Nações Unidas: A aposta polonesa de Washington

Nações Unidas, 10/03/2006 – Como muitos previam, os Estados Unidos procuram minar a aspiração da Ásia de colocar um dos seus à frente da Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas, que ficará vaga no final deste ano. Sua alternativa: promover uma figura da Europa oriental. "Se realmente existir o princípio de rotação geográfica" para ocupar a Secretaria Geral, "a justiça indica que a Europa oriental" merece o posto, disse em uma entrevista no mês passado o embaixador norte-americano na ONU, John Bolton. O controvertido diplomata não levou em conta que a Europa oriental deixou de existir como entidade geopolítica ao terminar a Guerra Fria, que entre 1945 e 1991 colocou frente à frente os grupos liderados por Estados Unidos e pela hoje dissolvida União Soviética. "A Ásia já teve um secretário-geral. Quando será a vez da Europa oriental?", perguntou em outra entrevista. De acordo com a Carta da ONU, o secretário-geral é designado pela Assembléia Geral com base em uma recomendação do Conselho de Segurança. Um possível candidato é o ex-presidente da Polônia Aleksander Kwasniewski, considerado um "favorito da Casa Branca" por apoiar em 2003 a invasão do Iraque com um contingente de 1.450 militares, que, segundo as previsões, devem continuar nesse país no futuro. "É hora da devolução de favores", ironizou um diplomata asiático para quem a Europa oriental existe como grupo geográfico apenas na ONU. "Provavelmente, estejam interessados em sobreviver como entidade até que consigam o cargo de secretário-geral", acrescentou.

Os grupos regionais tradicionais dentro das Nações Unidas são o asiático, o africano, o da Europa oriental, da América Latina e Caribe, da Europa ocidental e o chamado Outros Estados, que inclui, entre outros, Albânia, Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Geórgia, Hungria, Letônia, Lituânia, Macedônia, Moldávia, Polônia, República Checa, Romênia, Rússia e Ucrânia. Desses, sete ingressaram na União Européia em 2004 (Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Letônia, Lituânia, Polônia e República Checa) dois podem integrar-se em janeiro 2007 (Bulgária e Romênia) e a Croácia o faria em 2010.

"O repentino pedido de Bolton em favor da Europa oriental tem nome e sobrenome, baseado sobre seu apoio ao polonês. Ao que parece, perderá por partida dupla", previu Ian Williams, correspondente na ONU da revista norte-americana Nation. "O bloco da Europa oriental é uma total anomalia da Guerra Fria, e com a maioria de seus membros na União Européia, ou tentando ingressar nela, deveriam integrar-se imediatamente à Europa ocidental", disse Williams à IPS. Por outro lado, acrescentou, é certo que a China vete a indicação de qualquer candidato asiático, e também a Moscou, caso o escolhido seja Kwasniewski, devido à sua acentuada tendência anti-Rússia. "De fato, não se pode evitar considerar que a adesão de Bolton seria um beijo da morte para qualquer candidato, seja polonês ou asiático, pois reduziria o entusiasmo da maioria dos Estados", acrescentou Williams.

Os grupos da África (53 países) e Ásia (50) já anunciaram seu apoio para que um asiático seja o próximo secretário-geral da ONU. Os dois blocos representam mais da metade dos 191 membros das Nações Unidas. China e Rússia, ambos integrantes do Conselho de Segurança com direito a veto, também manifestaram seu apoio. Até agora, os três candidatos asiáticos oficialmente apresentados são Jayantha Dhanapala, do Sri Lanka, ex-secretário-geral para assuntos de desarmamento da ONU; o vice-primeiro-ministro tailandês, Surakiart Sathirathai, e o chanceler da Coréia do Sul, Ban Ki-Moon. Um quarto candidato possível é o chanceler de Timor Leste e prêmio Nobel da paz, José Ramos-Horta, que admitiu que estuda a possibilidade de disputar o cargo.

Desde a criação da ONU, há quase 60 anos, o posto de secretário-geral foi ocupado por três europeus, um asiático, um latino-americano e dois africanos, seguindo, no geral, o critério de rotação geográfica. Foram eles Trygve Lie, da Noruega (1946-1953); Dag Hammarskjöld, da Suécia (1953-1961); U.Thant, da Birmânia (1961-1971); Kurt Waldheim, da Áustria (1972-1981); Javier Pérez de Cuellar, do Peru (1982-1991), e Boutros Boutros-Ghali, do Egito (1992-1996). Kofi Annan, de Gana, ocupa o cargo desde janeiro de 1997 e completará dois mandatos (10 anos) em dezembro.

"Houve um tempo em que se poderia argumentar que a Europa oriental era uma região política separada do resto do continente e, portanto, merecia ser parte do exercício de rotação que permeia a escolha do secretário-geral", disse à IPS o ex-alto funcionário da ONU Salim Lone. Mas isso já não ocorre, acrescentou. "Ninguém diz com mais força que a Europa oriental é integrante plena da Europa do que a própria Europa oriental", afirmou. Lone considerou, inclusive, que o mundo árabe constitui um grupo regional distinto, mas que está integrado nos da Ásia e África, como ocorre com a Europa oriental dentro da Europa.

Até agora, recordou, ninguém pediu que se considere um árabe como tal para encabeçar a secretaria geral. De fato, o egípcio Boutros-Ghali foi eleito como candidato do grupo africano. Também o ex-secretário-geral-adjunto da ONU, Samir Sanbar, considerou a existência da Europa oriental em caráter de bloco geográfico como "uma relíquia da Guerra Fria". Inclusive nesses tempos constituía "majoritariamente uma aliança política de aliados da União Soviética, mais do que um grupo geográfico real". Nesse sentido, ironizou, a Europa oriental já teve seu secretário-geral, e por dois períodos, o austríaco Kurt Waldheim. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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