestassem muita atenção no trabalho do HD e o consultassem antes de formular qualquer política sobre a Birmânia. "Muitos governos tiveram um diálogo estável conosco, pois sabiam que falávamos com todas as partes", contou Andréa. O acordo de paz assinado em agosto passado entre o governo da Indonésia e os separatistas da província de Aceh é considerado um grande êxito do HD. A organização propiciou um diálogo entre as partes em 1999 e o acordo pôs fim a 25 anos de um conflito que fez 10 mil vítimas.

"O enfoque do HD ajudou a criar as condições corretas para as subseqüentes conversações de paz", disse à IPS Surin Pitsuwan, ex-chanceler indonésio envolvido nas negociações. "O HD se ofereceu como ator não-ameaçador desde o começo, e depois preparou as condições psicológicas para que a paz fosse aceita como uma opção viável", acrescentou. A probabilidade de um êxito semelhante na Birmânia foi atenuada pela dura posição da junta em relação a essa organização. A não renovação do visto dos membros do HD passa uma mensagem inequívoca: a junta militar birmanesa não tem intenções de oferecer hospitalidade a nenhuma organização estrangeira que possa colocar em perigo seu arraigado apego ao poder.

Em janeiro, uma atitude semelhante da junta derivou na interrupção das visitas regulares do Comitê Internacional da Cruz Vermelha às quase 90 prisões da Birmânia onde está a maioria dos aproximadamente 1.100 presos políticos. As severas restrições às viagens impostas pela ditadura a membros de organizações humanitárias internacionais em agosto último forçaram o fim das atividades na Birmânia do Fundo Global para a Luta contra a Aids, Malária e Tuberculose, que tem entre seus membros figuram a Organização das Nações Unidas e o Banco Mundial.

O afastamento do HD só piora a posição de Rangun dentro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), que durante anos ajudou no resgate do país diante de críticas da comunidade internacional. Desde o ano passado, os vizinhos da Birmânia duvidam em manter seu apoio. Este mês, o ministro das Relações Exteriores de Cingapura, George Yeo, refletiu essa situação ao sugerir perante o parlamento de seu país que a intransigência da Birmânia deixa ao bloco regional pouca opção além da de se distanciar do regime. Em anos recentes, a Asean (que também inclui Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Tailândia e Vietnã) viu cair em queda livre suas ações políticas devido à vergonha causada pelo regime cada vez mais opressor da Birmânia. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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