Jerusalém, 17/03/2006 – A vida dos 1,4 milhão de palestinos da Faixa de Gaza piorou desde que foram desalojados os assentamentos judeus por parte das autoridades israelenses, em agosto passado, afirmam observadores. Gaza, uma faixa de terra de 44 quilômetros de comprimento sobre o mar Mediterrâneo e com seis a 12 quilômetros de largura, é descrita como uma grande prisão desde o início, em setembro de 2000, da segunda intifada, a insurgência popular palestina contra a ocupação israelense. As autoridades de Israel optaram, então por praticar o virtual fechamento das passagens entre Gaza e seu território. Gaza sofre uma volátil combinação de fatores: falta de funcionários encarregados da segurança, grave desemprego, escassa industrialização, risco de infiltração de organizações terroristas e ações militares israelenses, freqüentemente em resposta a ataques palestinos. Nos últimos dias, a imprensa do Oriente Médio destacou as execuções extrajudiciais de combatentes palestinos denominadas "assassinatos seletivos", prática oficial do governo israelense condenada pela Organização das Nações Unidas e por instituições humanitárias por seu impacto na população civil. Militares israelenses mataram esta semana dois dirigentes da organização radical Jihad Islâmica acusados de lançar foguetes Qassam contra colonos judeus. Mas o ataque também matou três crianças e feriu várias outras pessoas.
"Isto não é um videogame", disse à IPS a diretora da organização israelense de direitos humanos B?Tselem, Jéssica Montell. "Estão disparando mísseis contra uma cidade. O fato de não terem a intenção de matar civis não a torna uma prática correta". Desde 2000, 329 palestinos morreram em conseqüência dos assassinatos seletivos, segundo a B?Tselem. Desse total, 213 eram os integrantes de organizações radicais que se pretendia matar. As críticas ao uso da força letal por parte de Israel não terminam em Gaza: a área que rodeia o muro que Israel constrói entre seu território e a Cisjordânia "é considerada zona de assassinato", disse Montell, que baseia sua afirmação em informes dos próprios soldados israelenses.
Israel constrói o muro, que inclui altas paredes de concreto, barreiras metálicas e avançados mecanismos de segurança, com a desculpa de impedir a entrada em seu território de palestinos com intenções de cometer atentados. "As ordens dadas aos soldados não são claras. Devem disparar contra qualquer um que se aproxime da cerca", afirmou Montell. Nove palestinos foram assassinados nas proximidades do muro desde a retirada israelense de Gaza, entre eles alguns que tentavam entrar em Israel em busca de trabalho, crianças extraviadas e uma pessoa que caçava pombas, acrescentou. Mas também os palestinos são responsáveis pelo clima de insegurança em Gaza.
Elena Qleibo, pesquisadora do Centro de Refugiados e a Diáspora Palestina, com sede na cidade cisjordana de Ramallah, considerou que "crianças da intifada", bem com extremistas do partido laico Fatah e grupos islâmicos são os principais culpados pela violência que existe em Gaza, que inclui tiroteios e seqüestros. Qleibo disse à IPS que a maioria dos enfrentamentos ocorrem entre facções políticas e famílias, e que, no geral, não são ao acaso. A comunidade internacional, afirma a especialista, "acredita que é como um povoado de cowboys". A pesquisadora atribuiu a criminalidade hoje predominante em Gaza ao desemprego e à retirada israelense. "As instituições entraram em colapso após 30 anos de ocupação de Gaza por Israel. A única fonte de assistência e proteção para qualquer pessoa é a família".
A chave da histórica retirada de Gaza era acabar com qualquer possibilidade de os palestinos conseguirem poder suficiente para desafiar o ocupante, explicou Qleibo. Isso significa sufocar organizações, entre elas os sindicatos, dispostas a trabalhar na sociedade civil. A Faixa de Gaza conta hoje com um amplo setor de serviços, uma indústria agrícola e uma tradição de subcontratação dos setores israelenses têxtil e calçadista, mas a maior parte do território sofre a falta de desenvolvimento estrutural. O Escritório Central de Estatísticas da Autoridade Nacional Palestina situou o desemprego em Gaza, no ano passado, em 28%, e a proporção de famílias pobres em 84%. A ANP tampouco ajudou a aliviar o sofrimento econômico, pois se converteu em um poder autocrático plasmado em corrupção, o que desmoraliza a população civil, segundo Qleibo.
Os problemas econômicos se agravam com o fechamento arbitrário da passagem de Karni, única porta para as exportações e importações de Gaza. O contínuo controle israelense sobre as passagens "reduz as possibilidades de a economia palestina reviver, encarece os produtos básicos e restringe o acesso aos serviços médicos", disse à IPS o coordenador do Centro de Direitos Humanos Al-Mezan de Gaza, Samir Zaqout. A passagem de Karni está fechada há mais de 60 dias, desde 1º de janeiro. O Centro Comercial Palestino estimou as perdas dos exportadores de Gaza em vários milhões de dólares. Mas para a maioria se trata de mais um detalhe da vida diária de Gaza, onde 90% da população se concentra em oito acampamentos de refugiados da Organização das Nações Unidas. Qleibo disse que a ajuda internacional nos campos permite aos seus habitantes o acesso à educação gratuita e cuidados sanitários, além de dar-lhes uma segurança adequada. O que escasseia, ressaltou, é o alimento.
De todo modo, a vida se torna insustentável nos períodos de fechamento de passagens por parte de Israel, pois os pais não podem encontrar trabalho para alimentar seus filhos. O Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), à frente da Autoridade Nacional Palestina depois das eleições parlamentares de janeiro, ajuda a aliviar as dificuldades através de sua rede de organizações de caridade e de clínicas de saúde, afirmou Qleibo. "Não entendo porque existe tanto temor em relação ao Hamas. O partido se limita a tentar por raciocínio em uma situação que era realmente insustentável", concluiu a especialista. (IPS/Envolverde)

